quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Tua cor marrom

Estupefato em necessidade

Assim me acho

Perdendo-me em ti

Nas tuas falanges de alegrias

Nas tuas guerras de lagrimas


O alibe do teu sofrimento

Por vezes é meus olhos mansos

Em calmaria profunda

Contemplando-te em indecisão


Ah, meu bem,

Essa tua cor marrom

Esse teu corpo febril

São as marcas da tua humanidade

Daquela que mesmo em fúria não perdes


Tens a peçonha do ser humano

Sem perder a santidade da carne


És o pão que nunca me pode faltar

O resto de homem que ainda possuo


O branco dos teus olhos

Escondido atrás do teu negro olhar

São a hipnose do meu observar


E assim sigo a vida

Em ti

Em mim

No mundo


No mundo cruel e perfeito que vivemos

Na vida mansa e infinita que fazemos

No amor imperfeito que forjamos

E banhado no pecado dos corpos.

domingo, 14 de agosto de 2011

A menina e o espelho

 
Moça à Janela - Salvador Dalí

Quando a vi, ela estava ali, parada, em frente ao espelho. Ficava assim, mirando-se eternamente, sem admirar o que via, procurando algo sem saber o que queria. Esfregava as mãos contra a própria face, desistia. Seu próprio rosto era, naquele momento, um absurdo em forma de rosto. Novas rugas, peso, marcas, estava disforme, desconforme o traço que moldava para si mesma sob o peso pungente de sua dor. A menina olhava o espelho e não se via. Ou, quem sabe, encontrava algo indizível, que não queria admitir para si mesma, uma imagem translúcida, que num sem-tempo, tornava-se assustadoramente verdadeira.
Quantos anos ela tinha? 60, 50, 20? Que importava? O tempo passava para todas elas, para todas as mulheres que moravam e habitavam dentro da menina que agora cultuava o espelho, como quem alimenta um monstro insaciável. Sustentava-se com as duas mãos sobre a pia, concentrando-se em algo que o reflexo deixava sempre escapar. Vez por outra, soprava suas mechas, como quem quisesse dizer estupefata: “não, não está nada bom”, era sua forma de dizer que estava cansada. E então se virava de lado contando gorduras e apalpando os seios, na tentativa de quem sabe levantá-los um pouco mais. Tempo, gravidade, saco, bucho, tudo a puxava para baixo, era a melancolia do indizível, sobre a qual nem mesmo o luto ousava repousar. Ficava assim mesmo, ferida aberta, peito aberto, aberto o tempo que ao contrário dos pensamentos que iam e vinham, apenas se ia, cada vez para mais longe, levando consigo o resto de familiaridade que a menina encontrava diante de si enquanto alimentava o monstro do espelho.
Ela sentia um peso gigante derramar sobre si. Uma represa rompendo, água caindo, dedos se movendo, olhos se movendo, algo se movendo impunemente, como que em sua direção. Seus olhos duros não deixavam que escorressem as lágrimas. Eram duas pedras que não se permitiam furar, deixando vazar apenas a dor que carregava, uma dorzinha seca, a dor de não sentir que seu próprio corpo, mesmo quando estava completamente a sós com ele, era realmente seu. Não se podia dizer que era por causa de minha presença. Na verdade, ela jamais me notara. Mas eu, mesmo assim, ficava ali, por horas e horas, contando seus suspiros e ares de pesar, como quem acompanha os passos da amada pela noite, e vela pelo sono respirando cada um dos sonhos que ela tinha para contar. Quisera eu dar-lhe ao menos um beijo, a conduzir na noite e mostrar-lhe o quanto ela era bela e o mundo somente uma ilusão. Mas o espelho era ainda mais forte, ele sempre me vencia, o espelho a massacrava e não havia nada que eu pudesse fazer. Ela então culpava sua sina e eu pensava que a menina que eu tanto amava não queria mais viver. Ela queria ver derramar o sangue, seu corpo parado, o sangue correndo, o movimento esplêndido da vida que se esgota passo por passo, gota por gota. Se ao menos eu pudesse tocá-la! Mas ela queria ver a vida esvair-se, da mesma forma que via as folhas mortas caindo lentamente do lado de fora de sua janela. Morreu de tão bela, gravaria eu seu epitáfio, roçando o gosto da terra, procurando sua vida. Mas beleza era uma palavra maldita agora, uma invenção que vinha de fora e não a deixava mais dormir.
De onde viram esses olhos sobre o corpo? Essa pressão irresistível? Essa cobrança que fazia sobre si mesma, sabendo que não a desejava e que jamais iria cumprir? Ela agora tentava esconder o corpo com braços e mãos, tapando o ventre, o sexo, ocultando-os do mundo que cobrava, segundo ela mesma dizia, um corpo que não era o seu. Enrolou-se na toalha lentamente, como quem se enrola numa casca de fruta madura. Tentava sentir seu próprio cheiro. Lembrava-se então das outras mulheres, mais magras, mais belas e atrevidas e pensava por que raios não poderia ser como elas. Então achava rugas, marcas, toiços, tudo, traços borrados de seu retrato, pintado por um artista sonso que fora embora, sem jamais concluir seu trabalho.
