terça-feira, 12 de outubro de 2010

Ode aos Ilustríssimos














(A marchinha oficial do Prosas)

As Prosas da Amazônia vêm em canto
Do encanto de seletos ilustríssimos
Que juntos preservam a vanguarda
Recontam os poétas e conversam sobre o nada

Que juntos contemplam o invisível
Intentam um mundo incrível
E sonham pra valer

O afã maior de nossa filosofia
É guardar presença amiga
Para sempre ao outro dar

Para sempre...

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Opostos

Os pergaminhos do tempo
Te mantiveram viva em mim
Como lenda insustentável
Como algo inopinável

As incontáveis estrelas
Que sempre surgem
Em céus diferentes das cidades
Jaspearam os teus olhos
Moldados em fogo e luz

Transpirei o veneno que me deixaste
Expurguei quase toda a mentira
Que eu mesmo mantive viva
Fechei meus braços sobre meu corpo
E prendi com dureza a única verdade que me restava

Arregalaste os horizontes fechados
Penetraste no mundo além do mundo
No eu além do eu
Quebraste as fronteiras do certo e errado

É. De fato és a superação de ti
És o monumento erguido de amor e ódio
Guerra e paz entre opostos
És moldada pelo bem e pelo mal

Estás no centro de tudo
Mediando toda divindade e paixão
Meditando toda loucura e razão
Santuário dos contrários
Repudio dos sensatos
Temor dos exatos

Eu não compreendo teu pensar
Por isso talvez me interesse tanto
Pela tua insensatez constante
Pelo teu barato irritante

És a estupidez sensível
A menina invisível
Que se esconde em mulher
De beleza e grandes olhos

És o medo de mim
O feio de ti
O belo dali
E o meio do mundo.

domingo, 19 de setembro de 2010

A nova musa




O corpo da nova musa insurgiu-se em minha palma
Despertando como rosa preguiçosa em verso lânguido
Cantavam deuses que a viam como extasiados
Era a mais nova Vênus que nascia.

No primeiro dia ela descansou. E, logo, o mundo era todo seu.
A nova musa dançava alegremente em seu vestido
Traçava arcos e espirais rodopiando
Tingindo de sal e amarelo os girassóis do campo.

O sorriso da nova musa também rodou o mundo.
Sortiu mistérios e até chorou sozinho.
Desconfio que compartilhei com a nova musa a riqueza
Daqueles que viveram a mais profunda solidão da alma

O sorriso da nova musa me atrai e me fascina
Fazendo-me aspergir de encanto e imitar a arte
De bondade e de malícia que transpira a musa
Que me ata de repulsa e de vontade

Serão meus olhos poesia ou paisagem
Para os olhos da musa que passeia impune pela vida?
Em lábios que me param o próprio tempo
Em gestos que derramam despedida.



