quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Meu Filho

De faca, madeira muni
o menino que corre, que corre dali

Ligeiro, esperto já sabe roubar
Lamento, espero que saiba fugir

Que roube sem dó tudo que puder
Pra que amanhã eu possa servir

Não nos engane e traga pra cá
O que for preciso pr'eu poder sentir

Que amor e carinho que tanto dei
Voltará dobrado como eu pedi

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Precária Palavra

(um poema inspirado nas idéias de Jaques Lacan)


A palavra não vem
Nunca vem
Renitem em emergir em resquícios quando o acaso convém
No banho
No trono
No sono
No sonho
Só vem o espanto
De sentir que o vivido de cada âmago
É ao papel
Como o céu é para cada estrela
Poesia... imitação
Papel... uma prisão
Que disciplina e acalenta o inominável
Tentando enfeitar a precária palavra

A palavra não vem
Quando vem, já não é a coisa mesma
Está disfarçada
Emana beleza
É válida
Induz alegria, melancolia, tristeza
Embebeda e sublima a mente abita

A palavra não vem
O papel suprime a essência
O labor a lapida e a deixa enfeitada
Obriga-lhe a assumir sua prudência
Mas provem de lugar inexplorado
Inabitado
Onde nada se explica
É inexplicável
... Dentro de nós

A palavra não vem
É melhor não vir
Às vezes também
E só deixar, do vivido, o resquício advir
Para que cause o espanto esquecido de alguém
De quem o sorriso ou o pranto falarão por si

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Minuto de Silêncio

Antes de mais nada acredito que cumpre-me agradecer o convite que me fora enviado pelo grande amigo Ricardo Evandro que, a meu pedido, incluiu-me no rol dos colaboradores deste blog.
Gostaria de deixar claro aos amigos e leitores que não esperem de mim atuações tão brilhantes quanto a dos colegas que aqui também postam. Tentarei cumprir minha parte, somando esforços aos dos companheiros no intuito de compártilhar idéias e artes que por sua natureza devem servir como instrumento de edificação do homem.
Desde já, gostaria de explicitar a minha incontrolável vontade de demonstrar o quão agradecido estou em poder compartilhar este espaço com pessoas as quais eu tanto admiro. Pelo que, como ainda tenho muito a falar, mas as palavras me escapolem quando se trata de mencionar o quão preciosa é uma loja como essa, deixarei este momento com uma poesia a qual representa o meu minuto de silêncio em reverência aos homens de boa vontade que aqui comungam.

Silêncio
Hoje, por algum motivo, eu acordei gritando
Gritava incontrolavelmente, sem saber a que ventos gritar
Gritei por minha mãe, por meu pai, por meu irmão
Gritei na cara deles, mas nenhum deles me ouviu

Passado alguns minutos, entendi que o que gritava era o meu próprio silêncio
Esse silêncio que as vezes me toma e o mundo deixa de ser parte de mim para se tornar alheio
De vez em quando o dia amanhece barulhento, cheio de idéias, cheio de ruídos inconvenientes. É ai que rezo para que o silêncio venha
Mas os dias de silêncio me sufocam, me humilham, me diminuem as idéias

Os dias de silêncio não perdoam os passos em falso
Os dias de silêncio me obstruem o escrever
As idéias não fluem, meu corpo padece
Parece que a vida sai um pouco de mim
Os dias de silêncio são tão tristes, as pessoas falam e eu não ouço

As idéias rangem ao pé do meu ouvido, mas não as compreendo
Esses dias são tão terrivelmente pacatos
Nos dias de barulho procuro o meu silêncio
Mas nos dias de silêncio procuro o grito profundo e melancólico que move minha caneta
Nos dias de barulho quero o silêncio para concatenar idéias
Nos dias de silêncio procuro tudo aquilo que fale mais alto dentro de mim

E hoje, algo entre o silêncio e o barulho me bateu a porta
Algo de doce, algo de firme, algo de inspiração, algo de amor, algo de tristeza, algo de saudade
Algo que me permite, algo que me liberta, algo que me arranha, algo de algo
Algo de verdade, algo pertinente, algo de lúcido
É onde o homem pode se encontrar por completo: um momento pobremente escasso de contradição.

