sábado, 28 de janeiro de 2012

Verdade Primeira

Investigo-me a consciência.

Livra-me do amanhecer, noite das dúvidas.

Reforma-me em sons agudos e timbres harmoniosos.

Ah, dúvida dos homens,

Construam homens sem dúvidas


Questionar-me em minha guerra

É realizar-me de paz e verdade

E encher-me do terror do conhecimento.

Conhecer dá medo,

Mais medo é não conhecer o medo.

Paz ou guerra?

Escolho ambas como minha cama.

Estar em paz por conhecer,

Estar em guerra com o revelado.


E assim me sinto em campo,

Em uma paz em estado permanente

E uma guerra em estado latente.

A guerra dos homens é não conhecer,

A paz do espírito é não conhecer a ignorância,

Apenas a calmaria da verdade.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Nunca lerás (Haikais em série).

Só tive uma dança,
Me desejei uma dança.
Me conseguiste por todo.

Mão nas tuas costas,
Meu nariz no teu cabelo.
Firmes, palmas juntas.

Uma frase, ou duas.
Vem o fim da minha música.
Frágeis, as lembranças.

Odores perdidos.
Também teu nome perdido.
Meus Poemas por dito.



segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O homem estátua 3

O Homem estátua ficou paralizado. E não pelo corpo que permanecia sobre banco enquanto sua mente percorria a memória da praça, nem pelos olhos que continuavam piscando para dar sinal de vida ao corpo metálico que agora se questionava em suas profundezas. Sua paralisia era uma constatação, um assombramento. Ele sabia que tinha dentro de si um segredo qualquer. E era uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão linda que o faria do alto da mangueira mais alta derramar poesia sobre toda a cidade, tal era a força do sentimento que portava. E quanto mais forte pulsava em seu peito aquela dor, aquela agonia de ver correr-lhe alguma coisa da alma, mais forte eram os grilhões que lhe prendiam ao silêncio, como se estivesse condenado para sempre à mera contemplação da vida.
Foi quando o homem estátua percebeu que portar este segredo, essa vontade de não sei o quê que sentia dentro de si e que era só dele, era como portar também sua incomunicabilidade. Algo de amargo lhe desceu pela garganta. E, por um minuto, olhou o céu como se não vivesse. Deixou-se então encantar um pouco mais com o resto de dia que ficava daqueles que haviam passado, deixando suas histórias, suas maneiras e seus passos. Ele sabia que sairia dali e mais uma vez percorreria a mesma rua, sentiria o mesmo cheiro da baía e confidenciaria o mesmo segredo com as proas, tentando quem sabe imaginar as histórias que deram nome aos barcos. Mais uma vez nada teria para dizer e tudo conteria dentro de seu infinito incomunicável. O homem estátua sentiu-se só. Desceu do banco, guardou seus pertences e fechou a maleta. As lágrimas que lhe caiam no rosto começaram a borrar levemente a maquiagem. Neste dia, o homem estátua chorou baixinho, como só se chora em Belém do Pará.

David Carneiro, em 21/11/09

O homem estátua 2


Enquanto as horas iam passando, o homem estátua era brindado e castigado pelo Sol, experimentado por crianças curiosas e friamente abraçado por turistas ávidos de recordações da cidade das mangueiras e seus homens estátua que nada tinham de diferente, a não ser pelo ar de profunda solidão. Ele não se importava. Cumpria com diligência e probidade todos os artigos do código de postura das estátuas, quem sabe com intento de ganhar o prêmio de Estátua do Ano ou mesmo pelo compromisso republicano firmado na Estatuinte. Só não gostava mesmo quando, ávidos por fotos ou cheios de curiosidade, os transeuntes não o deixavam ver os namorados que passavam.
Logo eles? Aqueles namorados com as mãos dadas, com aqueles rostos igualmente dados um ao outro, com aquela altivez e com aquela alegria meio boba de se bastarem a si mesmos? Como eram lindos aqueles casais! Por nada no mundo perderia um espetáculo desses. Às vezes exuberantes, às vezes tímidos, não se cansavam nunca de emprestar seu vermelho ao verde da grama, sua poesia aos coretos desbotados e suas poucas economias aos artesãos paroaras, que em madeira ou arame, com enfeites de laço ou coração, lhes apresentavam símbolos de amor, não raro contendo a inscrição: funalo e funala. E então o homem estátua pensava como seria se, de repente, no calor daquelas manhãs da praça, em meio aos coretos, fontes e monumentos pudesse surgir do céu uma lua prateada. Como ficariam ainda mais felizes aqueles casais que descobriam agora o infinito do momento a dois ou simplesmente o redescobriam depois de muitos e muitos anos de distância.
O homem estátua tinha mesmo devaneios, talvez fosse um louco ou um poeta. Pensava inclusive em escrever suas memórias. Não suas, exatamente, pois na realidade achava mesmo que não havia nada de emocionante em sua vida que valesse à pena contar. Ele, homem solitário, sem passado e com um presente um tanto trivial, queria era contar histórias de palhaços, de crianças sem brinquedo, de casais apaixonados, de bêbados alucinados ou mesmo de irmãzinhas franciscanas que socorriam os pobres da praça. Começou a pensar nas primeiras linhas dos escritos, em um exercício mental de fazer dó. Mas nada lhe ocorria à mente. Tinha idéias fabulosas, mas bastava pensar em como pô-las no papel e nada, era como se subitamente tudo lhe escapasse entre os dedos. Isso não lhe parecia justo. Como aquela força estranha que lhe rasgava o peito, que lhe fazia suspirar e, por vezes, cair em lágrimas não conseguia encontrar as palavras certas para vir ao mundo?