David Carneiro 17/09/10

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

dificuldade de expressão

Quando fui a Londres fazer intercâmbio no primeiro semestre desse ano, tive a grandiosa oportunidade de poder conferir no Southbank Centre os concertos quarto e quinto de Brandenburgo de Bach e as sinfonias sétima e nona de Beethoven, nessas músicas tudo está expresso, as imagens perfeitamente plásticas nos concertos de Bach, e não menos diferente do alemão do período Clássico, contudo, acrescentando que a nona sinfonia é o misto perfeito e continuo da dualidade que rege as nossas vidas como a felicidade a tristeza o amor o desamor a guerra a paz, e nada mais podemos fazer do que nos vangloriar da nossa humanidade por estes homens, como partícipes da mesma espécie dos que nos possibilitaram a redenção por meio de sons que ultrapassam a cada nova visita esta realidade material nos oferecendo e nos guiando quanto o significado de nossas vidas. Nelas, não há nem tanta desgraça quanto em um desvairado Stravinsky quanto moleza passiva de um Wagner segundo a interpretação de Nietzsche, que concordo. A presença de desgraça exacerbada é um dos pontos referencias quanto a qualificação de uma arte em boa ou ruim, não há meio-termos quando o artista ao invés de nos oferecer o Transcendente, que impõe, não há outras palavra melhores, respeito e beatitude, nos oferece gritando como uma criança perdida na praia todas as suas dores, como se elas fossem as nossas, mais, como se Arte devesse tratar tão abertamente disso, devemos dizer-lhe que isso não é Arte, é a sua subjetividade e não há nada de objetivo nisso. Pois bem, contrapondo a isso, fui, em outro dia, no Queen Elizabeth Hall, um dos anexos do Southbank, conferir um dos mais “reconhecidos” músicos da cena erudita britânica contemporânea. Sentei, peguei o meu lugar, esperei alguns minutos, li alguma coisa de T. S. Eliot, e, adentra o tão aclamado músico... Deveria continuar a ler Eliot... Começa e logo no início já sei que tudo o que ele tem a me oferecer são as suas dores subjetivas, não há imagens bem feitas, há a materialidade exacerbada, há o Infinito sem ponto de apoio na vida que é refletido a cada segundo em sua música, ou o que ele chama disso, há o individualismo, surtos de grandezas e logo em seguida mostra-se nu em toda a sua vileza, há ele, o artista crendo ser maior do que a sua arte, em suma, não tem nenhum profundo respeito pelo que se faz e muito menos quantidade alguma de autocrítica. Em um paralelo, enquanto ao escutar Beethoven penso que o homem tem força espiritual para fazer o que ele fez em um ou dois instrumentos caso só estes fossem o existente e que fora um extremamente confiante em decorrência do saber da grandiosa força vital de sua arte, tal como no filme homônimo é mostrado, nesse outro sujeito que se diz músico pode-se dar a ele um milhão e meio de instrumentos que vai se ver perdido do mesmo jeito, e, ademais, se caso um dia venha a ler essas linhas trancar-se-á em seu mundinho subjetivo dizendo a plenos pulmões que “os críticos são todos invejosos”... O bem da verdade é que, tal famoso músico consegue tão-só nos oferecer esse monte de merda que poderia ser resolvido com mais idas ao seu psicanalista. A grande força criativa está na alma aberta ao Espírito, não no papel, não nos instrumentos musicais, muito menos no divã.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O Sertanejo


Maria, mulher
Braços fortes e Zé
Chão de barro nos “pé”
Seguiu a correr

Pela catinga rachada
Com a trouxa e a enchada
Com Zé de mão dada
Procurando o bucho encher
Viu logo um bodinho
Era de seu novo vizinho
Um sertanejo bonzinho
Mas que não podia lhe acolher

Foi triste a cena
Ver o menino Lucena
Sob aquela tarde serena
Sem ter o que comer

Perguntaram ao porteiro
Se podia ver o fazendeiro
Por seu trabalho do dia inteiro
Dar um pãozinho pra nós repartir

Foi assim que ele disse
Que de imediato partisse
Ou a raiva de dona Alice
Em cima deles ia cair

Não sabiam ao certo
Se o futuro incerto
Lhes deixaria ver seus “neto”
Que dos filhos iam sair

Perguntaram pro moço
Se cortando cana teria almoço
Que não levasse a mal o seu desgosto
Mas seus filhos tinham que comer

Era sujeito valente
Com terra nos “dente”
E desde já tava ciente
Que muito trabalho ia ter

Não tinha medo de trabalho
Era grande e rebarbado
Sem ter medo do terçado
Muita cana ia colher

No fim da colheita
Uma grande desfeita
Seria mal feita
Pelo seu mal feitor

Fugiu com o dinheiro
Do canavial inteiro
Sem dividir com os “obreiro”
O que lhes pertencia por valor

Não é coisa que se faça
Foi por pura pirraça
Que aquela desgraça
Veio trabalho me oferecer

As “mão” agora cansada
Que cortar cana desgasta
Os calos dão mão farta
Que o sertanejo ia ter

Foi então que desesperada
Maria juntou logo a criançada
Pra ver se num ato de graça
O divino ia lhe prover

E Maria temendo
Pela vida do rebento
Pediu a São Bento
Um pão pra comer

Foi quando ele disse
Minha filha desiste
A seca é cruel
E não vai te atender.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pedaço de lua

Não sei teu nome teu olhar --- te quero
Por não saber dizer em mim a hora
Por teu olhar colher em mim um rosto
Por não dever te amar em mim agora.

Na luz te quero e sem querer te quero
Pois eu não sei como te amar assim
Só por te olhar e não ter esforço
Só porque és tão linda para mim.

Abres os dentes sem querer poema
Escorre um riso e a palavra dorme
E tudo canta só por teu sorriso.

Pois algo teu que não é teu me colhe
Me colhe o instante e nada sei de ti
Nada sei que não seja mais de mim.

sábado, 28 de agosto de 2010

Kafka, o niilismo e "O processo"

Embora não tenha terminado de ler todas as obras de Kafka, farei uma análise demonstrando o quanto esse autor é mal compreendido, o que de fato sempre é falado quando alguém tenta interpretá-lo, utilizarei três livros, os “Diários” do próprio autor; uma interpretação socialista feita por Leandro Konder; e o romance “O processo”.