domingo, 1 de agosto de 2010

presos na terra

Acabei de ler o conto do meu amigo David que por sinal é muito bom, levando em consideração tanto a sua jovialidade, 22 anos, quanto tomando como referência os seus contos postados neste blog que não são muitos, portanto uma relativa pequena produtividade. Não fica nem um pouco atrás, em termos de profundidade psicológica, que é o que tem mais de rico nesse conto, somado a alguns parágrafos de uma grande riqueza metafórica, aos contos de uma Lygia Fagundes Telles. Sem bajulação alguma, mas esse conto é bom. Ao ler, destaquei alguns pontos que me chamaram atenção, no que tange à estrutura do conto, que serão entendidos somente por quem já o leu:

1. Falta coerência no uso da linguagem popular do personagem principal, visto que o contista conjuga por vezes os verbos em norma culta no decorrer do diálogo interior do personagem e também em seus diálogos reais com o leitor, causando incoerência na representação e delineação artística do protagonista. Nesse caso fica claro: “Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobra as quais jamais pensara. Doidera?” É difícil imaginar um personagem popular que tem como palavra comum em seu vocabulário a palavra “doidera” conjugando o verbo pensar no pretérito-mais-que-perfeito.

2. O quinto-parágrafo do conto é sem dúvida alguma o que tem mais beleza artística propriamente dito, são 9 linhas que possuem já uma precoce proximidade do autor com as palavras, produzindo-as com ricas metáforas.

3. É bem peculiar o diálogo do personagem com o leitor, pois há por vezes contatos mais ternos no sentido de o narrador como em uma conversa filosófica jogar por alto o entendimento dele ao leitor e noutras o leitor ser tomado como onisciente quando ele sabe inclusive qual é o dia que se passa o conto, sendo convocado a aceitar a priori o entender do narrador, não em assentir flexivelmente como quando o personagem pergunta ao leitor “Pudesse ser assim?” ou “Não é certo o que eu digo?"
A par desses pontos estruturais, é interessante o constante diálogo interior do personagem com a vida cotidiana e o seu constante distanciamento a ela, em um enveredamento filosófico de conhecer-se a si mesmo e com isso sabendo cada vez mais qual é o seu lugar no mundo, quiçá o seu distanciamento pleno. O personagem reconhecendo aos poucos os sofrimentos pelo quais o pai sofre que tragicamente virá a sofrer, ou melhor, no momento mesmo em que esse reconhecimento passa a se dar as dores advém como intimamente intricadas no entender das dores do pai, é seduzido pela infinita fuga de si mesmo querendo mas não podendo mover-se pois seus pés estão e são imóveis, presos na terra. Momento chave para o personagem que deve ou buscar o desbravamento do mundo desconhecido que ao fim e a cabo muito provavelmente irá consistir em um ceticismo ou acreditar, enfrentando em uma solidão resignada, no profundo e verdadeiro ensinamento de seu pai quando lhe fala: "a mentira tem pernas bonitas, meu filho."

segunda-feira, 26 de julho de 2010

diário do poeta inglês albert herbert

"a perfeita união da natureza do leão com a sua dominação cheia de mensidão para com a essência oposta de sua leoa, que ama por amar, embora ame o tolo, mas que não o é em usar de sua juba protetora, sendo tal que é o reconhecimento profundo da beleza de sua oposta e congruente natureza, elevando-a para elevar-se, glorificando-ses."

Para além dos olhos


Naqueles tempos, éramos eu e o Pai. Na verdade, também tinha a Malhada, mas não sei se ela conta não. O que me diz o senhor? Pelo menos, devesse contar. Para nós, o senhor sabe, ela era assim, quase que um membro da família. E por falar em família, tenho que lhe dizer. O Pai teimava comigo que éramos uma família como outra qualquer. Mas hoje, sinceramente, tenho para mim que ele me dizia essas coisas só mesmo para me alegrar. Afinal, não era todo mundo que concordasse que uma família assim sem mãe fosse uma família normal. O dia em que ela foi-se embora, eu nem me lembro mais.

