Prosas, poesias, pensamentos e críticas.
Uma tentativa de divulgação e produção de literatura na Amazônia no séc. XXI.
Uma literatura amadora. É verdade. Mas feita por amigos que são amantes (amadores) destas terras.
Todos são bem-vindos neste espaço.
Espero que gostem.
Ricardo Evandro S. Martins.
Embora não tenha terminado de ler todas as obras de Kafka, farei uma análise demonstrando o quanto esse autor é mal compreendido, o que de fato sempre é falado quando alguém tenta interpretá-lo, utilizarei três livros, os “Diários” do próprio autor; uma interpretação socialista feita por Leandro Konder; e o romance “O processo”.
Primeiro vou partir de uma afirmação de que o autor é com toda a certeza judeu. Por quê? Isso fica evidente no seu diário quando em várias partes dele o autor pensa como um judeu, em qual sentido? Em buscar as soluções da religião judaica à época. Ficando claro nesse trecho: “Deverá dizer a si mesmo que – falando sobre os leitores de uma obra sobre a história de judeus de sua época-, principalmente após o surgimento do sionismo, as possibilidades de solução estão de tal modo evidentemente agrupadas em redor do problema judaico, que afinal de contas basta o autor fazer apenas um movimento para achar a solução que dá resposta à parte do problema.”. Ora, é bastante razoável que um membro de uma dada religião esteja preocupado sobre o futuro de sua própria religião, como, por exemplo, um cristão apoiar ou desapoiar o que tem sido as conseqüências do Concílio Vaticano II. Portanto, é falso quando Leandro Konder diz em sua obra Kafka “Vida e Obra” que “Apesar de uma tremenda necessidade de crer em algo, Kafka jamais chegou a encontrar paz de espírito em qualquer fé ou em qualquer Igreja.”. Tal como ele Leandro mesmo encontrara nas suas utopias salvadoras da humanidade... Mas partimos à obra “O processo”.
No final do livro, que é o que mais ajuda a esclarecê-lo, K., o acusado, entabula uma conversa com um Sacerdote, dizendo no início sobre a disponibilidade e preocupação desse mesmo Sacerdote em relação a ele “Você é muito amável comigo... Tenho mais confiança em você do que em qualquer um dos outros tantos que já conheço...”. Veremos aonde esta tal confiança irá ser levada logo adiante.
Em uma parábola narrada por este Sacerdote ao processado "K." um homem do campo, que logo em seguir afirmarei que é um niilista ou o próprio "K.", que tenta entrar nos domínios da Lei, ou seja, no mundo jurídico, é impedido de adentrar neste mesmo local por um porteiro que é um simples operador do Direito, não diminuo essa importância, pois fazer isso, seria tomar uma atitude niilista, já vou me explicar, que como fala o Sacerdote “foi incumbido pela lei de realizar um serviço; duvidar de sua dignidade seria o mesmo que duvidar da lei.”, um pouco mais atrás o mesmo Sacerdote fala que tal serviço é “incomparavelmente mais do que viver livre do mundo”. Quem seria esse homem livre no mundo senão um livre-pensador e que por isso mesmo é niilista? Já explico. O Sacerdote tal como o Aliócha são os seres-humanos em que acreditam profundamente em alguma coisa e por isso afastando-os da falta de valores niilista, vêem as coisas claramente no sentido de que, o primeiro, de entender que o porteiro não faz mais do que executar o seu trabalho como participante do mundo jurídico, e o segundo, de ser fiel à verdade religiosa - na verdade, ambos o são, mas estas são as principais caracacterísticas deles expostas nos dois romances -. Portanto há dois pares de personagens que são o extremo oposto tanto nos “Os irmãos Karamázov” quanto no “O Processo”, quais são? O Sacerdote e o Aliócha como os não-niilistas e K. e Ivan Fiódorovitch como os que negam qualquer validade à vida, o primeiro morre como um cão “era como se a vergonha devesse sobreviver a ele” e o segundo fica louco.