Primeiro vou partir de uma afirmação de que o autor é com toda a certeza judeu. Por quê? Isso fica evidente no seu diário quando em várias partes dele o autor pensa como um judeu, em qual sentido? Em buscar as soluções da religião judaica à época. Ficando claro nesse trecho: “Deverá dizer a si mesmo que – falando sobre os leitores de uma obra sobre a história de judeus de sua época-, principalmente após o surgimento do sionismo, as possibilidades de solução estão de tal modo evidentemente agrupadas em redor do problema judaico, que afinal de contas basta o autor fazer apenas um movimento para achar a solução que dá resposta à parte do problema.”. Ora, é bastante razoável que um membro de uma dada religião esteja preocupado sobre o futuro de sua própria religião, como, por exemplo, um cristão apoiar ou desapoiar o que tem sido as conseqüências do Concílio Vaticano II. Portanto, é falso quando Leandro Konder diz em sua obra Kafka “Vida e Obra” que “Apesar de uma tremenda necessidade de crer em algo, Kafka jamais chegou a encontrar paz de espírito em qualquer fé ou em qualquer Igreja.”. Tal como ele Leandro mesmo encontrara nas suas utopias salvadoras da humanidade... Mas partimos à obra “O processo”.

No final do livro, que é o que mais ajuda a esclarecê-lo, K., o acusado, entabula uma conversa com um Sacerdote, dizendo no início sobre a disponibilidade e preocupação desse mesmo Sacerdote em relação a ele “Você é muito amável comigo... Tenho mais confiança em você do que em qualquer um dos outros tantos que já conheço...”. Veremos aonde esta tal confiança irá ser levada logo adiante.

Em uma parábola narrada por este Sacerdote ao processado "K." um homem do campo, que logo em seguir afirmarei que é um niilista ou o próprio "K.", que tenta entrar nos domínios da Lei, ou seja, no mundo jurídico, é impedido de adentrar neste mesmo local por um porteiro que é um simples operador do Direito, não diminuo essa importância, pois fazer isso, seria tomar uma atitude niilista, já vou me explicar, que como fala o Sacerdote “foi incumbido pela lei de realizar um serviço; duvidar de sua dignidade seria o mesmo que duvidar da lei.”, um pouco mais atrás o mesmo Sacerdote fala que tal serviço é “incomparavelmente mais do que viver livre do mundo”. Quem seria esse homem livre no mundo senão um livre-pensador e que por isso mesmo é niilista? Já explico. O Sacerdote tal como o Aliócha são os seres-humanos em que acreditam profundamente em alguma coisa e por isso afastando-os da falta de valores niilista, vêem as coisas claramente no sentido de que, o primeiro, de entender que o porteiro não faz mais do que executar o seu trabalho como participante do mundo jurídico, e o segundo, de ser fiel à verdade religiosa - na verdade, ambos o são, mas estas são as principais caracacterísticas deles expostas nos dois romances -. Portanto há dois pares de personagens que são o extremo oposto tanto nos “Os irmãos Karamázov” quanto no “O Processo”, quais são? O Sacerdote e o Aliócha como os não-niilistas e K. e Ivan Fiódorovitch como os que negam qualquer validade à vida, o primeiro morre como um cão “era como se a vergonha devesse sobreviver a ele” e o segundo fica louco.

E por que K. é niilista? Porque como o Sacerdote lhe falou “não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso considerar apenas como necessário...”. O que é o necessário? Crer, apesar de todas as suas falhas, na extrema importância do mundo jurídico às nossas vidas. Como um bebezinho mimado o niilista K. refuta “A mentira se converte em ordem universal...”. Ora, o positivista é aquele que nos sonhos crê no progresso, o que certa hora acabará por tornar-se também cético, já que o progresso não é constante, e o socialista é aquele que parte do princípio que o mundo é o pior dos possíveis buscando a salvação da sua vida em um projeto utópico, o que já é, de início, a negação de viver o presente, e de encontrar possibilidades de valores vivíveis. Ambos, são niilistas. Falo tanto do positivista quanto do socialista pois são arqui-presentes desde o início da ilustração.