Nunca tive a esperança de que ela voltasse, apesar de o ter pressentido uma vez, deitado na janela. Nesse dia, meus olhos corriam longe que só o senhor visse. Mas tudo não passou de ilusão. Também nunca pedi ao Pai me falasse daquela mulher, como, por vezes, ele a chamava. Ela voltando, era mais um motivo para que eu me quedasse ali, quando sabia que existia todo um mundão aí afora. Mas o Pai, apesar de sempre me dizer que não gostava de tocar no assunto, acabava terminando por falar “naquele nome”, com todas as tristezas que ele sempre trazia. E então me punha a ouvir, mais uma vez, aquela história de amor que tinha um final triste, como, aliás, eram todas as histórias de amor para o Pai. “A mentira tem pernas bonitas, meu filho”, repetia. E então, suspirava e fazia um longo silêncio. “Mas sua mãe era uma boa pessoa. Não quero que penses mal dela”. Ele dizia assim, com a mão encostada no queixo.

Naqueles tempos, para falar a verdade, nem sabia se eu era triste ou feliz. Ia vivendo. Ia correndo e crescendo por aquelas bandas, meio solto, meio preso, respirando e torcendo, me ralando por vezes, ao final, levantando sempre. Às vezes, sentia que algo me prendia ali naquela terra, e não era por causa do barro alaranjado que se pregava liguento sob os meus pés descalços. Era uma sensação de não saber se podia, se realmente podia com tudo aquilo que existia para além dos meus olhos. Será que fora dali se andava diferente, se respirava de modo diferente? Vai ver era bobagem da minha cabeça. Mas, bem lá no fundo, era um pensamento que sempre vinha me visitar, com aqueles seus passamentos na barriga ou aquela vontadezinha de ficar só comigo. Acho que nem não era tão triste assim. Se entristecer assim do nada é bobagem, não é mesmo? Vai era só cansaço, que vinha do nada e do nada se ia, como se nunca houvesse chegado. Na verdade, eu acho que naqueles tempos eu cansava mesmo era de solidão. Não é certo o que eu digo?

Devia de ser por aí. Acho que na vida não nascemos tristes nem felizes, tudo é uma questão de pertencimento, sentir-se parte, o senhor sabe? Pertencer assim a pessoas, lugares ou mesmo àquelas paisagens, que de tão lindas prendem nossos olhos como se quisessem até namorar com a gente. Naquela solidão, cheguei até mesmo a dar para inventar meu próprio mundo, a brincar de ser rei e correr terra, sendo de tudo um pouco, a cada segundo. Nessa história já fui pássaro, herói e até vilão. Mas, nestes enredos, o melhor de tudo era se apaixonar. Ah, como era bom. Amor de mulher bonita, formosa, meio tímida e maliciosa, com cheiro de flor e beijo de tarde preguiçosa. Vai ver toda solidão é uma espécie de loucura. E a minha, longe de me libertar, me prendia mais e mais àquela terra.

E no auge da minha inocente loucura, passei a conversar e convidar as casas do vilarejo a visitarem meu mundo, misturando dentro de mim seus formatos e suas cores, imaginando os sons do vento batendo nos telhados e fantasiando o tempo e as histórias que elas carregavam consigo ao longo daqueles anos. Acho que o que me impressionava nelas é que quando tudo passava, quando todos morriam ou iam-se embora, elas ainda estavam lá, vivinhas e firmes como pedra, prontas para contar todas as histórias. Histórias dos nascimentos, namoros e conquistas daquelas pessoas que, perto delas, passavam tão rápido como uma brisa de tarde. Será que quando nem eu nem o Pai fôssemos, elas ainda estariam lá para contar a história de nossas saudades? O senhor deve saber melhor do que eu.