E por que K. é niilista? Porque como o Sacerdote lhe falou “não é preciso considerar tudo como verdade, é preciso considerar apenas como necessário...”. O que é o necessário? Crer, apesar de todas as suas falhas, na extrema importância do mundo jurídico às nossas vidas. Como um bebezinho mimado o niilista K. refuta “A mentira se converte em ordem universal...”. Ora, o positivista é aquele que nos sonhos crê no progresso, o que certa hora acabará por tornar-se também cético, já que o progresso não é constante, e o socialista é aquele que parte do princípio que o mundo é o pior dos possíveis buscando a salvação da sua vida em um projeto utópico, o que já é, de início, a negação de viver o presente, e de encontrar possibilidades de valores vivíveis. Ambos, são niilistas. Falo tanto do positivista quanto do socialista pois são arqui-presentes desde o início da ilustração.
Lembrem-se que o niilismo é a negação de valores orientadores à vida, e a sua principal característica é o não reconhecimento de valores tanto para si quanto na vida dos outros. Com “K.” não foi diferente. Diferentemente do início no qual deposita confiança na ajuda do Sacerdote, e após este ter demonstrado a ele como as coisas funcionam, ou seja, o caráter necessário de um operador do Direito, “K.” lhe fala “mas eu não consigo me orientar sozinho no escuro”, e mais adiante “antes você foi tão amável comigo, explicou-me tudo, mas agora me despede como se eu não significasse nada para você”. Ora, isso não é atitude de um garotinho de 12 anos que requer tudo para si e não aceita que os com quem tem inimizades brinquem de futebol com ele? Antes, o Sacerdote era reconhecido como um homem bom, ou seja, até o momento em que este serviu para o consolo da mente perturbada de K., embora não tenha sido um consolo já que para “K.” só a morte funciona, porque nada para ele é válido e quer continuamente fazer os outros crerem nisso, agora, como o homem religioso era reconhecido por K.? “Você é o capelão do presídio”, somente como um trabalhador qualquer, sem nenhuma ordem hierárquica de valores, que é o niilismo. K. disse-lhe “você precisa compreender” ao que o Sacerdote responde “Você precisa primeiro compreender quem eu sou!.” O niilista K. no seu não reconhecimento da vida religiosa do Sacerdote e da necessariedade do Direito é somente aquele que não reconhece a importância dos valores superiores à vida. Pondo em miúdos, não compreender o que é um sacerdote, o que per si requer uma atitude respeitosa e o que é o Direito são atitudes niilistas.
Embora no último capítulo “K.” comece a reconhecer quão desnecessário fora ter entendido o mundo por uma lente reprovativa, como um bom niilista, em um repente de interrogações em que vira uma pessoa aparecer ex nihilo ainda com esperanças de ser salvo –o que o Sacerdote tinha tentado fazer-, não tem mais tempo, pois o pensamento nunca encontra alguma base fixa para se apoiar, logo tudo acaba sendo ruim, pois tudo é desgraça para ele, como o Kafka, não “K.” escreve “Existem objeções que tinham sido esquecidas? Sem dúvida, estas existem.”. E sempre hão de existir, senhores. Uma morte como um cão foram as últimas palavras de “K.” e Kafka escreve “Era como se a vergonha devesse sobreviver a ele”.
A palavra não vem Nunca vem Renitem em emergir em resquícios quando o acaso convém No banho No trono No sono No sonho Só vem o espanto De sentir que o vivido de cada âmago É ao papel Como o céu é para cada estrela Poesia... imitação Papel... uma prisão Que disciplina e acalenta o inominável Tentando enfeitar a precária palavra
A palavra não vem Quando vem, já não é a coisa mesma Está disfarçada Emana beleza É válida Induz alegria, melancolia, tristeza Embebeda e sublima a mente abita
A palavra não vem O papel suprime a essência O labor a lapida e a deixa enfeitada Obriga-lhe a assumir sua prudência Mas provem de lugar inexplorado Inabitado Onde nada se explica É inexplicável ... Dentro de nós
A palavra não vem É melhor não vir Às vezes também E só deixar, do vivido, o resquício advir Para que cause o espanto esquecido de alguém De quem o sorriso ou o pranto falarão por si
Antes de mais nada acredito que cumpre-me agradecer o convite que me fora enviado pelo grande amigo Ricardo Evandro que, a meu pedido, incluiu-me no rol dos colaboradores deste blog. Gostaria de deixar claro aos amigos e leitores que não esperem de mim atuações tão brilhantes quanto a dos colegas que aqui também postam. Tentarei cumprir minha parte, somando esforços aos dos companheiros no intuito de compártilhar idéias e artes que por sua natureza devem servir como instrumento de edificação do homem. Desde já, gostaria de explicitar a minha incontrolável vontade de demonstrar o quão agradecido estou em poder compartilhar este espaço com pessoas as quais eu tanto admiro. Pelo que, como ainda tenho muito a falar, mas as palavras me escapolem quando se trata de mencionar o quão preciosa é uma loja como essa, deixarei este momento com uma poesia a qual representa o meu minuto de silêncio em reverência aos homens de boa vontade que aqui comungam.