Lembrem-se que o niilismo é a negação de valores orientadores à vida, e a sua principal característica é o não reconhecimento de valores tanto para si quanto na vida dos outros. Com “K.” não foi diferente. Diferentemente do início no qual deposita confiança na ajuda do Sacerdote, e após este ter demonstrado a ele como as coisas funcionam, ou seja, o caráter necessário de um operador do Direito, “K.” lhe fala “mas eu não consigo me orientar sozinho no escuro”, e mais adiante “antes você foi tão amável comigo, explicou-me tudo, mas agora me despede como se eu não significasse nada para você”. Ora, isso não é atitude de um garotinho de 12 anos que requer tudo para si e não aceita que os com quem tem inimizades brinquem de futebol com ele? Antes, o Sacerdote era reconhecido como um homem bom, ou seja, até o momento em que este serviu para o consolo da mente perturbada de K., embora não tenha sido um consolo já que para “K.” só a morte funciona, porque nada para ele é válido e quer continuamente fazer os outros crerem nisso, agora, como o homem religioso era reconhecido por K.? “Você é o capelão do presídio”, somente como um trabalhador qualquer, sem nenhuma ordem hierárquica de valores, que é o niilismo. K. disse-lhe “você precisa compreender” ao que o Sacerdote responde “Você precisa primeiro compreender quem eu sou!.” O niilista K. no seu não reconhecimento da vida religiosa do Sacerdote e da necessariedade do Direito é somente aquele que não reconhece a importância dos valores superiores à vida. Pondo em miúdos, não compreender o que é um sacerdote, o que per si requer uma atitude respeitosa e o que é o Direito são atitudes niilistas.

Embora no último capítulo “K.” comece a reconhecer quão desnecessário fora ter entendido o mundo por uma lente reprovativa, como um bom niilista, em um repente de interrogações em que vira uma pessoa aparecer ex nihilo ainda com esperanças de ser salvo –o que o Sacerdote tinha tentado fazer-, não tem mais tempo, pois o pensamento nunca encontra alguma base fixa para se apoiar, logo tudo acaba sendo ruim, pois tudo é desgraça para ele, como o Kafka, não “K.” escreve “Existem objeções que tinham sido esquecidas? Sem dúvida, estas existem.”. E sempre hão de existir, senhores. Uma morte como um cão foram as últimas palavras de “K.” e Kafka escreve “Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele”.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Amigo

Me olha sorrindo e vem logo abraçar:
"Meu bom amigo, um prazer lhe encontrar"

Diz que de mim adora novas saber
E para todos vive a me exaltar:

"Isto é um louco, canalha, veado
Quem me dera poder lhe matar"

Mas hoje é imprescindível sorrir
Para um dia poder nem me olhar

E, no fundo, só apertar a minha mão
no dia em que ela estiver a sangrar

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Teus olhos novamente


Meu bem, faz tempo que não lhe escrevo
Não pense que é falta de jeito
Só o tempo vai te falar

Menina, olhar teus olhos me é um parto aceso
Já te cantei isso
Já me dei até desprezo
Só por te amar

Nossos nomes, mesma letra
Com o P de pronunciar
As frases mais belas
Que um poeta poderia compor

Não tenho jeito com escrita
E sou melhor ator que poeta
Uma coisa é quase certa
Que contigo não atuo
Nem aturo
Coisas pequenas a me envenenar

Nado em rio incerto
De cristal e ladrilho
Olhando em teus lábios todo o brilho
Que só Deus poderia dar.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Meu Filho

De faca, madeira muni
o menino que corre, que corre dali

Ligeiro, esperto já sabe roubar
Lamento, espero que saiba fugir

Que roube sem dó tudo que puder
Pra que amanhã eu possa servir

Não nos engane e traga pra cá
O que for preciso pr'eu poder sentir

Que amor e carinho que tanto dei
Voltará dobrado como eu pedi

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Precária Palavra

(um poema inspirado nas idéias de Jaques Lacan)


A palavra não vem
Nunca vem
Renitem em emergir em resquícios quando o acaso convém
No banho
No trono
No sono
No sonho
Só vem o espanto
De sentir que o vivido de cada âmago
É ao papel
Como o céu é para cada estrela
Poesia... imitação
Papel... uma prisão
Que disciplina e acalenta o inominável
Tentando enfeitar a precária palavra

A palavra não vem
Quando vem, já não é a coisa mesma
Está disfarçada
Emana beleza
É válida
Induz alegria, melancolia, tristeza
Embebeda e sublima a mente abita

A palavra não vem
O papel suprime a essência
O labor a lapida e a deixa enfeitada
Obriga-lhe a assumir sua prudência
Mas provem de lugar inexplorado
Inabitado
Onde nada se explica
É inexplicável
... Dentro de nós