Mas das casas, na verdade, só não gostava era da minha mesmo. As casas nossas assim, vistas de dentro, parecem como que devoradoras de gente. A minha então, era um nozinho na garganta. Foi o que acabei por comprovar no dia da chuva. Eu estava ali, mal acabara de chegar, trazendo os panos e a serragem que o Pai havia pedido, quando começou o aguaceiro. Com ele, a tempestade foi trazendo também todos aqueles barulhos e fraquezas de sempre. E eu, naquele instante, olhando pela janela, era como se cada gota que caísse fosse parar bem dentro de mim, como se o peito meu fosse feito daquela mesma terra molhada que a agora a chuva encharcava. E ela ia entrando, se acomodando pelas frestas e goteiras, pingando sobre minha cabeça, jorrando diante dos meus olhos, ficando também dentro de mim. Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobre as quais jamais pensara. Doideira? Tentava tirar de mim esses pensamentos, fechava os olhos, tentava me concentrar em alguma coisa. Quisera eu, naqueles tempos, que os pensamentos também se fechassem junto com os olhos. Será que todas as crianças sentiam coisas assim? Era o que eu me perguntava naqueles tempos, quando o meu pequeno corpo já não cabia mais em si de alguma coisa, alguma coisa que, quando eu ia pensar o que era, se desmanchava diante dos meus olhos, ou que, quando vinha ao pensamento, já distanciava vagamente do sentir. Hoje, quando tento olhar para trás e pensar nisso tudo, falta-me mesmo uma imagem que dê vazão a qualquer palavra. Careço de entender essas coisas. Na verdade, o senhor sabe, olhar para trás é quase sempre como inventar algo, imprimir uma intenção ao passado, buscando qualquer coisa que dê sentido aos anos idos. No final das contas, acho que o melhor mesmo da infância são só as lembranças que inventamos, os contos de fadas que sobram no mar do indizível.

O fato é que, no meio da chuvarada toda, o Pai estava ali, costurando alguma coisa que só Deus sabia para que servisse. E, enquanto mais ele trabalhava, mais se punha a falar, falar e falar. Era quando eu virava para a malhada, tentando imaginar como ela via o mundo nosso. Nessas horas, chegava até pensar que a Malhada era gente, gente mesmo, daquelas que entendem das coisas, no sabendo - não sabendo. Eu tinha isso para mim acho que era por causa daqueles olhares vagos, daqueles momentos em que ela se levantava e ficava olhando para o Pai, com aquela terna melancolia, como se no arregalar daqueles olhos, ela afagasse ou lambesse os sofrimentos do velho. Nessas horas, a Malhada mais parecia um anjo, daqueles que olham assim para os pecadinhos humanos sem julgá-los por seus erros e talvez até mesmo felizes pela fé que os anima. Era assim que eu a via naqueles tempos. Mas por dever de prudência ou medo da loucura, tentava desver. Corria, então, para ouvir o pai, que depois de tanto palavrório, parecia que se arrependesse do que dizia. “Vá dormir meu filho, vá dormir”. E era o que eu fazia. E foi o que eu fiz naquela noite.

De manhã, como é do vosso conhecimento, era Sábado de Aleluia. O pai me acordou o Sol mal estava nascendo. Dei um pulo na cama e, mal-humorado, fui atrás do velho. Ao apressar dele, corri ao encontro daquele homem, meu Pai, meu irmão das Almas. “Pronto para a malhação de Judas?”, perguntou. Eu não sabia o que respondesse. Na dúvida, continuei andando. Caminhamos alguns quilômetros até a cidade, onde ia ter parte a tal da malhação. Meus pés já estavam quase que rachando naquele sol quente. No andar, o pai ia quieto, mas seu cenho franzido parecia transbordar de dizeres. No caminhar ao lado daquele homem, sentia que aos poucos eu, que ainda era menino, ia como criando também passos de homem. Tentava imitar seu andar, seu falar e as coisas que ele dizia, mas pensava comigo que Deus me livrasse de sofrer tanto assim na vida. Queria ser filho dele em tudo, mas não por parte de sofrimento. Por alguns mistérios dessa nossa travessia, dizem que o sangue passa mesmo de uma só vez e eu, mesmo sem perceber, já começava a sofrer também. Sentia que alguém tinha derramado o coração do Pai todinho dentro do meu e que ambos tínhamos nascido para aqueles sofrimentos. Pudesse ser assim?