O homem estátua 1



Seguia calmamente pela rua naquela manhã de domingo. Horas antes, ainda bem cedo, quando mesmo o sol hesitava em afrontar-lhe o corpo, ele já havia levantado. Não conseguiu dormir bem naquela noite. Mas isso já não era novidade. Ainda sentado em sua cama, observava cada canto do cômodo, procurando qualquer coisa que sabia bem não poder encontrar ali. Por algum motivo, soluçou subitamente e colocou o rosto entre as mãos. Permaneceu assim durante alguns minutos. Em qualquer impulso que veio sabe-se lá de onde, resolveu levantar da cama e enfrentar o dia que nascia. Era mais um dia.
Depois do banho, começou a passar a maquiagem prateada no rosto. O frio da tinta arrepiava sua pele como quem machuca de leve, dando a impressão que todas as suas expressões se congelariam em breve. E, de certa forma, assim o era. Quando a tinta começava a se espalhar pelo corpo, já não havia sentimento em sua alma que não sofresse um certo recrudescimento. Se antes latejavam em sua pele como quem quisesse fugir desesperadamente pelos poros, agora se aquietavam em uma resignação consternadora. A tinta tomava conta do seu corpo. E, alguns minutos, o homem estátua se apresentava em frente ao espelho.
Carregando um chapéu e sua velha mala, ele caminhava em direção à praça. As mangueiras, ainda tímidas, só eram perturbadas pelos cantos dos pássaros da manhã e pela brisa fraca que vinha cumprimentar as folhas. As barracas começavam a ser armadas e já se ouviam as primeiras buzinas e assopros de flautas andinas. Ele olhava o abismo vertical dos prédios, tentando lidar bravamente com a vertigem que o seduzia, procurava engolir com suspiros a nostalgia do sábado e cantarolava qualquer canção que falasse em solidão. As crianças, os pais e os cachorros começavam a chegar. Chegavam também os namorados, os manifestantes e os pedintes que se punham em sentinela. O homem estátua também precisava assumir seu posto.
Do alto de seu banco, fazendo uma pose de rei, ele observava agora as pessoas que passavam de um lado para o outro, agradecendo em gestos tímidos pelas moedas que recebia e mudando subitamente de posição, para o desespero de alguns velinhos que se quedavam assustados. Parou para ouvir o profeta, uma de suas personagens preferidas, pelo qual todos passavam sem dar notícia e com um certo ar de desprezo, a não ser por alguns que não resistiam em fazer gracejos ou xingamentos. “E se estivermos todos errados?”, pensava. “E se nós é que formos os loucos?”. Perguntas como essas sempre lhe davam na veneta. E se prestava então a ouvir humildemente, repetidamente, dia após dia, aquelas sentenças herméticas e palavras sem sentido, tentando arrancar um fio de cabelo que dissesse alguma coisa sobre a vida.

Poema Simples



Ah Maria! Não queria te falar assim de angústia
Nem da pressa desses dias que me jogam contra o tempo
Sei que é preciso que haja um pouco mistério em tudo isso
Mas meus olhos de saudade já não mentem
E nada disso poderei te dar agora...