A palavra não vem
É melhor não vir
Às vezes também
E só deixar, do vivido, o resquício advir
Para que cause o espanto esquecido de alguém
De quem o sorriso ou o pranto falarão por si

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Minuto de Silêncio

Antes de mais nada acredito que cumpre-me agradecer o convite que me fora enviado pelo grande amigo Ricardo Evandro que, a meu pedido, incluiu-me no rol dos colaboradores deste blog.
Gostaria de deixar claro aos amigos e leitores que não esperem de mim atuações tão brilhantes quanto a dos colegas que aqui também postam. Tentarei cumprir minha parte, somando esforços aos dos companheiros no intuito de compártilhar idéias e artes que por sua natureza devem servir como instrumento de edificação do homem.
Desde já, gostaria de explicitar a minha incontrolável vontade de demonstrar o quão agradecido estou em poder compartilhar este espaço com pessoas as quais eu tanto admiro. Pelo que, como ainda tenho muito a falar, mas as palavras me escapolem quando se trata de mencionar o quão preciosa é uma loja como essa, deixarei este momento com uma poesia a qual representa o meu minuto de silêncio em reverência aos homens de boa vontade que aqui comungam.

Silêncio
Hoje, por algum motivo, eu acordei gritando
Gritava incontrolavelmente, sem saber a que ventos gritar
Gritei por minha mãe, por meu pai, por meu irmão
Gritei na cara deles, mas nenhum deles me ouviu

Passado alguns minutos, entendi que o que gritava era o meu próprio silêncio
Esse silêncio que as vezes me toma e o mundo deixa de ser parte de mim para se tornar alheio
De vez em quando o dia amanhece barulhento, cheio de idéias, cheio de ruídos inconvenientes. É ai que rezo para que o silêncio venha
Mas os dias de silêncio me sufocam, me humilham, me diminuem as idéias

Os dias de silêncio não perdoam os passos em falso
Os dias de silêncio me obstruem o escrever
As idéias não fluem, meu corpo padece
Parece que a vida sai um pouco de mim
Os dias de silêncio são tão tristes, as pessoas falam e eu não ouço

As idéias rangem ao pé do meu ouvido, mas não as compreendo
Esses dias são tão terrivelmente pacatos
Nos dias de barulho procuro o meu silêncio
Mas nos dias de silêncio procuro o grito profundo e melancólico que move minha caneta
Nos dias de barulho quero o silêncio para concatenar idéias
Nos dias de silêncio procuro tudo aquilo que fale mais alto dentro de mim

E hoje, algo entre o silêncio e o barulho me bateu a porta
Algo de doce, algo de firme, algo de inspiração, algo de amor, algo de tristeza, algo de saudade
Algo que me permite, algo que me liberta, algo que me arranha, algo de algo
Algo de verdade, algo pertinente, algo de lúcido
É onde o homem pode se encontrar por completo: um momento pobremente escasso de contradição.

domingo, 1 de agosto de 2010

presos na terra

Acabei de ler o conto do meu amigo David que por sinal é muito bom, levando em consideração tanto a sua jovialidade, 22 anos, quanto tomando como referência os seus contos postados neste blog que não são muitos, portanto uma relativa pequena produtividade. Não fica nem um pouco atrás, em termos de profundidade psicológica, que é o que tem mais de rico nesse conto, somado a alguns parágrafos de uma grande riqueza metafórica, aos contos de uma Lygia Fagundes Telles. Sem bajulação alguma, mas esse conto é bom. Ao ler, destaquei alguns pontos que me chamaram atenção, no que tange à estrutura do conto, que serão entendidos somente por quem já o leu:

1. Falta coerência no uso da linguagem popular do personagem principal, visto que o contista conjuga por vezes os verbos em norma culta no decorrer do diálogo interior do personagem e também em seus diálogos reais com o leitor, causando incoerência na representação e delineação artística do protagonista. Nesse caso fica claro: “Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobra as quais jamais pensara. Doidera?” É difícil imaginar um personagem popular que tem como palavra comum em seu vocabulário a palavra “doidera” conjugando o verbo pensar no pretérito-mais-que-perfeito.

2. O quinto-parágrafo do conto é sem dúvida alguma o que tem mais beleza artística propriamente dito, são 9 linhas que possuem já uma precoce proximidade do autor com as palavras, produzindo-as com ricas metáforas.