Quando dei por mim, o pai resolveu parar. E ficou ali, com aquela boca aberta e o olhar distante, perdidinho naquela imensidão de terra seca, quase que se misturando com a paisagem toda. Então, como se não existisse mais nada no mundo, ele começou a observar atentamente o tal do Judas que trazia consigo, com uma cara assim, daquelas que alguém faz quando pensa alguma engenhosidade. De repente, tirou a camisa velha que trazia e vestiu no boneco. Depois, observou a cena por mais alguns segundos. Respirou profundamente. Resolveu botar também o chapéu. Ao final, contemplou o que tinha feito e viu que era bom. O Judas, agora, era todinho o Pai, só faltava mesmo era o sopro daqueles olhos distantes, talvez o entristecer ao fim do dia. Por que fizesse aquilo? Não carecia de perguntar, ele mesmo respondeu. “Pra deixar de ser besta, meu filho. Pra deixar de ser besta de sair da nossa terra e vir pra este lugar, onde só Deus, só Deus é por nós.” A verdade é que, na vida minha, aquela era a única terra que eu conhecia, mas, por algum motivo, quem sabe por ser filho do Pai, ou quem sabe por não ser filho de quem quer que seja, sentia que aquele lugar também não me pertencesse. Talvez de mim mesmo, meu senhor, fosse só a travessia.

Como era de ser, o Judas foi levado à Malhação, com os pertences do Pai e tudo. Quando retornamos à casa, o velho parecia cansado, não sei de andança ou de solidão. Como de costume, sentou-se na cadeira de sempre e começou a olhar para o fundo de um copo vazio. No olhar, a Malhada o velava sem cessar, como fazia todos os dias à sua chegada. Tudo do mesmo jeito, tudo como havia de ser. Como se não houvesse mais o que fazer, respirei fundo e fui ter à janela. Debrucei-me sobre o parapeito e me pus a contemplar a paisagem que cabia naquela moldura. Não demorou para que meus olhos começassem a vaguear. Através daquela janela, tudo parecia distante. Ao mesmo tempo, era como se todo o mundo coubesse ali. Mas já não me contentava em ver o mundo daquele jeito. Eu queria tocá-lo, sentir seu cheiro, sentir meu pé roçando em outros campos e terras. Era quando no meio desses devaneios, eu lembrava do Pai. O que seria dele quando eu não estivesse mais ali?

Mas não. Eu bem sabia. Não era o Pai quem me impedia de partir. Dele, de alguma forma, eu já havia partido faz tempo. Era aquele incontável, aquele indizível, aquele nó na garganta que me arrebatou no dia da chuva e me espremeu contra meu mundo que agora me devorava pela simples possibilidade de partir. Será que tudo ia continuar assim para sempre e nada mais iria acontecer? O que poderia me prender agora? Será que era aquela casa, o Judas ou Pai? Só sabia que precisava partir e partir logo. Mas meus pés não se moviam. Não é mesmo a terra o que prende os nossos pés. Olhando pela janela, me deu vontade de chorar. E era como se todo o mundo coubesse ali. O senhor sabe? Era preciso correr terra.


quarta-feira, 30 de junho de 2010

Meu primeiro namoro

Cai os olhos, cai a noite,
Cai as estrelas, cai um olhar
Dois jambos maduros, cai de amor,
De chorar, uma gota d’água de luz,
Um beijo incandescente do céu
Cai a vida e a morte
E um adeus...

Cai meu rosto como um verso triste,
Cai as horas se perguntando horas
Cai as rosas, pois não são mais rosas ---

Apanho as rosas,
Pois ainda te amo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMOR QUE TEM SEU FIM NAS ÁGUAS DA NÃO CONSUMAÇÃO