Só tenho comigo uma cartinha e uma flor
Quem sabe um animalzinho de origami
Não vale mais que um mistério, é verdade
Mas um sorriso teu e tudo feito...
Talvez consiga até te conquistar.
Mas você não me aparece Maria!
Você precisava ser assim tão louca?
Mesmo assim não nego que te quero.

E desconfio que aquele que pediu pra amar baixinho
Ou era casado ou era bem velinho.
E não me importo que me quebrem os telhados
E que fiquem surdos os passarinhos
Quero te amar agora
Com todos os sentidos
Sem mais devagarinho.

David Carneiro 16/11/09

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

A falta da pele

Os versos mentirosos contaram ser a tristeza coisa triste
Mal sabiam os poetas charlatões
Que a saudade é tristeza pior que a tristeza
É mal pior que a doença

Me assombras a falta de forma peculiar
Em um aperto no ventre
Em um pensamento pragmático
E um delírio das razões

Benzinho, as noites sem ti nem noites são
Me fazes falta o toque
O olho
A mente
A maneira
E o beijo

As noites sem ti são, no máximo, só noites
Sem tantas alegrias
Com quase nenhuma vontade.
Despidas de desejo
E pobres de festa

A saudade é bactéria
Contamina-me de tristeza
De vontade do que não posso
De saudade das tuas posses
Das tuas ordens
Das tuas vontades fúteis de segurar minha mão

Eu mal consigo pensar
Sou ralo em inspirações
Raso em poesia
És o fermento da minha criatividade
Os versos que componho em pura exaltação do amor

És o amor em si
Por isso amo o amor
És a presença
Por isso não vivo sem esta

És meu infinito que busca o seu começo
És um começo já dado, mas que pressente a sua verdadeira largada
Começaste breve, em oito dias
Retumbaste grave em um ano
E reverberarás por toda a minha vida.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Acolhida

Ele aproximou-se de mansinho
Sem nenhuma pressa para chegar
E se aconchegou tão devagarzinho
Que fui, distraída, deixando-o ficar

Por diversas vezes me prometi
Que não o deixaria ali demorar
O tempo passou... E eu não percebi...
Quando dei por mim, já era o seu lar

Dei àquele moço o espaço que queria
Ainda mais espaço lhe cederia
Se ele me pedisse, sem hesitar

Se eu quiçá previsse naquele dia
O quanto me agrada sua companhia
Jamais o teria deixado entrar

Soneto da madrugada

Por que és, por que és o fogo e as horas
Minha medida, sem medida em mim
Porque aqui, não ali, são meus agora,
Os teus passos sem abraços e fim?

Qual gesto, tu me deixas, se tu choras
Fecha os olhos e as mãos e o meu ruim
O que morre, senão morre ou demora,
O que arranco antes mesmo de ser sim?

Pela noite, dormes onde desperto,
E fugindo eu chego, quando eu te ouço,
Da luz ao longe a ti já estou deserto...

Com a lua invado teu calabouço
E contigo eu deito se eu estiver perto,
Te trazendo estrelas pelo meu bolso.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Medo de acordar,
Do frio da manhã,
Do calor seguinte,
Do peso do corpo.

Medo de deitar,
Do frio da cama,
Do calor da mente,
Dos sonhos.

Medo de chorar,
Do frio das lágrimas,
Do calor do rosto,
Do rosto corado.

Medo de olhar,
Do frio do espelho,
Do calor da luz,
De vencer...

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Poesia pra ele

Ah, Don Juan vagabundo,
que de olhar tão profundo,
me levou o coração.
E as palavras pouco claras.
Das canções mais raras,
domina o refrão.
Menino vadio, sem escrúpulos,
me deixou em seu mundo
levou todo o meu chão.
E depois, como quem logo esquece,
não que eu me interesse,
anda em outra paixão.
Pequeno, nem todo bonito,
provocou o meu grito,
E na garganta mil nós.
Mas por trás de todo esse teatro,
dois mais dois são quatro,
Estaremos a sós.
Pouco me importam as outras,
Teu molde sou eu e não cabe ninguém.
Na tua fôrma, só cabe meu corpo,
Minhas formas, meu rosto te dizem: amém.
Apesar de você,
amanhã ha de ser:
Eu sorrisos, você solidão.
Como o filho que volta pra casa,
cortarás tua asa
e trarás, coração.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

À cara de um sujeito dividido

De repente, no fim da tarde, ali estava eu: em pé, parado, pensativo e olhando para o nada; dentro de uma loja de operadora de celulares, dentro do shopping Center. Um tanto distante daquela realidade movimentada e iluminada, por uns minutos, pairei nas nuvens das idéias. Uma idéia leva a outra. A qualquer direção que meu olhar avidamente se dirigira, uma cena diferente me aturdia.