Silêncio Hoje, por algum motivo, eu acordei gritando Gritava incontrolavelmente, sem saber a que ventos gritar Gritei por minha mãe, por meu pai, por meu irmão Gritei na cara deles, mas nenhum deles me ouviu
Passado alguns minutos, entendi que o que gritava era o meu próprio silêncio Esse silêncio que as vezes me toma e o mundo deixa de ser parte de mim para se tornar alheio De vez em quando o dia amanhece barulhento, cheio de idéias, cheio de ruídos inconvenientes. É ai que rezo para que o silêncio venha Mas os dias de silêncio me sufocam, me humilham, me diminuem as idéias
Os dias de silêncio não perdoam os passos em falso Os dias de silêncio me obstruem o escrever As idéias não fluem, meu corpo padece Parece que a vida sai um pouco de mim Os dias de silêncio são tão tristes, as pessoas falam e eu não ouço
As idéias rangem ao pé do meu ouvido, mas não as compreendo Esses dias são tão terrivelmente pacatos Nos dias de barulho procuro o meu silêncio Mas nos dias de silêncio procuro o grito profundo e melancólico que move minha caneta Nos dias de barulho quero o silêncio para concatenar idéias Nos dias de silêncio procuro tudo aquilo que fale mais alto dentro de mim
E hoje, algo entre o silêncio e o barulho me bateu a porta Algo de doce, algo de firme, algo de inspiração, algo de amor, algo de tristeza, algo de saudade Algo que me permite, algo que me liberta, algo que me arranha, algo de algo Algo de verdade, algo pertinente, algo de lúcido É onde o homem pode se encontrar por completo: um momento pobremente escasso de contradição.
Acabei de ler o conto do meu amigo David que por sinal é muito bom, levando em consideração tanto a sua jovialidade, 22 anos, quanto tomando como referência os seus contos postados neste blog que não são muitos, portanto uma relativa pequena produtividade. Não fica nem um pouco atrás, em termos de profundidade psicológica, que é o que tem mais de rico nesse conto, somado a alguns parágrafos de uma grande riqueza metafórica, aos contos de uma Lygia Fagundes Telles. Sem bajulação alguma, mas esse conto é bom. Ao ler, destaquei alguns pontos que me chamaram atenção, no que tange à estrutura do conto, que serão entendidos somente por quem já o leu:
1. Falta coerência no uso da linguagem popular do personagem principal, visto que o contista conjuga por vezes os verbos em norma culta no decorrer do diálogo interior do personagem e também em seus diálogos reais com o leitor, causando incoerência na representação e delineação artística do protagonista. Nesse caso fica claro: “Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobra as quais jamais pensara. Doidera?” É difícil imaginar um personagem popular que tem como palavra comum em seu vocabulário a palavra “doidera” conjugando o verbo pensar no pretérito-mais-que-perfeito.
2. O quinto-parágrafo do conto é sem dúvida alguma o que tem mais beleza artística propriamente dito, são 9 linhas que possuem já uma precoce proximidade do autor com as palavras, produzindo-as com ricas metáforas.
