quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ego

O escuro forçado do meu quarto

Não me impede de pensar

Na grandiosidade do teu egoísmo gracioso

Dos teus cabelos pretos

Que apaixonam os olhos

E beijam os ventos


É, são teus olhos molhados

Que me borram a razão

Paralisando a vida dos demais

Transformando tudo em pura reverência


Eu confesso

Que tua razão exacerbada me fascina

Que o rugido do teu coração

Desfia poesias

Rompendo as fronteiras

Entre as palavras e o papel

Entre o rude e o sincero


O meu amor por ti

Fica longe de ser algo cotidiano

Ele grita, vibra, rompe, estremece

E ao mesmo tempo

É o silêncio ensurdecedor e agudo

Que decapita o nada

Dando vida transcendente ao absoluto


Na verdade

Tu és o absoluto

O absoluto estado de emoção

O ser humano mais livre

Que já tramou por esse mundo

Despojado de pudores

De jaulas

De grades

Livre para ser imundo

Puro

Vivo


És a figura da liberdade

O ícone da graça

Marcada por teus símbolos

E derramando todo o mistério que se pode conceber.

Paulinho Tamer, 12 de janeiro de 2011

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Os maluqinhos contemporâneos



Museu de Arte Moderna, Londres

A arte é por necessidade comunicativa, a diferença está no que se comunica, se se trata de algo de valor universal, não importa o estilo que se valha , sendo esta característica mais acentuada na Arte Sagrada, tendo como cume o período medieval, especialmente universal, pois tem um valor fortemente doutrinal, por exemplo, não se pode pintar o Nosso Senhor Jesus Cristo puramente humano, assim como Nossa Senhora como uma mulher qualquer, será arte, se não, não; se a comunicação é limitada, desde o início, à individualidade do sujeito criador, sendo bondoso, tal como esta imensa porcaria acima, não é arte. Simples assim.

Pode acontecer, como Luiz Gonzaga expõe na primeira aula do curso de arte sacra, que vos recomendo, de fronte para um objeto artisticamente autêntico, não venhamos a reconhecer o valor objetivo dele, sua universalidade, portanto, todo o gosto artístico é influenciado pela educação recebida, tomando o exemplo mais específico da música, quando o tutor de Hans Cartop da Montanha Mágica disse-lhe que para se compreender a música clássica dever-se-ia ter lido muitos livros, ou, tomando o exemplo da literatura, do mesmo teor, tal como disse Jorge Luis Borges que para se entender um único romance necessitar-se-ia ter lido outros inúmeros romances, logo, não é porque eu inicialmente não o compreendo, que, por isso mesmo, não possui valor algum, tal vem acontecendo simplesmente por uma ignorância do sujeito, julga-se precipitadamente, o que tem validade, por princípio, é a preguiça e o desleixo.

Universalidade e objetividade é o que acontece com o Fausto de Goethe, dentre outros fatores, pois temos uma distinção entre o artista e o objeto criado, tal como o pai se distingui do filho, mesmo sendo a nós possível reconhecer certas características comuns entre os dois, nunca o objeto gerado se confunde de todo com o criador, isto permiti uma objetividade valorativa à obra, sua raridade e universalidade; também é o mesmo caso, da possibilidade de compreensão universal da “Fantasia on Polish Airs” de Chopin, na qual, não se perde o valor apesar de o tema ser de musicalidade polonesa, o valor dela está para além desse fato, não é porque é romântica que não possuí universalidade. De outro modo, não é o caso quando temos obras puramente subjetivas, mera expressão da individualidade do sujeito criador, igualando, por um defeito da natureza, todas as características do pai com a do filho e vice-versa, num todo coeso e bem definido, sendo a criatura a mesmíssima coisa que o criador, em essência; não havendo, nesse caso, distinção alguma entre o ato de o artista ir ao banheiro ou criar qualquer objeto artístico. Nessa arte subjetiva, na maioria das vezes, a arte é definida pelo preço que ela tem no mercado, se vale muito, é prodigiosa, sublime, sendo o ambiente de ignorantes é comum tomar o acidental como essencial, vale tanto o meu peido quanto a sétima de Beethoven, quer dizer, se a excrescência tiver um valor mais alto, se um especialista, não sei como, conseguir sentir cheirosos perfumes, ponto para ela, é mais arte.