3. É bem peculiar o diálogo do personagem com o leitor, pois há por vezes contatos mais ternos no sentido de o narrador como em uma conversa filosófica jogar por alto o entendimento dele ao leitor e noutras o leitor ser tomado como onisciente quando ele sabe inclusive qual é o dia que se passa o conto, sendo convocado a aceitar a priori o entender do narrador, não em assentir flexivelmente como quando o personagem pergunta ao leitor “Pudesse ser assim?” ou “Não é certo o que eu digo?"
A par desses pontos estruturais, é interessante o constante diálogo interior do personagem com a vida cotidiana e o seu constante distanciamento a ela, em um enveredamento filosófico de conhecer-se a si mesmo e com isso sabendo cada vez mais qual é o seu lugar no mundo, quiçá o seu distanciamento pleno. O personagem reconhecendo aos poucos os sofrimentos pelo quais o pai sofre que tragicamente virá a sofrer, ou melhor, no momento mesmo em que esse reconhecimento passa a se dar as dores advém como intimamente intricadas no entender das dores do pai, é seduzido pela infinita fuga de si mesmo querendo mas não podendo mover-se pois seus pés estão e são imóveis, presos na terra. Momento chave para o personagem que deve ou buscar o desbravamento do mundo desconhecido que ao fim e a cabo muito provavelmente irá consistir em um ceticismo ou acreditar, enfrentando em uma solidão resignada, no profundo e verdadeiro ensinamento de seu pai quando lhe fala: "a mentira tem pernas bonitas, meu filho."

segunda-feira, 26 de julho de 2010

diário do poeta inglês albert herbert

"a perfeita união da natureza do leão com a sua dominação cheia de mensidão para com a essência oposta de sua leoa, que ama por amar, embora ame o tolo, mas que não o é em usar de sua juba protetora, sendo tal que é o reconhecimento profundo da beleza de sua oposta e congruente natureza, elevando-a para elevar-se, glorificando-ses."

Para além dos olhos


Naqueles tempos, éramos eu e o Pai. Na verdade, também tinha a Malhada, mas não sei se ela conta não. O que me diz o senhor? Pelo menos, devesse contar. Para nós, o senhor sabe, ela era assim, quase que um membro da família. E por falar em família, tenho que lhe dizer. O Pai teimava comigo que éramos uma família como outra qualquer. Mas hoje, sinceramente, tenho para mim que ele me dizia essas coisas só mesmo para me alegrar. Afinal, não era todo mundo que concordasse que uma família assim sem mãe fosse uma família normal. O dia em que ela foi-se embora, eu nem me lembro mais.

Nunca tive a esperança de que ela voltasse, apesar de o ter pressentido uma vez, deitado na janela. Nesse dia, meus olhos corriam longe que só o senhor visse. Mas tudo não passou de ilusão. Também nunca pedi ao Pai me falasse daquela mulher, como, por vezes, ele a chamava. Ela voltando, era mais um motivo para que eu me quedasse ali, quando sabia que existia todo um mundão aí afora. Mas o Pai, apesar de sempre me dizer que não gostava de tocar no assunto, acabava terminando por falar “naquele nome”, com todas as tristezas que ele sempre trazia. E então me punha a ouvir, mais uma vez, aquela história de amor que tinha um final triste, como, aliás, eram todas as histórias de amor para o Pai. “A mentira tem pernas bonitas, meu filho”, repetia. E então, suspirava e fazia um longo silêncio. “Mas sua mãe era uma boa pessoa. Não quero que penses mal dela”. Ele dizia assim, com a mão encostada no queixo.

Naqueles tempos, para falar a verdade, nem sabia se eu era triste ou feliz. Ia vivendo. Ia correndo e crescendo por aquelas bandas, meio solto, meio preso, respirando e torcendo, me ralando por vezes, ao final, levantando sempre. Às vezes, sentia que algo me prendia ali naquela terra, e não era por causa do barro alaranjado que se pregava liguento sob os meus pés descalços. Era uma sensação de não saber se podia, se realmente podia com tudo aquilo que existia para além dos meus olhos. Será que fora dali se andava diferente, se respirava de modo diferente? Vai ver era bobagem da minha cabeça. Mas, bem lá no fundo, era um pensamento que sempre vinha me visitar, com aqueles seus passamentos na barriga ou aquela vontadezinha de ficar só comigo. Acho que nem não era tão triste assim. Se entristecer assim do nada é bobagem, não é mesmo? Vai era só cansaço, que vinha do nada e do nada se ia, como se nunca houvesse chegado. Na verdade, eu acho que naqueles tempos eu cansava mesmo era de solidão. Não é certo o que eu digo?