Ao lado, duas crianças manuseavam hábil e freneticamente uma espécie de Ipod tamanho gigante de última geração. Não sei o nome. É o ultimo lançamento. A novidade do momento. Alguns de vocês hão de sabê-lo.


Mais a frente, funcionários e vendedores. Todos com o mesmo uniforme. Apressados, atendiam telefones que tocavam sem parar; demonstravam aparelhos a clientes - com aquele empenho e obstinação inquebrantáveis característicos dos vendedores – no afã inexorável (que, aliás, deve custar-lhes uma bela fadiga quando tudo acaba) de convencê-los de que estão, sem dúvida alguma, fazendo a melhor escolha de suas vidas. Uma vendedora em específico se diferenciava dos demais. Esta chamou a atenção de meus olhos. Diferindo-se de todos (menos de mim), ela também estava parada e contemplando o nada com o olhar. Era como se tivesse desistido daquela correria e também tivesse percebido a loucura daquilo tudo, indo além em seus pensamentos. Um funcionário vestido em outro uniforme (mas também uniformizado!) – uma calça de linho e uma camisa de mangas compridas, mais social –, exibindo claramente aquela imagem que impunha sua superioridade ante aos outros funcionários, passou ao lado desta mulher peculiar e, com a tez da face contraída e a testa franzida, disse-lhe algo ao pé do ouvido. E ela, como que acordando de um sonho, voltou a se movimentar (apesar de que ainda tímida e vagarosamente).


Ao meu outro lado, duas mulheres. Clientes exigentes, pareciam. Uma reclamava qualquer coisa falando sozinha, talvez a demora em a chamarem pelo numero da senha, ou talvez a má qualidade do serviço como um todo. A segunda mulher brigava com alguém pelo celular. Dizia: “agora não dá, fulano... estou aqui nesta porcaria desta TIM contestando uma conta que veio errada. Pra nos cobrar e nos roubar eles são craques!”.


Naquele momento só meu de observador viajante – “só meu” por se tratar do devaneio mais profundo durante o momento mais corriqueiro da vida cotidiana -, em que tais cenas aconteciam lenta e silenciosamente para mim, quase chorei. Perguntei-me sobre o sentido desta vida. Aquilo era viver? E eu, que estava a fazer naquele lugar tão estranho e sem sentido? Eu fui ali para comprar um celular. Já fazia muito tempo que eu não saia para fazer isto, notei.


Tive o antigo aparelho celular sorrateiramente subtraído de meu bolso enquanto me debatia para livrar-me de um daqueles conturbados emaranhados de gente que se formam de vez enquanto nas noites de trasladação do Círio de Nazaré. O celular já era velinho. Era um senhorzinho humilde e modesto, de aparência bastante simples. Já conseguia me constranger um pouco diante dos imponentes, viris e pós-modernos que já apareciam freqüentemente nas mãos dos outros.


Constrangimento? Não seria um termo muito forte? Não é um tanto dramático de minha parte? Que seja. Quem foge à regra dos valores dominantes, naturalmente, tende à marginalidade. Talvez não seja nem um pouco difícil acabar se tornando um marginal na sociedade em que vivemos.


“Por causa de um celular alguém se sente deslocado? Aff... é muito sentimental!”. Será que refleti apenas sobre um celular quando, enfileirado e querendo um celular novo, me aturdi com a vida naquele fim de tarde? Creio que quem ouse não acompanhar o marasmo das novidades do consumo – do gozo inalcançável -, quem não ingressa neste espaço virtual (virtual porque, concretamente, sabemos que apenas muito poucos gozarão de tais gozos), parece estar fadado a uma espécie de anacronismo e, portanto, de marginalidade.