Ela sabia que queria ser só dela, ter um tempo consigo mesma, fugir para um país distante ou quem sabe arranjar alguém que não ligasse para tais coisas. Mas será que ela mesma sabia quem realmente era? Por que não podia ser como sonhara? Queria romper com o mundo. Queria o mundo só para ela. Queria se reconciliar com o mundo. Amava e odiava a um só tempo, turbilhão alado, anjo caído. Bruxa! Era uma bruxa. Dobrava a cabeça baixando o os olhos e, logo, logo era uma criança pedindo colo! Fazia poses e rebolava na frente do espelho, passava a língua levemente pelos lábios, agora, ela era gostosa. Um segundo depois, desistia de tudo, bagunçava os cabelos e jogava-se no chão do banheiro. Já não era mais nada, era apenas a sensação do frio do granito pairando sobre o ar. Era rosto contra o chão, martelo contra a cabeça, pensamentos que voavam tentando se libertar. “Sensações não têm corpo, penetram na alma das mulheres e reinam soberanas sobre a razão que se encolhe tímida num canto diante da força do sentimento bruto”. Como ela queria usar mais a razão às vezes! E quando pensava nessas coisas, batia uma certeza, queria ser suas próprias sensações. Sentimento sem corpo, força sem culpa, leveza forte sobre a alma alheia. Sua raiva, sua inveja, sua ira, seu gozo interrompido, sua marca de batom. Suas lágrimas... Onde estariam elas agora? E, de repente, aí estavam elas. Punha-se a chorar.
Ouvia-se um barulho vindo lá de fora. Tanto pior, o mundo lá fora era a vida que passava, o tempo que batia com força, martelando em sua cabeça, fazendo aparecer mais marcas sobre o corpo estranho, fazendo com que ela mesma se marcasse ainda mais, a ferro, fogo, brasa ou com suas próprias unhas, num rompante violento de quem tenta livrar-se definitivamente de um corpo que não lhe pertence mais. Pobre menina! Sua janela era como um véu que jamais tirava, através do qual e somente do qual ela observava o mundo de fora, numa penumbra sempre acinzentada. Por um segundo, ela pensava em acabar com tudo! Mas não. Havia uma pulsão estranha que a puxava para a vida, vida-sobre-morte, uma distância indizível, um eterno flertar com o abismo. Entregava seu corpo mais uma vez, produzia-se, dançava, transava, eventualmente, gozava, senão fingia, mas não queria mais fingir. Ouvia um barulho, um barulho diferente, algo acontecia, e então moveu seus olhos de pedra do espelho à janela, para assim poder conferir através do véu o que acontecia.
Uma multidão passava agora em sua rua. Em sua maioria, eram mulheres que cantavam e marchavam, descompassadamente, num misto de raiva e alegria, paz e violência com traços divinos, uma linguagem que ela, folha morta, traduzia apenas como vida. Ela via vida. Lenços laranjados, bandeiras cor-lilás, tambores que rufavam, mãos que aplaudiam.  A folha amarelada que já se ia caindo, parou sobre o ar, parou para ver a vida. Gostou. Queria viver também. Aquelas mulheres protestavam contra tudo, para umas era a violência, para outras o preconceito e havia ainda aquelas que nem se sentiam tão oprimidas assim, mas só vinham por causa da cerveja. A menina sorriu e, por um instante, achou que talvez ela e o tempo, que tantas vezes se cruzaram e se bateram, podiam afinal ser amigos. Sentia ali, que, de alguma forma, também fazia parte desse tempo.
Uma energia até então desconhecida, tomou de assalto o seu peito. Era um desejo que não tinha nome, uma força indomável, que lhe percorria o corpo e fazia-lhe tremer os lábios. Quem um dia já sentiu esse desejo, essa força, de modo tão forte e irresistível, não pode jamais comunicá-lo, mas transpira-o por todos os poros. Assim ficou a menina. Ela respirou lentamente, tomou fôlego e foi se arrumar. Pouco tempo depois, displicentemente, desceu apressada e se juntou à multidão. No meio do caminho, notou que muitas carregavam faixas, com dizeres e protestos, e quis dizer algo também. Ela que não entendia nada de movimentos e odiava política, de repente, sabia que, sim, tinha algo a dizer. Não sabia nem se era importante, talvez até rissem dela. Que rissem! Agora era fera selvagem, potente, indomável. Seria alegria fugaz de carnaval, catarse, utopia, o começo de uma nova vida ou simples explosão que terminaria, como tantas vezes, na depressão do dia seguinte? Ela não sabia dizer. A menina gritava, chorava e xingava os carros que passavam. Entre mensagens militantes, frases fortes e rompantes, ela também carregava um pequeno cartaz que acabara de confeccionar, ela mesma, pelas próprias mãos. O que ela queria dizer com aquilo, eu não fazia a menor idéia. “Espera menina!”, gritava eu. Mas estava ficando para trás. Ver a menina naquele alvoroço era como vê-la em uma plataforma de estação, pegando um trem que eu sabia bem nunca mais voltar. Já dizia alguém que o mesmo trem da chegada é o trem da partida. Aquele partia, sem nada me trazer de volta. Depois de tantos anos via, enfim, a menina partir de mim. As palavras que ela carregava em seu cartaz, eram como que palavras de adeus, não havia mais espaço para mim na vida dela. Não sabia dizer o que sentia. Não estava feliz, nem triste, talvez ternamente desconcertado. Mas ao ler aquele cartaz, senti que penetrei como nunca naquele pequeno e apertado coração, coração que perseguira por todos estes anos, sem nunca achar vestígio. Em meio à Multidão, ele finalmente veio à tona, como se fosse esculpido com o martelo da luta, ou revelado com a ternura de um grito. Jamais saberei o que dizer, a não ser que, naquele momento, cheguei a tocar a sua alma. A força daquelas palavras me dizia, com a resignação de um Carlitos Vagabundo, que eu não tivesse medo e então essa mesma força tomava minhas mãos em pantomima e me conduzia tirando-me os pés desbotados do chão. Ela me levava lentamente à alma selvagem que agora surgia como a lótus da lama de tristeza, que por todos esses anos a menina remoía dentro de si. Seria o adubo da vida que se faz cortejando a própria morte? O pequeno cartaz, pintado em tinta verde e rosa, já se escorrendo, dizia apenas assim: “deixe-me envelhecer em paz”. 