A arte verdadeira, o fio de Ariadne da onde se parte para julgar todas as outras, é a ameaça existente para os maluquinhos contemporâneos, e, por isso mesmo, perigosa, sendo a eles muito mais vantajoso julgá-la inferior, ultrapassada, ao invés de tomar a responsabilidade no peito e buscar o algo a mais que é a característica da arte que vive mais séculos.

Sublimidade da caixa de leite, Museu de Arte Moderna,Londres



domingo, 9 de janeiro de 2011

O Velho e a flor


Retrato do Dr. Gachet - Vincent Van Gogh

O Velho, com ademais era conhecido por todos ali, caminhava a passos curtos pelas ruas da redondeza. O ar frio e nebuloso da cidade já não anunciava o porvir de outrora. Pressa? Já não havia para quê. O velho sentia o corpo pesado, os olhos vazados em lágrimas que jamais cairiam. Sem saber por que, seu peito agora estava todo doído, de uma dor que jamais havia experimentado, nem mesmo nos tempos áureos de sua juventude, quando geralmente se tende a exagerar nos amores e nas dores que se sente, para que, assim, talvez, a vida pareça ter algum sentido.
Este já não era mais o caso. Como ele mesmo gostava de lembrar, suas ilusões estavam desfeitas. Já não havia beleza que o satisfizesse, nem um Deus no qual acreditasse. Aliás, a beleza da iconografia eclesiástica, que outrora decorava seus aposentos, parecia a ele agora o último véu que encobria o infame e sem nexo da vida. Para apoiá-lo sobre a terra, só mesmo sua boa e velha bengala, a única certeza que tinha de que não cairia desfalecido sobre o chão maciço, sem inferno por debaixo e nem tampouco um céu no extremo oposto.
Mas foi durante a caminhada daquele dia cinzento e frio que se deu o acontecimento. Aquela flor, dando-se assim na forma de uma benção, foi para o Velho como uma espécie de revelação. Ela apareceu tão sozinha e pequenina, emergindo em meio ao orvalho, tão carente de cuidados e de carinhos, que o Velho fez uma coisa que há muito tempo não se permitia: ele sorriu. Sim. E não foram os sorrisos sarcásticos de uma segunda infância, travestida de madureza, que sem aceitar o trágico da vida, julga-se sapiente por sua amargura. Foi um riso gracioso, gratuito, como se tivessem restituído a este Velho os sonhos mais puros de sua tenra infância. Mas desta, ele não conseguia nem mesmo se lembrar. Agora, naquele sem tempo, só havia a flor.
 Por algum motivo, ele não ousou aproximar-se. Sinceramente, não sabia nem como existir na frente dela. Havia algo entre ele e aquela florzinha doce e minúscula, desajeitada e quase lasciva que ele não sabia explicar, algo que, como uma barreira, impedia-o mesmo de dirigir qualquer palavra àquele ser gracioso que agora desabrochava e velava-se à sua frente, como a verdade encoberta pronta para vir à tona à primeira e doce provocação. Mas ele não podia. Precisava afastar-se. Não queria estragar aquele momento com  o que pensava serem desejos repugnantes. Mas que desejos seriam esses? Ele ainda, de fato, possuía algum? A flor o assustava e era tudo que sabia agora. Decidiu partir, sem dizer, ainda, uma só palavra.
Nas horas que se seguiram daquele mesmo dia, o velho não pensava em nada mais que não fosse a flor. Tentava ler um livro e todas as palavras remetiam à beleza do ser amado, desligava as luzes, e logo o esplendor da flor o acompanhava em seus devaneios, como se ela soltasse os cabelos de pétalas e oscilasse como um pêndulo à velocidade de seus pensamentos. Naquele momento, ele não sabia se era a flor que o hipnotizava ou se eram os seus pensamentos que aprisionavam a flor. Começou a imaginar então suas próprias pegadas indo na direção daquela formosa dama, fazendo desvios e espirais só para deixar o caminho menos sério e mais bonito. A flor, ele bem sabia, era sua leveza, uma leveza que pesava todas as vezes que pensava na distância entre a flor e o Velho, entre o Velho e a flor. A distância precisava ser apagada. Era preciso pular o abismo. Ensaiou então por mais de mil e uma vezes à frente do espelho a deferência que faria ao apresentar-se e a declamação primorosa de todas suas intenções. Aquela flor seria, do alto de sua jovial ingenuidade, a paz daquele Velho, o perfeito encontro que daria vida ao andrógino, o retorno ao seio da terra, que o retiraria da dor que agora o despedaçava em memórias famintas, que consumiam cada uma de suas forças, cada parte de seu orgulho e da sua estima, por um colo em que pudesse repousar seu sofrimento. Agora, ele tinha a flor. Parecia que já a conhecia de muito e muito tempo. A flor havia sido feita para ele e ele somente para amar e cortejar aquela flor.