Tenho tudo a ti dizer, mas não há nada a ti dizer. Ti dizer que me inundei em tanto mar de amor quando – navegando ao léu – te avistei numa manhã, te afogará de susto certamente. Do amor desmedido e impossível que molhou minha alma, só a minha solidão sabe que no peito cabe. Mas teu amor, mulher do balcão, carece de bem mais que olhar contemplador de um homem Platão. Mesmo assim ousarei te perguntar: que queres?
Do teu querer, mulher do balcão, só tua infinita profundeza sabe. Mas dos teus olhos algo ínfimo escapa: teu querer é amar. Anseias a-mar um marinheiro exausto por ti e que seja só teu. Isso, meus olhos d’água desvãos conseguem beber nos teus, mesmo sem tua permissão.
Só quero que saibas que um dia um pequeno marujo contemplador de horizontes passou diante dos teus olhos e sonhou de perto um horizonte distante ao te avistar. Sonhei divagando, por um doce momento naquela manhã, descer aqueles degraus com os dedos entrelaçados aos teus e sair à luz da manhã de mãos dadas a tua delicada mãozinha branca de unhas lilás, pronto para velejar todos os teus sonhos de amor.
Platão é perfeição. Perfeição, minha fantasia. Fantasia é loucura (diante do real). Loucura é confessar-se a ninguém. A loucura e a madrugada autorizaram-me te dizer, ninguém, que cada um dos teus gestos foi naquela manhã, ao meu coração encharcado de amor-contemplação, o mais observado, o mais belo.
Mas, na vida, hás mesmo de ter um marinheiro melhor – concreto – apto a navegar ao teu lado nas árduas águas do mundo real.
Por um insano instante, quis louca e imensamente teu corpo e tua alma possuir, com toda minha delicadeza e firmeza de homem. Quis teu grande marinheiro ser. Querer ainda quero, mas o tempo, o dia, a rotina, a vida, o mundo real, apartaram levemente a loucura de mim. Aproximaram a bendita-maldita sanidade. E esta diz em meu ouvido em segredo: “poeta, te declara ao papel. Ele aceita teus desvarios, ela não, é real”.
Obedeci à sanidade. Eis o papel de confissões desvairadas. Mas também à desobedeci, pois a loucura, ao outro ouvido do poeta insistiu: “Entrega o papel a ela!”.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Soneto dos Olhos que Vêem o Invisível

Tua beleza de mulher de ver
Reluz Maí todos sabem olhar
Tua beleza de mulher de ser
É sutileza pra só um olhar

Não me nege o teu olhar jamais
Não o desvie e eu não desvio a ti
Se quiseres que eu não chore mais
Diz ao medo que meu tempo é aqui

Ensina meus vãos olhos a olhar
Teus detalhes sempre, tanto e mais
Teu transbordar de generoso amar

Aguça tudo de velado em mim
E nú estimo enternecer-te em paz
Te Daramor em ritual sem fim

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Noite na praça


Insinuei um verso, silêncio da noite

Teus olhos me fugiram em sinal de adeus

E o medo foi caindo, caindo

Deixando tocar os teus dedos

Na ponta dos meus


Alquimia de amor, é madrugada

O teu riso embalou o meu ar

O teu corpo se atirou ao esteio

Teu seio sorriu ao luar


Colori um verso, cheio de encanto

Arando o tempo e vendo nascer

A palavra que pintasse tua arte

Meu encanto no tempo a bater


Vem logo ser minha musa

Já pões pensamento e fogo a girar

No movimento desses mesmos cabelos

Que, de noite, te vi soltar


Já se arrancam vestígios de medo

Já vagueia meu não poder ser

De que adianta negar o desejo

Que nos teus olhos eu vejo nascer?

David Carneiro 10/06/10

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Sem título



Encostei meus ouvidos nas faces do rio.
Tocando o barulho das pedras que jogaste na noite
Tateei tua presença, imerso nas águas
Buscando, insano, teu beijo partido.

Por que me enganas com o vão desses teus olhos
E me cravas o peito com o não da tua boca?
Por que me cultivas em silêncio lento
Evaporando-te logo ao calor do medo?

Já não me inspira mais teu desespero
Não serás minha musa até o instante do beijo
Meu corpo insano já canta pela noite
Vem um sorriso conduzir-me à dança

Nau de pedra cortando o vento
Perfura, formula paisagem
A geometria do meu canto alado
Voa, levantando tua saia

Quero reter com as mãos teu canto etéreo
É no silêncio que te tenho lenta
Meu sussurro chega então aos teus ouvidos
Ficas inquieta. Ainda não começará a vida.