David Carneiro, Agosto de 2011

domingo, 7 de agosto de 2011

Comigo

Parecer comigo é insuportável

Mas é assim mesmo: inegável

Que a dor em mim

Seja a dor nos outros

terça-feira, 12 de julho de 2011

Humilhados e Ofendidos: A lei e a justiça em Dostoiévski e Derrida

          

            O personagem escritor do romance de Dostoiévski, sempre preferiu pensar em suas obras e sonhar como as escreveria do que escrevê-las de fato. Parece que entre a imaginação e a linguagem sempre há um abismo intransponível. A mesma coisa parece ocorrer no momento em que escrevo. Fechar a leitura de Humilhados e Ofendidos sob a perspectiva e a presença do da lei e da justiça na obra é reduzir infinitamente seu escopo. E, no entanto, ainda que sob o efeito de um sinuoso deslocamento, o tema da justiça parece transpirar no decorrer das páginas da obra. Aliás, talvez a justiça só seja mesmo possível sob a eterna tentativa de captura dos deslocamentos sob os quais sua possibilidade vez  por outra emerge diante de nós.
            Vânia, escritor pobre e fracassado, vivendo problemas amorosos e financeiros, não lembra a cisão profunda da alma encontrada em um Ivan Karamazov (Irmãos Karamazov) ou num Raskólnikov (Crime e Castigo), tampouco a vocação quixotesca do Príncipe Mítchkin (O Idiota) ou a beatitude de um Aliocha (Irmãos Karamazov). Longe de representar a profundidade psicológica que marcaram os personagens do autor em sua maturidade, Vânia revela sua personalidade aos poucos, do mal-estar do escritor que não cabe mais em si à expressão humana do encontro místico com o Outro. Aliás, mesmo advertindo não ser místico, Vânia sabia que o que aconteceria dali pra frente seria mesmo “extraordinário”. Talvez seja justamente o desabrochar modesto do personagem durante a obra que realce a simplicidade que contém o sentido místico de seus atos. “Nada há que já não esteja revelado”.           
            Já de início, o herói depara-se com a cena de um velho e seu cachorro, ambos maltrapilhos e moribundos, sendo hostilizados em uma confeitaria onde haviam entrado para se aquecerem. Não demorará muito, após a morte do velho, para que o escritor conheça Elena, a neta do falecido, entregue à própria sorte e sujeita a todo o tipo de humilhações depois que sua mãe fora rejeitada pela família. Aos poucos, Vânia torna-se protetor da menina.
            Vânia também vê a antiga família na qual fora criado, dissolver-se em meio a privações, intrigas e paixões. Sua amada Natacha apaixona-se perdidamente por Aliocha, o mimado e ingênuo filho do Príncipe Valkóvski, este último responsável pela ruína da família de Natacha. Contrário à união do filho com a herdeira de seu inimigo, uma moça pobre e sem posses, o Príncipe faz tudo para humilhá-la, até separar Aliocha definitivamente dela.
            O Príncipe, na obra, acaba emergindo como o antagonista dos humilhados e ofendidos de Vânia. Com o intento de gozar infinitamente de seus prazeres e da riqueza, o Príncipe não mede escrúpulos ao passar por cima de toda e qualquer pessoa, mesmo que isto signifique arrasar cruelmente com suas vidas. Ainda resquício de um certo maniqueísmo de Dostoiévski em sua primeira fase, o Príncipe Valkóvski não deixa de ser um personagem interessante. E é através dele que a questão da lei vai penetrar na obra. Esta é sempre invocada como a força que pode insurgir-se para fazer valer a convenção, ainda que sua injustiça seja patente a qualquer sensibilidade humana:


“Ela tem de me agradecer só por eu não ter agido contra ela como se deve, pela lei. Saiba, meu poeta, que as leis protegem a tranqüilidade da família; elas garantem a obediência do filho ao pai e aqueles que desviam os filhos das obrigações sagradas aos pais não são incentivados pelas leis”.