No dia seguinte, o velho acordou cedo. Para falar a verdade, não conseguira nem mesmo pegar no sono. A anunciação dos primeiros raios de Sol foram para ele como que uma graça, que por algum motivo parecia trazer notícias da florzinha que agora ocupava cada um de seus pensamentos. Ainda abrindo o peito à luz da manhã, o Velho sentiu um desejo, o desejo de se mostrar mais belo para a flor. Decidiu então ir ao barbeiro mais famoso da cidade, como há muito tempo não fazia. Na verdade, não sabia se por alguma compulsão pseudo-intelectual ou mesmo alguma tentativa genuína de desprendimento, ele sempre achara ridículo que pessoas da sua idade tentassem parecer mais jovens. “Só conseguem enganar a si mesmas”, dizia. Mas agora ele estava ali, ainda que inseguro e um tanto envergonhado. “Há quantos anos o senhor tem esses cabelos grisalhos? O senhor não acha que tem direito à cor natural de seus cabelos?” Bastaram essas poucas palavras por parte do barbeiro, aparentemente uma praxe para clientes inseguros como ele, mas que naquela hora foram aceitas e abraçadas como a mais profunda e genuína das verdades, na qual o Velho, ainda um tanto temoroso, houve de se agarrar com todas as suas forças. Tinha certeza que em meio às rugas e tufos grisalhos de cabelo, emergiria a virilidade do homem há muito apagada de sua feição. E tudo, tudo por causa da flor. A flor era sua Sonata, a flor era a sua Fontana, a flor era o gaio prazer de sua linda juventude, que retornara agora sem mesmo nunca ter existido. Horas depois, velho saiu do barbeiro com a sensação quase pecaminosa de que agora sim, poderia amar impunemente.
E o Velho inventou um novo caminho, arranjou desculpas e afazeres, traçou parábolas e compromissos com o único objetivo de voltar ao traçado onde, na véspera, havia encontrado a flor. Já havia pensado em tudo, em todas as coisas que haviam de ser ditas e feitas. Consumaria assim o desejo contido há tanto tempo de amar, de amar aquela florzinha que já conseguia enxergar só de fechar os olhos. Mas como poderia amá-la assim há tanto tempo, se só na véspera havia descoberto sua existência? Isso o velho não sabia responder. Mas, afinal, que importava! Ali estava a flor com a qual havia sonhado por toda a sua vida!
Ao avistá-la, finalmente, o Velho sorriu e, à gratuidade daquele encontro, a flor respondeu abrindo levemente as suas pétalas e escondendo os espinhos para que o velho não se assustasse tanto. A flor havia se ferido tantas vezes, que agora, mesmo que não quisesse, os espinhos estavam ali, podendo ferir mesmo aquele velinho, que jamais faria mal algum a ela. Ou seria justamente pela impossibilidade do mal que a flor agora tinha medo, medo de receber do Velho tudo o que sempre quisera? A flor parecia também sorrir aos passos tímidos daquele homem desajeitado, e ia exalando um cálido perfume a ser desvendado quando fosse chegada a hora. Ao aproximar-se, mais uma vez, o Velho falou: “Minha senhora...”. Mas a flor não respondeu. Talvez tivesse falado baixo demais, talvez seus ouvidos não fossem tão bons quanto eram anos antes e nem tivesse se apercebido da garfe que cometera. Então, ele tossiu levemente, encheu os pulmões de ar e recomeçou: “Minha senhora, gostaria de lhe dizer que há muito tempo...” E a flor se fechou. Na mesma hora, o velho começou a tremer, debruçou-se sobre as suas mãos, que, por sua vez, eram apoiadas na velha bengala, e deixou que suas pálpebras escorressem sobre a face, enchendo também os olhos d’água, com lágrimas que, mais uma vez, jamais haveriam de cair. O que ele haveria falado, ou quem sabe deixado de falar para que a aquela flor se fechasse assim, repentinamente? O Velho, tão acostumado a viver sozinho, sabia de tudo o que queria falar para a flor, mas não sabia e nem compreendia a linguagem daquele ser que, para ele, estava separado por um abismo intrespassável. Tudo o que ele queria era contemplar e poder tocar aquela flor, falar-lhe aos ouvidos e saciar-se no colo macio de suas pétalas. Mas ele não sabia o que vinha da flor e nem por que, naquele momento ela havia se fechado.
Não havia mais nada a fazer. Agora, a cada palavra do Velho, a flor se escondia, como que assustada, daquele ímpeto que emergia do abismo mais profundo da solidão. O Velho, agora, desabava por dentro, suas pernas tremiam, mas sabia que havia chegado a hora de partir. Havia perdido, pelo incomunicável, a flor para todo o sempre e aquela dor ficaria sempre guardada com ele, até ser desaguada em esquecimento de lembrança leve. Tentaria dali em diante deixar que morresse em seu peito aquela dor dilacerante e guardar em sua memória o gosto de brisa do encontro, do encontro entre a flor e o Velho, do encontro entre o Velho e a flor. 