Voltado à loja: de repente, eu estava à frente de um enorme e extenso balcão de vidro, no qual havia dezenas e dezenas dos celulares mais sofisticados à exposição. Os mais diversos modelos e cores, todos brilhando e repletos de botões (tais como teclados de computador em miniatura). Precisava escolher um. Como? Aquilo era um bombardeio de estímulos, um mar de possibilidades. Era um convite a me deixar ansioso, a me deixar ouriçado olhando tudo e a não saber escolher. Eu ficaria agitado bisbilhotando a tudo – de aparelho em aparelho, apertando o maior numero de botões possível, conhecendo o maior numero de funções e aplicativos possíveis – e no final não saberia escolher, com uma sensação de vazio... de que não vi tudo... de que não aproveitei todas as possibilidades que esta vida das “liberdades” poderia me oferecer.


“Escolha” e “vazio”: palavras muito atuais[1]. Parece-me que uma das nossas grandes dificuldades neste novo mundo - que “nos oferece” infinitas possibilidades de prazer - é a de renunciar. A grande dificuldade que sentimos é a de aceitar as perdas, a de aceitar que a vida é marcada pela incompletude (incompletude, que nossos antepassados, em condições materiais mais precárias, sabiam lidar melhor). Seremos eternamente faltosos. A morte (no seu sentido amplo) não nos escapará. Ter a sensação de que estamos perdendo algo parece mais terrificante do que nunca. A sensação estranha e familiar de que tivemos algo que foi para sempre perdido sempre nos perseguiu perenemente (e sempre nos perseguirá). Porém, hoje nos munimos de um monumental arsenal de armamentos efêmeros para completar o que(?) está faltando e assim aliviar nosso psiquismo: medicamentos (para tudo), auto-ajuda, entretenimentos, pessoas, sexo, art pop, tatuagens, cirurgias plásticas, cinema (aqueles que nos dão “tudo mastigado”), celulares. É consumindo tudo isso e muito mais – objetos que se desvanecerão rapidamente (por isso são efêmeros) - que temos procurado desesperadamente tapar esta espécie de buraco que nos constitui. Por serem passageiros – aliviarem passageiramente nosso mal estar – precisarão ser substituídos rapidamente. O Capital agradece!


Se não pararmos para nos perguntar sobre o nosso mal estar e produzir sentidos mais efetivos para eles, permaneceremos como marionetes, escravos da lógica do consumo, no qual as marcas maiores em nossas subjetividades são a ansiedade, a violência e, principalmente, o vazio existencial. Não nos damos conta de que apenas ficarmos dizendo “Estamos no século da depressão, vamos procurar levar uma vida mais saudável” é algo um tanto vago (para não dizer frívolo e patético). Este clamor por uma vida mais saudável parece apenas esperar que a indústria psicofarmacológica trabalhe dobrado e nos ofereça mais remedinhos que nos deixem dopados e calminhos para continuarmos sem refletir sobre nossos males, nossas perdas, nossa sociedade, nossa vida.


Naquele momento, na loja, sufocado, oprimido e aflito – em meio aquele frenesi; aquela multidão; aquelas luzes todas; aquelas pessoas, que num balanço geral, são mais carentes e desalentadas do que felizes (por mais que se movimentem muito) – eu precisei filosofar. Eu precisei parar e pensar algo para além do que eu via. Pensei nessas bobagens que aqui estão escritas.


Também sou um sujeito dividido. Não estou fora deste mundo. Divido-me entre dançar conforme a música cantada pelas leis perversas que regem este mundo - desejando seus objetos sedutores de consumo – como sempre me ensinou meu Pai; ou, por outro lado, derrubar meu Pai, revolucionando esta história, perseverando nesta caminhada mais árdua de revoltar-se e inventar o futuro. Aos que, como eu, revoltaram-se contra seus pais, creio que um primeiro passo é reconhecer que eles – nossos pais - estão em nós mais do que imaginamos. Eles estão em nós independentemente da nossa vontade consciente. Gostaria que esses pais fossem entendidos não apenas em sua literalidade. Nossos pais: uma tradição moral que nos atravessa, que está arbitrariamente corporificada em nosso ser.


Na loja, estive em conflito por ser dividido. Em conflito porque, ali, olhando para os celulares, me deparei claramente com uma realidade difícil para mim (difícil de aceitar): tenho um fetiche pelos celulares. Eu os desejo. Possuí-los e exibi-los é simbólico, é obter um prazer extra-biológico. É fazer questão de mostrar que tenho um bem privilegiado; e que, portanto, possuo poder e luxuria sobre os outros seres humanos. Isto é horrível. Horrível para mim, um garoto tão correto e humanista. Culpei-me. E isto, só percebi agora: escrevendo, pensando. Naquele momento, apenas um mal estar. Desejando o símbolo do poder, eu parecia com o meu velho e odiado pai.