            Natacha desafiou a tradição de sua sociedade, sua família e a própria lei para viver sua paixão por Aliocha, paixão, que ela sabia desde o início, poder levá-la à ruína. Privada de todo e qualquer recurso financeiro e de influência junto às instituições, temia ser esmagada pelo poder do Príncipe, que, mesmo sinalizando com movimentos de paz, não demorou a revelar seus verdadeiros intentos:


“E não sabe que deveria me ser agradecida: já há muito tempo que eu poderia colocá-la numa casa de correção, sendo pai do jovem o qual a senhora estava corrompendo...”.


            O discurso onipotente do Príncipe calcado em suas posses e influências recorre ainda, mais uma vez, à força da lei. Uma força marcial, pronta para ser direcionada contra os humilhados e ofendidos, pelo recurso à tradição não refletida, que acaba por travestir-se em recurso instrumental nas mãos do inescrupuloso Príncipe. Seria este o caráter próprio da lei? Pelo menos, pode-se dizer que ela sempre aparece desassociada de um senso de justiça que a sua própria legitimidade deveria promover. Maslobóiev, rábula amigo de Vânia, explicou a este, por exemplo, que faltou apenas um bom advogado para que o pai de Natacha vencesse uma demanda judicial contra o Príncipe, demanda na qual, a boa razão demonstrava que a boa fé do velho era patente.  Na letra fria e obscura da lei, distante daqueles que clamam por justiça, vale mais o conhecimento dos procedimentos e o uso da influência, que se sobrepõe a todo o clamor humano contra a privação dos bens e da dignidade mais essencial ao ser humano.
            Talvez uma análise mais pobre ou apressada, buscasse vincular a idéia de lei no pensamento de Dostoiévski a uma eterna identificação com a lei do mais forte ou dos “poderosos”, como se esta fosse apenas o recurso externo de um poder coeso, pronto para ser mobilizado com o intento de manter sua auto-reprodução. Este tipo de análise ainda que não seja, em certas condições históricas e sociais, totalmente destituído de sentido parece pecar pela generalização e por não considerar que o que pode estar em jogo é uma relação bem mais complexa. Ao identificarmos a lei, esta lei, com a lei dos poderosos ou de uma classe em particular, surge-nos, inevitavelmente, em oposição a figura de uma outra lei, ou sua abolição completa, por meio de uma “justiça revolucionária”. Se seguirmos, no entanto, os passos do autor e sua obra, sabemos ser este um caminho improvável para Dostoiévski, crítico implacável dos movimentos ditos revolucionários no século XIX.
            Uma outra hipótese precisa ser testada. A justiça aqui, ou simplesmente o apelo a ela, parece insistir que sua aparição possa se dar por outros caminhos que não o da engenharia social reformulada. Pode-se adiantar, no entanto, e talvez com certo grau de obviedade, que o direito não se confunde com a justiça. Na interpretação do místico Berdiaeff acerca da Lenda do Grande Inquisidor (Irmãos Karamazov) é justamente a engenharia social de qualquer tipo que Dostoiévski parece negar com todas as suas forças. “O socialismo é o papismo secularizado”, já diria o místico russo, rejeitando de uma só vez o exercício do poder temporal da Igreja e as novas doutrinas sociais, ambas representantes, segundo ele, da negação da liberdade contida no exemplo do Cristo diante da figura do Grande Inquisidor. Na dialética do espírito de Dostoiévski, como lida por Berdiaeff, é impossível ser livre e feliz ao mesmo tempo. A felicidade seria a forma racional de organizar a sociedade, o “eudemonismo social”, a própria lei, seja conservadora ou revolucionária, enquanto a justiça, o movimento do espírito rumo a liberdade, seria somente possível em face ao rosto do Cristo.
            Vânia sentia um desconforto profundo com a cidade grande, sua hipocrisia e suas desigualdades. Mas não parecia insurgir-se de modo algum contra a “ordem estabelecida” de modo a identificar as opressões ali vividas a algum tipo de ordem em particular. Por vezes, pode-se dizer até que coadunava com as tradições do seu tempo, como na aceitação de sua impossibilidade de casar-se com Natasha por falta de dote ou contra as vicissitudes comerciais de seu editor, pobre homem que em sua opinião estava apenas cumprindo o seu papel na sociedade. Porém, há algo que intriga em Vânia. De seus atos surgem uma infinita compaixão, que não se dirige à sociedade, mas não hesita em insurgir-se contra ela, não em nome de um sistema social, mas em nome de uma compaixão infinita que conduz inexoravelmente ao Outro.
            Não estaria aqui presente a possibilidade da justiça levantada por Jacques Derrida em seu “Força de Lei”? Derrida também nega, contrariando certos autores das “escolas críticas do direito”, uma definição da lei necessariamente como poder exterior mobilizável por uma classe, mas defende que o momento instituidor e justificador do direito contém em si mesmo uma violência performativa que não é justa e nem injusta por si mesma, que se mantém e se institui por uma boa dose de crença. Se o direito sustenta-se então por um tipo de crença e não por ser justo, onde estaria então a justiça?
            Para Derrida, a justiça é uma aporia. A justiça é uma vontade,  a justiça é um apelo à justiça. O problema surge porque o direito é um elemento de cálculo. Para Derrida, é inclusive justo que haja um direito, mas a justiça é algo em si mesmo incalculável. A decisão entre o justo e o injusto nunca é garantida por uma regra. Para que se garanta a justiça, é preciso que se olhe para as singularidades, grupos e indivíduos que em suas próprias existências são insubstituíveis. Neste raciocínio, a justiça já não se garante por leis universais, mais aqui e agora, no presente concreto, diante da injustiça concreta. Para fazer valer suas reflexões, o autor defende ainda sua ferramenta desconstrucionista, que, para ele, longe de representar um niilismo como querem alguns de seus críticos, recorre a uma responsabilidade sem limites diante da história memória e da história da justiça, denunciando seus limites teóricos e injustiças concretas, recorrendo ainda à própria responsabilidade e justeza de nossos atos frente a justiça.
            Conforme avança em seu raciocínio, Derrida aproxima-se da noção de justiça presente na obra do filósofo judaico Levinas. Para este, “a justiça é a “direiteza da acolhida feita ao rosto”. A base da justiça não é mais “o conceito de homem”, mas o de outrem: “a extensão do direito de outrem” é a de “um direito praticamente infinito”. A equidade não é mais igualdade, proporcionalidade calculada, mas a dessimetria absoluta. A justiça, como experiência da alteridade absoluta, é inapresentável, mas é a chance do acontecimento e a condição da história.
            Neste momento, a reflexão trazida por Derrida aproxima-se inesperadamente de Dostoiévski. Há um apelo concreto e infinito a um sentimento que se opõe a lei, mas que em certos momentos demonstra-se tão óbvio e poderoso que já não se pode duvidar de sua força e verdade. Este sentimento não pode ser deduzido de leis ou princípios universais, mas é encontrado na compaixão profunda que se dirige ao Outro. Estariam aqui Derrida, Levinas e Dostoiévski unidos pelo cordão umbilical que os liga aos primórdios da tradição judaico-cristã? O que mais ela poderia nos ensinar em termos de justiça? A lógica dessa compaixão, ou seu caráter ilógico frente as convenções estabelecidas, emerge curiosamente no austero e impiedoso pai de Natacha, ao perdoar e acolher a filha de volta à casa, com o perdão infinito de quem acolhe o pródigo. Aqui, não por acaso, o discurso é dirigido diretamente a Deus:


“Oh, agradeço-te, Deus, por tudo, pela tua ira e pela tua graça! Pelo teu sol, que brilhou agora, depois da tempestade, sobre nós! Por todo este instante, eu agradeço! E que sejamos humilhados, que sejamos ofendidos, mas estamos todos juntos novamente, e que triunfem agora esses altivos e arrogantes que tinham nos ofendido e humilhado...Não tenha medo Natacha....Nós iremos de mãos dadas e eu lhes direi está é a minha filha querida, minha filha amada, minha filha inocente que vocês humilharam e ofenderam, mas que eu amo e abençôo eternamente!”


            A força fenomenológica deste tipo da expressão da justiça é poderosa demais para ser botada em questão. Resta saber quando realmente estamos diante dela e não apenas agimos em seu nome. É preciso investigar sua origem, seus rastros, descontinuidades e contradições ao longo da história. Aliás, resta-nos ainda perguntar como a noção de justiça, como aqui posta, pode se articular com o direito necessário. Não haveria justiça nos próprios sistemas sociais ou, pelo menos, uns que permitam mais a promoção da justiça do que outros? Ou seria esta simplesmente uma forma equivocada de colocar a questão? Reflexões como estas parecem durar uma vida toda. O fato é que sempre teremos Humilhados e Ofendidos em nosso caminho, clamando por uma justiça que deve ser feita aqui e agora.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Conversa de amigo