David Carneiro 09/01/11

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

O cavaleiro e o vampiro

Embora este fato já tenha ocorrido tem algum tempo, em Belém do Pará, qual seja o do assassinato de uma garota de 16 anos pelo “vampiro” Ezequiel Calado, logo após ter lido uma entrevista concedida por ele à televisão, veio-me à memória, ato contínuo o enredo de Dom Quixote. Escrevi esse pequeno texto logo após, mas pelo tempo exíguo acabei por não o colocar aqui.

Literatura é conditio sine qua non à toda formação humanística, sem ela, os conceitos serão sempre conceitos, a imaginação pobre, e a realidade morta: é por ela, que o indivíduo constrói, pelo princípio de verossimilhança, o mundo imagético com o qual consegue enveredar-se pelo mundo, colorando-o e esculpindo as arestas, ter consciência de si, de suas ações e das conseqüências delas: quem tem em sua consciência a vida de Hamlet, de Hans Cartop, ou de D. Quixote, tem mais consciência de si do que outros que não tiveram contato alguns com tais leituras; consegue propor-se questões até então inimagináveis, ascender ao mundo dos valores humanos; enfim, contaminar-se com a humanidade de tais personagens, entrando no bosque sacro da moralidade. Cervantes, no início da modernidade, profeticamente, diagnosticou fatos hodiernos, como todos os que escreveram com a pena da eternidade, em seu “Dom Quixote” na pag. 93 da edição da editora 34, em resposta às leituras assíduas de seus contemporâneos aos romances cavaleirescos, com as quais estes imaginavam-se, a despeito da realidade, como os guerreiros das Cruzadas, escreveu:

“... que esses malditos livros de cavalarias que ele tem e costuma ler tão de ordinário lhe transtornam o juízo; e agora me lembro de o ter ouvido dizer muitas vezes, falando sozinho, que queria armar-se cavaleiro andante e ir buscar as aventuras por esses mundos.”