David Carneiro 01-06-10

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Encontro

De súbito de um olhar já de um gesto
Teus pés rubricados de areia e pedra
Me alcançaram e carinhosos de encontros
Em mim fincaram com um buque de sombras.

As ruas e viletas tu abandonaste
E a lua te seguiu com suas nádegas de areias,
Queimando teu corpo com um fogo azul
Cheirando a canela de espelho e prata.

A noite e o cimento tu repartistes
E pousou um luar em meu coração
E janelas e estrelas me descobriram

Eu te encontrei túrgido e ainda morto
Esperando a vida para eu ser metade
Esperando a vida para eu ficar contigo.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Bipolar

Ora explode,ora cessa
Ora grita,ora reza
Ora chora,ora ri
Ora,forte,ora,fraco
Ora muito,ora pouco
Ora a Deus,ora Alá
Ora mal,ora bem
Ora amor,ora desdém
Ora Oxum,ora além
Ora tique,ora taque
Ora vai,ora vem.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A carta



Chegou cansada como de costume. Suspirou lentamente. O dia havia terminado. Mais um, igual a todos os outros, sem por nem tirar. Sobre sua cama, uma misteriosa carta a esperava. Um leve frio subiu-lhe o corpo, corando-lhe levemente a face. De onde viria aquilo?



Minha querida,


Escrevo-te para dizer que já vou. Sim, já vou. Não fique assustada, tudo será como antes e sempre mandarei notícias, esteja onde estiver. Não diga nada para seus pais. Logo logo, eles também saberão. Por que fiz isso? Ah, não pergunte meus motivos, minha pequena. Acho que na minha idade, a gente tem mesmo é que provar para Deus que ainda vive, para que, assim, ele não nos leve de vez. Agora que seu avô se foi, nada mais impede. Vou viver.

Não quero que me entendas mal. Por alguns anos, até fui feliz com ele. Tudo o que construí na vida foi fruto de nossa união. Além do mais, ele me deu os maiores presentes da minha vida, minhas queridas netinhas, como você, que, em segredo, sempre soube ser a minha predileta. Mas também não posso dizer que o amava. Não. Nunca amei. Falo de amor assim: daquele de peito escorrendo, daquelas horas a suspirar e imaginar encontros inesperados, amor de vida toda espreitando cada novidade, ladrilhando os caminhos do ser amado. Você sabe né, filha? Isso já passou na minha vida. E era tão bom... Eu sei que você sabe, afinal, sempre fomos muito parecidas.

Filha, não quero que fiques com raiva de mim. Mas preciso confessar-te. Abri a terceira gaveta da tua mesinha. Invasora? Traidora? Qual o quê, filha? Chama-me do que quiseres. Abrir aquela gaveta para mim foi como desenterrar os tesouros mais puros da minha infância. Mas aí, veio aquele nó na garganta, aquela vontade de me expulsar de mim mesma que, pelas coisas que escreves, desconfio que sabes melhor do que eu. Ai, como me lembrei dele, daquele jeito dele de ser assim gentil, especial! Como ele era lindo, filha! Devias tê-lo conhecido. À uma hora dessas, ele te levaria para passear pelas praças, museus e prédios antigos, contanto todas aquelas histórias de amor e de guerras, de um jeito que só ele sabia fazer.

Encontrar-me assim contigo, filha, com as tuas palavras, foi como encontrar-me em um sonho, onde eu, você e ele éramos todos, todos felizes. Mas encontrar assim com os sonhos, com a eminência de vê-los realizados, você sabe, é como encontrar-se também com o medo. E como me deu medo filha! Um medo assim de ver ele de novo, de sofrer por ele outra vez, de chorar por ele, que vontade de gritar! Que vontade de voltar no tempo e entrar naquele trem junto com ele, no dia em que o deixei partir para todo o sempre. Queria morrer em mim mesma, sossegar nos meus braços vacilantes que deixaram a vida passar só para poder espraiar os olhos por ela e ver como me tornei triste. Desde então, não tive mais vontade de olhar as estrelas, essas aragens do divino que me lembram quão covarde eu fui. Guardo comigo o peito extravasado, dilacerado, essa tragédia profunda e silenciosa que só um coração de mulher sabe como ocultar em um canto recôndito de si mesma.