As luzes da cidade batiam contra os meus olhos distraídos. Sentir aquela luz nas minhas pupilas restaurava a consciência do meu estar naquela cidade desconhecida que, aos poucos, ia tomando como minha. Na boca, um cigarro, passos lentos como sem dono, andar sem motivo, procurando quem sabe tragar a hora e deter o tempo alvissareiro que passava diante de mim como um trem veloz. No bar, o amigo esperava.
Sentei-me lentamente, botando os cotovelos sobre a mesa. Pedi uma Germana, como de costume e perguntei ao amigo sobre a família e a vida, mas não prestei atenção na resposta. Há uns dias, eu já estava completamente imerso em meu próprio mundo, ainda me impregnava nas roupas e no pensamento o perfume que ela deixara em minha cama antes de partir.
Meu amigo percebeu que havia algo de errado comigo, perguntou-me de que se tratava, mas eu não pude dizer uma palavra sequer. Comunicar aquela lembrança era como desmanchá-la diante dos meus olhos. Ela era para mim como um sonho que não podia ser contado, uma fábula de um reino desconhecido, guardada em um baú de avô ou dono de sebo, como uma relíquia que não pode vir ao mundo sem se perder por completo.
Depois da terceira dose de cachaça, permanecia imóvel segurando a cabeça com o punho esquerdo. Na mão direita um cigarro, cotovelos sobre a mesa, mais um amigo se juntava a nós. Eu, no entanto, com a garganta lavada em aguardente, sentia apenas a saudade escorrer através dos olhos. Eram as lágrimas da distância que pediam passagem, lembrando-me do dia em que estava tão perto dela que se fechavam meus olhos ao simples toque de sua pele alva.
Depois de alguns meses separados pela vida, voltei a me encontrar com ela em uma noite cinzenta e chuvosa. Não sabia se depois da distância, ela ainda nos via como os amantes que fomos outrora. Foi então que veio o abraço apertado, o sorriso rasgando o rosto como uma represa partida e o toque das bocas que se beijavam e mordiam como se precisassem desesperadamente uma da outra.
Já era tarde. A cidade inteira estava vazia e nada mais restava a fazer senão aquilo que queríamos fazer desde sempre. Levei-a para a minha casa. Ela logo se deitou em minha cama. Entre as colchas e travesseiros, seus gestos de vergonha e preguiça transformam-se em valsa para os meus olhos, como se cada movimento daquele corpo fosse executado com a graça da mais solene das bailarinas. Foi quando eu a contemplei com ternura e aquele fogo que ardia em meu corpo, sem desaparecer, deu vazão ao terno encantamento de ter aquela mulher em meus braços. “Rolou ou não rolou?”, perguntariam meus amigos, mas para mim, naquele momento, aquilo simplesmente não fazia sentido. Sentia que compartilhava com aquela mulher um milagre profundo no qual o sexo certamente era parte, mas a parte de um todo que era muito mais que sexo. Um todo que não estava em mim e não estava nela, mas num ponto eqüidistante de nossas saudades, que nos impeliam irresistivelmente na direção do outro.
Ao vê-la ali, deitada em minha cama, contanto qualquer história triste de sua vida solitária, abraçava aquele corpo como se o quisesse colá-lo para sempre junto ao meu, para que todo aquele sofrimento transbordasse também sobre mim, para que eu pudesse então, quem sabe, purgá-lo em consolo e poesia. Ela estava quase dormindo, mas a cada beijo meu podia ver um sorriso de contentamento irromper em sua face. Era uma leveza profunda que eu sentia e ela também sentia. Não havia tempo e nem mundo lá fora. Havia somente os nossos corpos, uma história sem enredo que se bastava por si, onde o início e o fim convergiam, da mesma forma que convergiam os dedos que se entrelaçavam e os nossos pés que se cobriam. Dormir com aquela mulher, foi como compartilhar o mais genuíno de mim, minha solidão temperada com afagos de infinita ternura.
“Sabe, camaradas”, começou um de nossos amigos, interrompendo minha longa digressão solitária, “vocês podem até estranhar, mas vou te dizer. Ontem transei com uma mulher e ela acabou dormindo em minha casa. Que terrível acordar com alguém que você não conhece. De manhã, queria que ela virasse um pedaço de pizza ou, quem sabe, um garrafão de água”. “Pelo menos, comeu!”, respondeu o outro, “tem gente que deixa pros outros fazerem o serviço”. O colóquio que passou a ser travado destoava tanto das lembranças que eu agora remoia, que o fato não deixou de ser irreverente para mim, mas quanta verdade não havia nele! Passei a interagir timidamente com meus camaradas, mas no fundo, minha expressão grave e taciturna valia mais do que qualquer palavra. A conversa de amigo, alguém já disse, se dá, aliás, no tipo de silêncio que somos capazes de compartilhar do que em qualquer palavra proferida.
Ao comentarem sobre o meu ar grave e taciturno, meus amigos falavam baixinho entre si: “é mulher, com certeza que é”. E eu ria mais uma vez, pensando no trecho de um livro que lera na véspera e como nossa conversa de amigo me levara a fazer a descoberta, que para mim valia mais do que qualquer teoria científica. Pensava agora, no pequeno trecho do livro, que dizia com toda a justeza: “o sono compartilhado é mesmo o corpo de delito do amor”.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

CEU VERMELHO


Em noite profunda,
Céu é vermelho de chuva,
Mas que não quer cair.





                                                                     

domingo, 5 de junho de 2011

Falta de si (Carta de um Vivo-Morto).

Ando em torno de alguns pensamentos,
Rios de luz entrelaçados no escuro dos meus olhos.

Penso sobre o Ser do meu futuro.
E da dor deste Ser-que-serei,
quando lembro do que sou agora.

Me resta a abstinência que sinto de mim mesmo...
Dou qualquer valor por mais uma dose de mim.

Isso, queridos amigos, há muito morri.
Talvez com 19, ou 16.

Vivo nesta carne de um vivo-morto.
Assombro meu passado com o meu presente.

Me sinto mais que morto!
E o que ainda tinha por viver?
Meros devaneios felizes que nunca viverei.

Mas o que distinguiria esses sonhos felizes das lembranças de quando vivia?

Isso, meus queridos amigos, somente vossas lembranças de mim são o que me fazem ter certeza,
Certeza de que as minhas recordações existiram,
Funcionando como uma prova de vida.
Prova de Amor.






OBS: "Abstinência de si" é uma expressão de Paulo Tamer.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Lavoura

Eu quero dar-te a flor do tempo

Não para que a vejas florir

Mas para que admire o seu perecimento

Perto da tua carne, perto do teu sopro.