Tudo isto seriam palavras vãs, se não fosse Literatura, e não implicasse diretamente em nossas vidas imbuindo-nos de aprendizado que perpassa os séculos. Quando perguntaram, àquele Ezequiel Calado, que assassinou uma garota de 16 anos, este respondeu:

R: Vocês diziam que eram vampiros de verdade no jogo de RPG? De onde surgiu essa vontade de beber sangue?

E: Essa onda de vampirismo era mais coisa de jogos e a fantasia que a gente gostava de viver. A gente gostava de imaginar que era vampiro.

R: E de onde veio essa fantasia de ser vampiro:

E: De filmes, livros, jogos.

R: Que filmes?

E: Filmes como "Anjos da Noite", "Crepúsculo", esses filmes assim.”

A podridão da imaginação desse indivíduo foi consequência de ele nunca ter tido contato com literatura que tenha a dignidade dessa palavra mesmo, ou antes, à educação que recebera na escola baseada em resumos dos resumos que limitam Machado de Assis à “escola realista”, Manuel Bandeira à “escola moderna” e Homero, nem isso, à antiguidade morta. Muito ao contrário do que se pensa, a grande fantasia, é a maneira mais rica para conferir humanidade aos sujeitos, revestindo-lhes de arquétipos com os quais a sua vida irá desenvolver-se, imbuindo-lhe de imagens que torna a experiência humana mais rica, além é claro, de ser a parte precípua e imprescindível de toda formação chamada superior. O que faltou para este sujeito foi exatamente isso, falta de hierarquia de valores, e quando estes andam em falta, o resultado é daí para pior. Aliás, este é um dos quais, responderia caso fosse perguntado, que não existe objetivamente uma leitura infinitamente superior em relação a outras, e que o certo é cada qual permanecer com o seu gosto, seja este incidindo imaginar-se vampiro ou cavaleiro medieval, tanto faz.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Poesia para Ricardo

Meu grande amigo,

Te vejo envolto nas mais profundas inspirações

Coroado da maior boa vontade

Em alcançar-te em poesia

Em compor-te em versos


Mais do que isso

Vejo-te em pleno esforço

De permitir aos outros que a alcancem também


Ricardo,

És um amigo admirável

Digno destinatário dos mais belos versos de um poeta pouco capaz

Não te acanhes ou baixes tua cabeça

Diante das formas inescrupulosas e medíocres

Que a vida ou a poesia possam querer te impor


Poesia, meu amigo,

É a ciência da liberdade

Aquilo que por observação e experimentação

Pode ser provado que nada precisa de provas

Que nada precisa de observações

Que tudo

Que o tudo

Só precisa de sensorialismo

Sem forma

Sem quê

Nem porquê


Traço minhas letras em teu destino

Para que alcancem o teu íntimo

E revelem-te o que quero te dizer


Não existe melhor nem pior poeta

Existem apenas homens encarcerados no medo

E outros livres

Mas livres para dar à sua vida

A mesma forma que dão à sua poesia

A forma do vento

Forma nenhuma

Apenas uma brisa sutil de verdade e liberdade.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Pensar com os corações suspirantes

Lógica emocional alem da conta

Oceano de razões

Poço fundo de modéstia

Reprimenda interna

Sensibilidade extrema

Medo do nada

Compulsão por viver o absoluto

Horizontes desvirginados

Emoções maculadas

Orgulhos em sangue

Metade de mim em ti

Metade de ti ao meu lado

Metade da gente fora de alcance

Perturbação das ondas funestas da razão poluente

Contemplação das muralhas emocionais do amor construtivo

Alicerces de edificação

Alcançar o intocável

Agarrar a imaginação

E finalmente

Nascer livre.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sísifo

Vicent Van Gogh



Da primeira vez que ouvi teu nome
Não te amei como se amam as rosas do campo
Foste caindo em pétala feito chuva
Encharcando agora como luva a verde relva

Hoje, amada, teu nome é um perfume
Que derrama lume em meu caminho torto
Nele, ladrilhei pedrinhas de brilhante
No mesmo instante em que meu peito caiu morto

És minha lira,
Corro atrás de ti como num sonho
Num vai e vem que se desfaz a todo instante
Que retorce o peito em vasto e negro túnel
Ou mesmo em calda de estrela cintilante

Assim és porque és a um só tempo
Luz e escuridão,
Meu torpor e meu tormento
(A hora é preciosa, minha amiga!)
Escuta meu lamento!