3. É bem peculiar o diálogo do personagem com o leitor, pois há por vezes contatos mais ternos no sentido de o narrador como em uma conversa filosófica jogar por alto o entendimento dele ao leitor e noutras o leitor ser tomado como onisciente quando ele sabe inclusive qual é o dia que se passa o conto, sendo convocado a aceitar a priori o entender do narrador, não em assentir flexivelmente como quando o personagem pergunta ao leitor “Pudesse ser assim?” ou “Não é certo o que eu digo?"
A par desses pontos estruturais, é interessante o constante diálogo interior do personagem com a vida cotidiana e o seu constante distanciamento a ela, em um enveredamento filosófico de conhecer-se a si mesmo e com isso sabendo cada vez mais qual é o seu lugar no mundo, quiçá o seu distanciamento pleno. O personagem reconhecendo aos poucos os sofrimentos pelo quais o pai sofre que tragicamente virá a sofrer, ou melhor, no momento mesmo em que esse reconhecimento passa a se dar as dores advém como intimamente intricadas no entender das dores do pai, é seduzido pela infinita fuga de si mesmo querendo mas não podendo mover-se pois seus pés estão e são imóveis, presos na terra. Momento chave para o personagem que deve ou buscar o desbravamento do mundo desconhecido que ao fim e a cabo muito provavelmente irá consistir em um ceticismo ou acreditar, enfrentando em uma solidão resignada, no profundo e verdadeiro ensinamento de seu pai quando lhe fala: "a mentira tem pernas bonitas, meu filho."
"a perfeita união da natureza do leão com a sua dominação cheia de mensidão para com a essência oposta de sua leoa, que ama por amar, embora ame o tolo, mas que não o é em usar de sua juba protetora, sendo tal que é o reconhecimento profundo da beleza de sua oposta e congruente natureza, elevando-a para elevar-se, glorificando-ses."
Naqueles tempos, éramos eu e o Pai. Na verdade, também tinha a Malhada, mas não sei se ela conta não. O que me diz o senhor? Pelo menos, devesse contar. Para nós, o senhor sabe, ela era assim, quase que um membro da família. E por falar em família, tenho que lhe dizer. O Pai teimava comigo que éramos uma família como outra qualquer. Mas hoje, sinceramente, tenho para mim que ele me dizia essas coisas só mesmo para me alegrar. Afinal, não era todo mundo que concordasse que uma família assim sem mãe fosse uma família normal.O dia em que ela foi-se embora, eu nem me lembro mais.
Nunca tive a esperança de que ela voltasse, apesar de o ter pressentido uma vez, deitado na janela. Nesse dia, meus olhos corriam longe que só o senhor visse. Mas tudo não passou de ilusão. Também nunca pedi ao Pai me falasse daquela mulher, como, por vezes, ele a chamava. Ela voltando, era mais um motivo para que eu me quedasse ali, quando sabia que existia todo um mundão aí afora. Mas o Pai, apesar de sempre me dizer que não gostava de tocar no assunto, acabava terminando por falar “naquele nome”, com todas as tristezas que ele sempre trazia. E então me punha a ouvir, mais uma vez, aquela história de amor que tinha um final triste, como, aliás, eram todas as histórias de amor para o Pai. “A mentira tem pernas bonitas, meu filho”, repetia. E então, suspirava e fazia um longo silêncio. “Mas sua mãe era uma boa pessoa. Não quero que penses mal dela”. Ele dizia assim, com a mão encostada no queixo.
Naqueles tempos, para falar a verdade, nem sabia se eu era triste ou feliz. Ia vivendo. Ia correndo e crescendo por aquelas bandas, meio solto, meio preso, respirando e torcendo, me ralando por vezes, ao final, levantando sempre. Às vezes, sentia que algo me prendia ali naquela terra, e não era por causa do barro alaranjado que se pregava liguento sob os meus pés descalços. Era uma sensação de não saber se podia, se realmente podia com tudo aquilo que existia para além dos meus olhos. Será que fora dali se andava diferente, se respirava de modo diferente? Vai ver era bobagem da minha cabeça. Mas, bem lá no fundo, era um pensamento que sempre vinha me visitar, com aqueles seus passamentos na barriga ou aquela vontadezinha de ficar só comigo. Acho que nem não era tão triste assim. Se entristecer assim do nada é bobagem, não é mesmo? Vai era só cansaço, que vinha do nada e do nada se ia, como se nunca houvesse chegado. Na verdade, eu acho que naqueles tempos eu cansava mesmo era de solidão. Não é certo o que eu digo?