Devia de ser por aí. Acho que na vida não nascemos tristes nem felizes, tudo é uma questão de pertencimento, sentir-se parte, o senhor sabe? Pertencer assim a pessoas, lugares ou mesmo àquelas paisagens, que de tão lindas prendem nossos olhos como se quisessem até namorar com a gente. Naquela solidão, cheguei até mesmo a dar para inventar meu próprio mundo, a brincar de ser rei e correr terra, sendo de tudo um pouco, a cada segundo. Nessa história já fui pássaro, herói e até vilão. Mas, nestes enredos, o melhor de tudo era se apaixonar. Ah, como era bom. Amor de mulher bonita, formosa, meio tímida e maliciosa, com cheiro de flor e beijo de tarde preguiçosa. Vai ver toda solidão é uma espécie de loucura. E a minha, longe de me libertar, me prendia mais e mais àquela terra.

E no auge da minha inocente loucura, passei a conversar e convidar as casas do vilarejo a visitarem meu mundo, misturando dentro de mim seus formatos e suas cores, imaginando os sons do vento batendo nos telhados e fantasiando o tempo e as histórias que elas carregavam consigo ao longo daqueles anos. Acho que o que me impressionava nelas é que quando tudo passava, quando todos morriam ou iam-se embora, elas ainda estavam lá, vivinhas e firmes como pedra, prontas para contar todas as histórias. Histórias dos nascimentos, namoros e conquistas daquelas pessoas que, perto delas, passavam tão rápido como uma brisa de tarde. Será que quando nem eu nem o Pai fôssemos, elas ainda estariam lá para contar a história de nossas saudades? O senhor deve saber melhor do que eu.

Mas das casas, na verdade, só não gostava era da minha mesmo. As casas nossas assim, vistas de dentro, parecem como que devoradoras de gente. A minha então, era um nozinho na garganta. Foi o que acabei por comprovar no dia da chuva. Eu estava ali, mal acabara de chegar, trazendo os panos e a serragem que o Pai havia pedido, quando começou o aguaceiro. Com ele, a tempestade foi trazendo também todos aqueles barulhos e fraquezas de sempre. E eu, naquele instante, olhando pela janela, era como se cada gota que caísse fosse parar bem dentro de mim, como se o peito meu fosse feito daquela mesma terra molhada que a agora a chuva encharcava. E ela ia entrando, se acomodando pelas frestas e goteiras, pingando sobre minha cabeça, jorrando diante dos meus olhos, ficando também dentro de mim. Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobre as quais jamais pensara. Doideira? Tentava tirar de mim esses pensamentos, fechava os olhos, tentava me concentrar em alguma coisa. Quisera eu, naqueles tempos, que os pensamentos também se fechassem junto com os olhos. Será que todas as crianças sentiam coisas assim? Era o que eu me perguntava naqueles tempos, quando o meu pequeno corpo já não cabia mais em si de alguma coisa, alguma coisa que, quando eu ia pensar o que era, se desmanchava diante dos meus olhos, ou que, quando vinha ao pensamento, já distanciava vagamente do sentir. Hoje, quando tento olhar para trás e pensar nisso tudo, falta-me mesmo uma imagem que dê vazão a qualquer palavra. Careço de entender essas coisas. Na verdade, o senhor sabe, olhar para trás é quase sempre como inventar algo, imprimir uma intenção ao passado, buscando qualquer coisa que dê sentido aos anos idos. No final das contas, acho que o melhor mesmo da infância são só as lembranças que inventamos, os contos de fadas que sobram no mar do indizível.

O fato é que, no meio da chuvarada toda, o Pai estava ali, costurando alguma coisa que só Deus sabia para que servisse. E, enquanto mais ele trabalhava, mais se punha a falar, falar e falar. Era quando eu virava para a malhada, tentando imaginar como ela via o mundo nosso. Nessas horas, chegava até pensar que a Malhada era gente, gente mesmo, daquelas que entendem das coisas, no sabendo - não sabendo. Eu tinha isso para mim acho que era por causa daqueles olhares vagos, daqueles momentos em que ela se levantava e ficava olhando para o Pai, com aquela terna melancolia, como se no arregalar daqueles olhos, ela afagasse ou lambesse os sofrimentos do velho. Nessas horas, a Malhada mais parecia um anjo, daqueles que olham assim para os pecadinhos humanos sem julgá-los por seus erros e talvez até mesmo felizes pela fé que os anima. Era assim que eu a via naqueles tempos. Mas por dever de prudência ou medo da loucura, tentava desver. Corria, então, para ouvir o pai, que depois de tanto palavrório, parecia que se arrependesse do que dizia. “Vá dormir meu filho, vá dormir”. E era o que eu fazia. E foi o que eu fiz naquela noite.