E no convite da beleza dos ponteiros

Possas ver-te refletir no relógio parado

Nas válvulas quebradas

Do motor estático

Que perde sua força motriz.


Fechas os olhos e tudo se esvai

Abaixas as pálpebras

E me presenteias com o gelo das horas

Assim te fazes: guardiã dos absolutos

Aquela que desvirtua os mutáveis

Que violenta meus horizontes

Que me dá a poesia

Vivida, chorada, cantada.

Mas não escrita.


Eu vejo que não gostas de poesia

Mas tu, para que gostar?

Transpiras fermento da mente dos poetas

Fertilizas a semente das imaginações

És o irrigar das inspirações.


Te tornaste a lavoura dos meus versos

Onde o trabalho é minha religião

E o colher é meu cristo


És uma presa

Inalcançável ao instinto predatório

Inestimável a tua matilha que és tu mesma.


Passeias pelos vales dos meus olhos

Onde o seguir-te não é opção

Onde o querer-te não é voluntário.


És um verso torto e sem rima

Eivado de beleza ferina

Onde a tua cor castanha

Divina e humana

Faz de meu amor por ti, doce criatura

O mais belo bem libertador.

Paulinho

01/06/2011

domingo, 22 de maio de 2011

TUDO É MERDA





autoria de Glairson Dias Figueiredo (meu velho vô)




O mundo é simplesmente merda pura
A própria vida é merda engarrafada
Em tudo vive a merda derramada
Quer seja misturada ou sem mistura

O bem é merda. O mau, merda em tintura
A glória é merda, apenas e mais nada
A honra é merda, e merda bem cagada
Merda é o amor. Merda é a formusoura

E merda, merda rala é a inteligência
Feita de merda é toda a consciência
Merda é o coração. Merda é o prazer

Feita de merda é toda a humanidade
Em tanta merda a própria terra invade
Que um soneto de merda eu quis fazer

terça-feira, 10 de maio de 2011

Chuva

A chuva derrama sua lagrima diária

Compelindo o mundo a chorar com ela

Lavando a rua dos sangues escusos e espúrios


A tempestade arrasta com o vento

Os nomes prostituídos deixados a beira pista

Levando consigo todos os lamentos da pobreza


Ah, quem me dera a chuva lavasse meus olhos

Pra não ter necessidade da lágrima resoluta

Quem dera a chuva limpasse meu rosto

Da feição feliz e resignada de saudade


Quem dera a tempestade

Arrastasse consigo as lamúrias do meu peito

Ardente em vontade

Sereno em amor


Que o vento emasculasse meus sentidos

Ou pelo menos os sentimentos

Por um dia, uma hora, uma semana

Poupando-me da distância

Das léguas

Dos quilômetros


Assim vivo eu

Assim vive meu poeta

Pela primeira vez

Mesclados em um único corpo

Hospedeiros de um mesmo amor

Vítimas e autores de um mesmo delito

Misturando ego e eulírico

Numa uniforme paixão por teus olhos


Assim vivo eu

Assim vive meu poeta

Feito índios dançando à chuva

Como ciganos migrando em direção a tua beleza

Como balonistas

Implorando ao vento sua misericórdia

De levar-nos ao teu encontro

Que nos permita de bocas abertas à tempestade

Provar tua saliva que irrompe em luz pelo espaço que nos separa.


Tua palavra

Tua vida

Tua luz

São as causas pelas quais pecamos

São os motivos pelos quais somos criminosos

São o caminho por onde juramos um dia não passar.


Nosso maior crime

Nosso maior pecado

Nossa maior infâmia

E nossa maior sorte

Foi amar-te como um só

sábado, 7 de maio de 2011

Saudade

Eu gostaria de repetir o parto da tua chegada

Invertendo os pólos fugazes da tua distância

Perpetuando com isso as bocas que não se arrependem

Dos corpos que ainda se querem

E da saliva que não conseguiu se separar


Meu bem, te sinto tanta falta

A tua ausência esvazia meu ânimo

Me seca metade do copo

Me brinda a tristeza

Festejando saudade


Escrevo-te como um faminto

Desejando teu gosto sem prudência

Idealizando teu cheiro sem paciência


E no barato conclusivo da nossa distância

Falimos com o espaço

Dando à nossa liberdade

A forma mais doce de nos deixar prender.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Porquê

Sou advindo das coisas sem lógica

De coisas que nem as letras querem explicar

Sou filho das imagens sem forma

Sem sentido e sem coerência


Participo das vida como algo que não existe

Como algo que só plana

Que só recolhe o que ninguém quer

E só acolhe o que o quer


Não quero desenhos

Nem gosto das pinturas

Prefiro os rabiscos das crianças envolvidas em sua inspiração

Os traços mal feitos que expressam o seu sentir


Sim,

Eu sou algo alheio ao redondo do mundo

Algo apartado das colunas da vida

Ou de qualquer outra forma que queira ser imposta


Mas reformulo-me nas formas do querer

Do querer por querer

Sem saber nenhum porquê


Prefiro ser filho das coisas mortas

Das coisas que já perderam a vida

Ao ser herdeiro das coisas que vivem por algum sentido

Prefiro repousar na tumba dos que não se perguntam

Do que estar em meio a tantas interrogações


Viver assim me dá amor

Me dá o teu amor

Um amor que se basta em si mesmo

Que não questiona a sua forma

Que não mede o seu infinito

Que não soma nem multiplica

Mas que já existe na proporção máxima do sentir.