Devia de ser por aí. Acho que na vida não nascemos tristes nem felizes, tudo é uma questão de pertencimento, sentir-se parte, o senhor sabe? Pertencer assim a pessoas, lugares ou mesmo àquelas paisagens, que de tão lindas prendem nossos olhos como se quisessem até namorar com a gente. Naquela solidão, cheguei até mesmo a dar para inventar meu próprio mundo, a brincar de ser rei e correr terra, sendo de tudo um pouco, a cada segundo. Nessa história já fui pássaro, herói e até vilão. Mas, nestes enredos, o melhor de tudo era se apaixonar. Ah, como era bom. Amor de mulher bonita, formosa, meio tímida e maliciosa, com cheiro de flor e beijo de tarde preguiçosa. Vai ver toda solidão é uma espécie de loucura. E a minha, longe de me libertar, me prendia mais e mais àquela terra.
E no auge da minha inocente loucura, passei a conversar e convidar as casas do vilarejo a visitarem meu mundo, misturando dentro de mim seus formatos e suas cores, imaginando os sons do vento batendo nos telhados e fantasiando o tempo e as histórias que elas carregavam consigo ao longo daqueles anos. Acho que o que me impressionava nelas é que quando tudo passava, quando todos morriam ou iam-se embora, elas ainda estavam lá, vivinhas e firmes como pedra, prontas para contar todas as histórias.Histórias dos nascimentos, namoros e conquistas daquelas pessoas que, perto delas, passavam tão rápido como uma brisa de tarde. Será que quando nem eu nem o Pai fôssemos, elas ainda estariam lá para contar a história de nossas saudades? O senhor deve saber melhor do que eu.
Mas das casas, na verdade, só não gostava era da minha mesmo. As casas nossas assim, vistas de dentro, parecem como que devoradoras de gente. A minha então, era um nozinho na garganta. Foi o que acabei por comprovar no dia da chuva. Eu estava ali, mal acabara de chegar, trazendo os panos e a serragem que o Pai havia pedido, quando começou o aguaceiro. Com ele, a tempestade foi trazendo também todos aqueles barulhos e fraquezas de sempre. E eu, naquele instante, olhando pela janela, era como se cada gota que caísse fosse parar bem dentro de mim, como se o peito meu fosse feito daquela mesma terra molhada que a agora a chuva encharcava. E ela ia entrando, se acomodando pelas frestas e goteiras, pingando sobre minha cabeça, jorrando diante dos meus olhos, ficando também dentro de mim. Aquela água parecia que me revirava por dentro, fazendo-me questionar coisas sobre as quais jamais pensara. Doideira? Tentava tirar de mim esses pensamentos, fechava os olhos, tentava me concentrar em alguma coisa. Quisera eu, naqueles tempos, que os pensamentos também se fechassem junto com os olhos. Será que todas as crianças sentiam coisas assim? Era o que eu me perguntava naqueles tempos, quando o meu pequeno corpo já não cabia mais em si de alguma coisa, alguma coisa que, quando eu ia pensar o que era, se desmanchava diante dos meus olhos, ou que, quando vinha ao pensamento, já distanciava vagamente do sentir. Hoje, quando tento olhar para trás e pensar nisso tudo, falta-me mesmo uma imagem que dê vazão a qualquer palavra. Careço de entender essas coisas. Na verdade, o senhor sabe, olhar para trás é quase sempre como inventar algo, imprimir uma intenção ao passado, buscando qualquer coisa que dê sentido aos anos idos. No final das contas, acho que o melhor mesmo da infância são só as lembranças que inventamos, os contos de fadas que sobram no mar do indizível.