De manhã, como é do vosso conhecimento, era Sábado de Aleluia. O pai me acordou o Sol mal estava nascendo. Dei um pulo na cama e, mal-humorado, fui atrás do velho. Ao apressar dele, corri ao encontro daquele homem, meu Pai, meu irmão das Almas. “Pronto para a malhação de Judas?”, perguntou. Eu não sabia o que respondesse. Na dúvida, continuei andando. Caminhamos alguns quilômetros até a cidade, onde ia ter parte a tal da malhação. Meus pés já estavam quase que rachando naquele sol quente. No andar, o pai ia quieto, mas seu cenho franzido parecia transbordar de dizeres. No caminhar ao lado daquele homem, sentia que aos poucos eu, que ainda era menino, ia como criando também passos de homem. Tentava imitar seu andar, seu falar e as coisas que ele dizia, mas pensava comigo que Deus me livrasse de sofrer tanto assim na vida. Queria ser filho dele em tudo, mas não por parte de sofrimento. Por alguns mistérios dessa nossa travessia, dizem que o sangue passa mesmo de uma só vez e eu, mesmo sem perceber, já começava a sofrer também. Sentia que alguém tinha derramado o coração do Pai todinho dentro do meu e que ambos tínhamos nascido para aqueles sofrimentos. Pudesse ser assim?

Quando dei por mim, o pai resolveu parar. E ficou ali, com aquela boca aberta e o olhar distante, perdidinho naquela imensidão de terra seca, quase que se misturando com a paisagem toda. Então, como se não existisse mais nada no mundo, ele começou a observar atentamente o tal do Judas que trazia consigo, com uma cara assim, daquelas que alguém faz quando pensa alguma engenhosidade. De repente, tirou a camisa velha que trazia e vestiu no boneco. Depois, observou a cena por mais alguns segundos. Respirou profundamente. Resolveu botar também o chapéu. Ao final, contemplou o que tinha feito e viu que era bom. O Judas, agora, era todinho o Pai, só faltava mesmo era o sopro daqueles olhos distantes, talvez o entristecer ao fim do dia. Por que fizesse aquilo? Não carecia de perguntar, ele mesmo respondeu. “Pra deixar de ser besta, meu filho. Pra deixar de ser besta de sair da nossa terra e vir pra este lugar, onde só Deus, só Deus é por nós.” A verdade é que, na vida minha, aquela era a única terra que eu conhecia, mas, por algum motivo, quem sabe por ser filho do Pai, ou quem sabe por não ser filho de quem quer que seja, sentia que aquele lugar também não me pertencesse. Talvez de mim mesmo, meu senhor, fosse só a travessia.

Como era de ser, o Judas foi levado à Malhação, com os pertences do Pai e tudo. Quando retornamos à casa, o velho parecia cansado, não sei de andança ou de solidão. Como de costume, sentou-se na cadeira de sempre e começou a olhar para o fundo de um copo vazio. No olhar, a Malhada o velava sem cessar, como fazia todos os dias à sua chegada. Tudo do mesmo jeito, tudo como havia de ser. Como se não houvesse mais o que fazer, respirei fundo e fui ter à janela. Debrucei-me sobre o parapeito e me pus a contemplar a paisagem que cabia naquela moldura. Não demorou para que meus olhos começassem a vaguear. Através daquela janela, tudo parecia distante. Ao mesmo tempo, era como se todo o mundo coubesse ali. Mas já não me contentava em ver o mundo daquele jeito. Eu queria tocá-lo, sentir seu cheiro, sentir meu pé roçando em outros campos e terras. Era quando no meio desses devaneios, eu lembrava do Pai. O que seria dele quando eu não estivesse mais ali?

Mas não. Eu bem sabia. Não era o Pai quem me impedia de partir. Dele, de alguma forma, eu já havia partido faz tempo. Era aquele incontável, aquele indizível, aquele nó na garganta que me arrebatou no dia da chuva e me espremeu contra meu mundo que agora me devorava pela simples possibilidade de partir. Será que tudo ia continuar assim para sempre e nada mais iria acontecer? O que poderia me prender agora? Será que era aquela casa, o Judas ou Pai? Só sabia que precisava partir e partir logo. Mas meus pés não se moviam. Não é mesmo a terra o que prende os nossos pés. Olhando pela janela, me deu vontade de chorar. E era como se todo o mundo coubesse ali. O senhor sabe? Era preciso correr terra.