Mas foges de mim assim
Como de Deus eu mesmo vou fugindo
(E é só por isso que na escuridão te encontro)
E nela vou te seguindo
A escuridão, esta íntima amiga
Parte teu rosto em pó e fio brilhante
Vou bebendo tua ausência inebriado
Mas basta ver-te e tudo recomeça...
Já és para mim a brisa da fontana
Tenha pressa!

Teu corpo é meu refúgio e meu abrigo
Tua loucura minha angústia e minha calma
Quero pintar girassóis para teus olhos
E de perfumes encharcar a tua alma

Ah querida amiga! Não perguntes se desejas
Já desistimos nesta vida ter verdade
Já desistimos nesta vida ter certezas
Ah meu amor, você já pode se afobar
Não existem futuros amantes
Nem amor que não seja para já
A dúvida é uma uva que encosto
Lentamente em tua boca
Minha louca! Minha amiga!

Esconjuro eu que não te amava
E nem beleza em ti então havia
Quero contar como cheguei a ver-te
Ou não ver-te como te vi um dia
Tu és o último dia da criação,
Que só neste instante fez sentido
Contemplo-te agora debaixo da árvore de sombra fresca
Desmentido.

Qual o quê, minha amiga?
Nosso amor é uma tarde clara,
A brisa em espiral e ousadia
Nosso amor é pôr-do-sol, amada!
Recolhas o arrebol desses teus olhos
O laranja que contemplas deslumbrada
Tudo por querer-te amor amor
E por não querer e querer-te enfim
Minha amiga, minha namorada!

Quero te amar, assim, em silêncio
Num momento calmo, fazer loucuras de amor contigo
Quero estar sempre e sempre ao teu lado
Quero ser teu refúgio e teu abrigo

Quero sentir teu beijo, fazer amor sorrindo
Quero ser teu amante e teu amigo
Nosso amor nasceu da mais profunda comunhão da alma
Se sou para ti e és para mim, minha amiga...
Não tenha mais calma!

Apressa-te! Venha comigo
Quero mostrar-te o quanto a vida é bela
Quero vazar em lágrimas tuas mãos
E ser pro coração tua janela

Depressa, teu pai já acordou
Vem com o teu amor!
Ele mesmo sorriu quando te viu contente
A sombra das nossas mãos que se tocaram
Nossos olhos que brilharam de repente.

Já não há o que temer
Nem sofrer de tanta espera
Mesmo que não ame te amando
Mesmo que te ame de tão bela.


David
14/12/2010

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Formai


O forme pelo amor à forma
A forma pelo amor à fôrma
Aforme para amoformar
Fórmico a formentrar
Formante a esformear

Disforme é o amor
Diz forma é poetar

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Acorde!



O melhor detalhe é o que não se nota
Nota tarde ou o quanto antes
Pois de notas faz-se acorde
Então acorde e tome nota
Do relevante que ninguém nota
Muito menos conta
Por buscarem sem cota lá fora
Sempre a maior nota

Lá, se a nota é baixa, não se paga a conta
Mas aqui dentro, nesse peito, do lado esquerdo
Há uma bomba com defeito
Que descarta a nota exigda lá fora
E nem cobra a conta
Apenas chora
E tenta, de nota em nota
Construir o acorde que só ouve quem acorda

Dificil é ouvir, pois acordar e tomar nota de cada nota
A cada dia, a cada hora
A cada apelo de um coração que chora
Como o meu

Fácil é ver que dificil é compreender o meu cantar
Posto que esse cantar
Que também é contar
Segue o tom do meu acorde