O fato é que, no meio da chuvarada toda, o Pai estava ali, costurando alguma coisa que só Deus sabia para que servisse. E, enquanto mais ele trabalhava, mais se punha a falar, falar e falar. Era quando eu virava para a malhada, tentando imaginar como ela via o mundo nosso. Nessas horas, chegava até pensar que a Malhada era gente, gente mesmo, daquelas que entendem das coisas, no sabendo - não sabendo. Eu tinha isso para mim acho que era por causa daqueles olhares vagos, daqueles momentos em que ela se levantava e ficava olhando para o Pai, com aquela terna melancolia, como se no arregalar daqueles olhos, ela afagasse ou lambesse os sofrimentos do velho. Nessas horas, a Malhada mais parecia um anjo, daqueles que olham assim para os pecadinhos humanos sem julgá-los por seus erros e talvez até mesmo felizes pela fé que os anima. Era assim que eu a via naqueles tempos. Mas por dever de prudência ou medo da loucura, tentava desver. Corria, então, para ouvir o pai, que depois de tanto palavrório, parecia que se arrependesse do que dizia. “Vá dormir meu filho, vá dormir”. E era o que eu fazia. E foi o que eu fiz naquela noite.
De manhã, como é do vosso conhecimento, era Sábado de Aleluia. O pai me acordou o Sol mal estava nascendo. Dei um pulo na cama e, mal-humorado, fui atrás do velho. Ao apressar dele, corri ao encontro daquele homem, meu Pai, meu irmão das Almas. “Pronto para a malhação de Judas?”, perguntou. Eu não sabia o que respondesse. Na dúvida, continuei andando. Caminhamos alguns quilômetros até a cidade, onde ia ter parte a tal da malhação. Meus pés já estavam quase que rachando naquele sol quente. No andar, o pai ia quieto, mas seu cenho franzido parecia transbordar de dizeres. No caminhar ao lado daquele homem, sentia que aos poucos eu, que ainda era menino, ia como criando também passos de homem. Tentava imitar seu andar, seu falar e as coisas que ele dizia, mas pensava comigo que Deus me livrasse de sofrer tanto assim na vida. Queria ser filho dele em tudo, mas não por parte de sofrimento. Por alguns mistérios dessa nossa travessia, dizem que o sangue passa mesmo de uma só vez e eu, mesmo sem perceber, já começava a sofrer também. Sentia que alguém tinha derramado o coração do Pai todinho dentro do meu e que ambos tínhamos nascido para aqueles sofrimentos. Pudesse ser assim?
Quando dei por mim, o pai resolveu parar. E ficou ali, com aquela boca aberta e o olhar distante, perdidinho naquela imensidão de terra seca, quase que se misturando com a paisagem toda. Então, como se não existisse mais nada no mundo, ele começou a observar atentamente o tal do Judas que trazia consigo, com uma cara assim, daquelas que alguém faz quando pensa alguma engenhosidade. De repente, tirou a camisa velha que trazia e vestiu no boneco. Depois, observou a cena por mais alguns segundos. Respirou profundamente. Resolveu botar também o chapéu. Ao final, contemplou o que tinha feito e viu que era bom. O Judas, agora, era todinho o Pai, só faltava mesmo era o sopro daqueles olhos distantes, talvez o entristecer ao fim do dia. Por que fizesse aquilo? Não carecia de perguntar, ele mesmo respondeu. “Pra deixar de ser besta, meu filho. Pra deixar de ser besta de sair da nossa terra e vir pra este lugar, onde só Deus, só Deus é por nós.” A verdade é que, na vida minha, aquela era a única terra que eu conhecia, mas, por algum motivo, quem sabe por ser filho do Pai, ou quem sabe por não ser filho de quem quer que seja, sentia que aquele lugar também não me pertencesse. Talvez de mim mesmo, meu senhor, fosse só a travessia.