Ante a todas aquelas possibilidades expostas ao meu fetiche naquele enorme balcão de vidro, escolhi. Em pleno século XXI consegui renunciar (pelo menos, achei que havia conseguido) e escolhi. Comprei um celular de última geração: internet, redes sociais, 2G de memória, câmera de foto e vídeo, lanterna, jogos, aplicativos, entrada para dois ships, bluetoof, e muito mais.


Isto me matou. Violentei-me. Chegando em casa, não consegui viver paz olhando para aquele celular. Dois dias depois, voltei à loja e o devolvi. Eu não poderia me render assim, mesmo desejando. Desejar o proibido é o que mata. Voltei mais leve para casa, me dando um tempo - sem celular! - para escolher outro. Ainda não escolhi. Mas terei de escolher. Talvez não seja nem um tão humilde e nem um tão imponente, e sim um mediano: a minha cara. A cara de um sujeito dividido.


[1] Se meus interlocutores não quiserem aceitar com certa universalidade o que contarei agora, tomem minhas palavras a seguir apenas como bobas confissões pessoais, mesmo eu me exprimindo na primeira pessoa do plural.

sábado, 8 de outubro de 2011

Homem, Mundo

Ah, Deus

Me orgulho dos vastos céus sem azul

Dos mares agitados e sem piedade

Das terras chacoalhantes e indignas


Me orgulham também as flores mansas e inocentes

O asfalto negro e resignado

As arvores que questão nenhuma fazem de se mexer


Assim me regozija a paixão

Sem calma nem paciência

Sem imagem nem decência


Da mesma forma o amor

Paciente e desprendido

Sem avidez nem possessão

Lento e etéreo como os ventos


Somos seres como a natureza

Violentos e pacíficos

Ingratos e agradecidos

Subjugados a dor e a alegria

Eivados por esperança e desespero.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Versos de Clara

Fácil falar do amor em dor

Em pêsame

Em perda

Em separação


Mas teu amor em mim

Se mostrou mais que tudo

Mais que um dom

Mais que uma memória

Mais que um professor


Caminhando pela seara do meu desconhecido

Contemplo minha razão

Meu troféu solitário

Em completa balburdia

Em decomposição


Substituíste meu frio pensar

Pela alegria dolorida da emoção

Pelo amanhecer do meu amor por ti


Ainda inclino a cabeça para ver-te

Como o lobo que se curva para ouvir o vento

Freando meu pensar

E dando força ao gatilho do que me infesta

Ao refeitório lúcido do meu amor


És minha refeição

Meu pão diário

Aquilo que não pode me faltar

O incisivo golpe que cega

E a soberana ordem que dá vida


És o nascer e o renascer meu

O intuitivo modo de abrir os olhos

O involuntário ato de respirar


És um verso claro

Límpido e transparente

Que parte de mim

Da minha boca

Das minhas letras

E toma o mundo com a autoridade da tua beleza


Ah, meu bem

Te vejo como a flor

Que não padece sob o outono criminoso

Te vejo como a morte de todo ímpio

Como a extirpação de toda a minha iniqüidade


Me permites equilíbrio,

Sobriedade e felicidade

És meu começo e minha metade

Minha fartura e minha falta

Minha luz e meu pensar


És o beijo do vento em meu rosto

Meu amor em paz composto

Minha fatia de divindade

Teu amor por mim me invade

Me toma e me agracia

Me permite o sacrifício dos meus erros

E a premiação dos meus acertos


É o coração jovem que bate ruborizado

Em plena atividade de vida

O organismo que nunca padece


És parte mulher e parte inverno

Parte menina e parte calor

Parte de mim e parte de tudo

Pois parte de mim para ti

Meu amor, meus versos, meu mundo.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Sofia

Me tira o ar, a luz e a flor
O meu carinho e a promessa
Um pedaço de toda dor
Onde que tudo começa?

Me tira o pão, a alma e o amor
Qualquer lua que eu peça
Algum minuto incolor
Onda estará minha peça?

Assim eu vou me partindo
Assim eu vou te chegando
De alguma forma te pedindo

De alguma forma te chorando
Perguntando por que seguindo?
Sem saber --- por que te amando.