Filha, vi também o que escreveste sobre ela. Pobre pequenina! Querias ser como ela não é? Inveja-lhe as roupas, as amigas, os amores? Querias fazer cada coisa que ela faz, desferindo olhares de cuidado e revista, não sabendo se é certo assim invejar a quem tanto se ama? Alguns momentos, eu bem sei, querias que ela não existisse. Papai e mamãe seriam só para ti, não é? Poderias tê-lo sem dó nem culpa, e como vocês seriam felizes... Afinal, depois dela, ninguém combina mais com ele no mundo do que você. Filha, se eu sei o que é isso! Mas que importa!

Escreve, filha, escreve. Aponta tuas dores com a faca amolada do teu peito, aventura-te por entre as veredas da vida, pintando tonalidades e descobrindo artefatos que passaram assim, despercebidos por esta multidão. Afasta-te deles filha, afasta-te. Afasta-te como quem se afasta de um cálice que, em se tomando, toma-te o tempo e subtrai a alma. Guarda tuas mágoas em uma caixinha, bem bonita, daquelas de música e bailarina. Pedala teus sonhos por entre a madrugada, percorre as ruas para dizer que existe uma mulher dentro de ti, dentro dessa menina que agora se abre em prosa e verso para marcar a passagem de um tempo sem volta para o abismo dos sentimentos. São teus pensamentos que se esvaem em devaneios? Não. É o teu corpo que começa a falar.

Mas aprende, aprende de uma vez por todas, filha. Ninguém entende nem nunca entenderá. Essa é a nossa travessia. Atira-te, abraça livremente tua paixão, cria, cria, cria! Refaz teu caminho, antes que seja tarde. Corre! Lembra-te de mim, que deixei meu candeeiro apagado em um canto escuro de quarto, lembra-te de mim, de tudo o que eu não fiz, de todas as coisas que eu guardei só para minhas mágoas, do quanto eu esperei não sei o que para começar a viver segundo minha própria tragédia. Vai, cai depressa, cai de pressa no doce abismo das tuas ambições. E ama mais depressa ainda. Abre teu coração, derrama nele o perfume das tuas palavras. O mundo não faz mesmo sentido, mas como tuas palavras, ele pode ao menos tornar-se belo...

Filha, tu bem sabes. Sou agora apenas uma pobre velha, de malas prontas para viver contrariando os dias que ainda me restam. Da vida, quero a arte de deixar alguma arte, participar da poesia e partir para um canto que ainda não tenho. Disse que escreverei. Menti. Esta é a última carta que receberás de mim. Nunca mais me verás, mas verás dia após dia os papéis que guardas na terceira gaveta de tua mesinha. Alguns dias, preferirás odiá-los, queimá-los ou guardados como flor infecunda dos teus desejos, mas eles são a vida, a resistência, teu beijo que emerge forte e lento para tocar os lábios úmidos do mundo que te contempla renitente. Não deixe o amor para depois, um adeus assim é sempre a véspera da derrota para o coração amante. Se pensas que não o ama mais, foi só o teu medo que te cingiu em ti mesma. Abre tua imaginação e o teu peito, e deixa vazar pelos teus olhos o riso e os pensamentos que tiveste enquanto sonhavas alegremente com o teu amor, teu proibido amor, teu nefasto amor, teu não-amor.


Com carinho,

Vovó.


Ao terminar de ler, ainda paralisada, deixou cair a carta no chão. Com os olhos distantes e úmidos, pôs-se a olhar pela janela.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu te amo

Se te tenho, não te trouxe, não tenho
Num instante, já pedaço, não morro
Se te vivo, sem querer, já te firo
Eu te perco se demais não me afasto.

Por teus olhos, já não sou mais palhaço
Por demais, eu já não quis mais teus olhos
Se te chego, te começo vermelho
Se te arranco, sem querer sou teu passo.

Se te quero, no trapiche, eu sou noite
Eu te firo, se te toco, eu te quero,
Se te assopro, ventania, eu sou dia

E teu riso faz medida que é meu
Aqui lua, nem chegada e seguida
Se me tens, já não sou, eu já sou teu.