Como era de ser, o Judas foi levado à Malhação, com os pertences do Pai e tudo. Quando retornamos à casa, o velho parecia cansado, não sei de andança ou de solidão. Como de costume, sentou-se na cadeira de sempre e começou a olhar para o fundo de um copo vazio. No olhar, a Malhada o velava sem cessar, como fazia todos os dias à sua chegada. Tudo do mesmo jeito, tudo como havia de ser. Como se não houvesse mais o que fazer, respirei fundo e fui ter à janela. Debrucei-me sobre o parapeito e me pus a contemplar a paisagem que cabia naquela moldura. Não demorou para que meus olhos começassem a vaguear. Através daquela janela, tudo parecia distante. Ao mesmo tempo, era como se todo o mundo coubesse ali. Mas já não me contentava em ver o mundo daquele jeito. Eu queria tocá-lo, sentir seu cheiro, sentir meu pé roçando em outros campos e terras. Era quando no meio desses devaneios, eu lembrava do Pai. O que seria dele quando eu não estivesse mais ali?
Mas não. Eu bem sabia. Não era o Pai quem me impedia de partir. Dele, de alguma forma, eu já havia partido faz tempo. Era aquele incontável, aquele indizível, aquele nó na garganta que me arrebatou no dia da chuva e me espremeu contra meu mundo que agora me devorava pela simples possibilidade de partir. Será que tudo ia continuar assim para sempre e nada mais iria acontecer? O que poderia me prender agora? Será que era aquela casa, o Judas ou Pai? Só sabia que precisava partir e partir logo. Mas meus pés não se moviam. Não é mesmo a terra o que prende os nossos pés. Olhando pela janela, me deu vontade de chorar. E era como se todo o mundo coubesse ali. O senhor sabe? Era preciso correr terra.
Cai os olhos, cai a noite, Cai as estrelas, cai um olhar Dois jambos maduros, cai de amor, De chorar, uma gota d’água de luz, Um beijo incandescente do céu Cai a vida e a morte E um adeus...
Cai meu rosto como um verso triste, Cai as horas se perguntando horas Cai as rosas, pois não são mais rosas ---
Tenho tudo a ti dizer, mas não há nada a ti dizer. Ti dizer que me inundei em tanto mar de amor quando – navegando ao léu – te avistei numa manhã, te afogará de susto certamente. Do amor desmedido e impossível que molhou minha alma, só a minha solidão sabe que no peito cabe. Mas teu amor, mulher do balcão, carece de bem mais que olhar contemplador de um homem Platão. Mesmo assim ousarei te perguntar: que queres? Do teu querer, mulher do balcão, só tua infinita profundeza sabe. Mas dos teus olhos algo ínfimo escapa: teu querer é amar. Anseias a-mar um marinheiro exausto por ti e que seja só teu. Isso, meus olhos d’água desvãos conseguem beber nos teus, mesmo sem tua permissão. Só quero que saibas que um dia um pequeno marujo contemplador de horizontes passou diante dos teus olhos e sonhou de perto um horizonte distante ao te avistar. Sonhei divagando, por um doce momento naquela manhã, descer aqueles degraus com os dedos entrelaçados aos teus e sair à luz da manhã de mãos dadas a tua delicada mãozinha branca de unhas lilás, pronto para velejar todos os teus sonhos de amor. Platão é perfeição. Perfeição, minha fantasia. Fantasia é loucura (diante do real). Loucura é confessar-se a ninguém. A loucura e a madrugada autorizaram-me te dizer, ninguém, que cada um dos teus gestos foi naquela manhã, ao meu coração encharcado de amor-contemplação, o mais observado, o mais belo. Mas, na vida, hás mesmo de ter um marinheiro melhor – concreto – apto a navegar ao teu lado nas árduas águas do mundo real. Por um insano instante, quis louca e imensamente teu corpo e tua alma possuir, com toda minha delicadeza e firmeza de homem. Quis teu grande marinheiro ser. Querer ainda quero, mas o tempo, o dia, a rotina, a vida, o mundo real, apartaram levemente a loucura de mim. Aproximaram a bendita-maldita sanidade. E esta diz em meu ouvido em segredo: “poeta, te declara ao papel. Ele aceita teus desvarios, ela não, é real”. Obedeci à sanidade. Eis o papel de confissões desvairadas. Mas também à desobedeci, pois a loucura, ao outro ouvido do poeta insistiu: “Entrega o papel a ela!”.