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Tudo meu; Tudo teu

Contemplo-te na essência da saliva

No salgado da lágrima

Sentindo no meu deguste

O sabor da tua tristeza


Não te iludas

Que qualquer distância separe nossos corpos

Ou que qualquer espaço afaste minha lembrança


Eu permaneço contigo

Mesmo na ausência do tocar

Mesmo na falta no olhar


Meu âmago

Sofre pela tua falta

Meus sonhos choram o teu sofrer

E na perpetuidade do meu querer-te

Hospedo tuas lamúrias

Em fases contundentes de sentir


Na conexão das nossas paixões

Idas e vindas dos corpos

Reformas e formas da minha alma

Sentem a tua doçura

Se despedaçando em ciúmes

E recompensando em perdão.


Tens tristeza como todos

Mas minha tristeza é como de poucos

Sofro porque sofro

Ou sofro porque sofres

São as duas únicas maneiras

De não ter perto de ti

Os sorrisos de amor e compreensão

Que hoje

Que sempre

Terei ao te observar

quinta-feira, 28 de abril de 2011

8

Ontem marquei meu corpo

Marquei com algo definitivo

Com algo que assombraria os olhos vãos

Os olhos que são só do agora


Eu feri minha pele

Com uma marca mais antiga do que a ferida

Marquei-me com o símbolo da completude

Da interminável razão do pêndulo nosso


Com o ícone das tuas veias pulsantes

Dos teus sinais inebriantes

E de um sorriso que cega


Inspiro-me no teu paradigma de naturalidade

Na tua busca incessante pelo tudo

Entendendo a natureza das coisas

Sem contentar-se com as migalhas


Ah meu bem, a ferida ainda me dói

A cicatriz coça

E a cada martírio da pele

Eu sinto a doçura das tuas mãos em mim


Eu vejo na saudade das bocas

Na degustação das nossas salivas

A esperança inabalável das nossas mentes

E a progressão incessante dos nossos amores


Eu parti pelo ter

Não pelo querer

E na razão contida nos meus olhos

E a paixão irrompida em meu peito

Eu retornarei a algo que desde seu principio é sem retorno


Meu bem eu tive todas as razões para te deixar

Momentaneamente te deixar

Mas tive só uma pra permanecer

E permaneci

Insculpido em teu peito

Marcado em tua pele

Com a mais doce lembrança do que nunca precisa ser lembrado

Daquilo que jamais é esquecido

O infinito pródigo do nosso amor.

domingo, 17 de abril de 2011

CORDEL DO HOMEM DA NOITE


Criança eu queria a noite

Poeta sou de nascido

O pinho peguei de ouvido

Malandro, fugi do açoite


A noite hoje é criança

E o tempo me fez cachorro

Que gosta do som do choro

Da moça que o amor balança


Na doce ilusão dos goles

Afogo-me na imprudência

Garganta sente a ardência

De amargas bebidas torpes


Sou jovem, me sinto forte

Tem muito, dá pra gastar

Um trago não vai matar

Sem medo brinco com a s(m)orte


Me atrevo, me entrego aos vícios

Seresto na madrugada

Na boa fina vanguarda

De um Baden e de um Vinícius


Soberbo por entre os bares

Sobraço meus bons poetas

Gular, dentre outros profétas

Declamo altivo aos ares


Um pingo de álcool molha

A pagina aberta à mesa

Brindou roda viva sexta

Alegres todos em volta


A voz de um de nós da roda

Irrompe percuciente

Por entre os murmurios quentes:

"Salve boemia nossa!"


Na roda há linda moça

Que fito não sem maldade

Mais jovem, que bela idade

Vou dar-lhe uma boa bossa


Tem só dezenove aninhos

Seus olhos respondem aos meus

Seu corpo, obra de Deus

Já cabe nos meus carinhos


Direito, faz faculdade

Porém, o que hoje precisa:

De um bom professor da vida

Que ronde pela cidade


E olhar que dá trela a cão

É rápido enternecido

Pois, cão, de olhar bandido

Derrete bom coração


O cão se dirige a ela

Mansinho, um beijinho clama

Um "sim" dá desfecho à trama

É pinta nova paquera


Com dedos entrelaçados

Cachorro e sua nova dona

E esta reluz em chama

Se vão do bar enlevados


Agora, sós, no recinto

O cão será bon seller

E a moça será mulher

Farei e não me ressinto


Farei pois, se hoje não faço

Aí pela madrugada

Madrugam bons vira latas

Que fazem se o outro é fraco


Voltando ao nosso recinto...

Está tudo uma penumbra

Silêncio, uma catacumba

Molhado seu beijo sinto


Sem pressa, lhe mostro o pinho

Do bag saltei pra fora

Um pouco sua face cora

No braço ela faz carinho


Com dedos lhe toco as cordas

Produzo-lhe um som gostoso

Deleita-se ela em gozo

Penetro-lhe a bossa nova


Balanço cadenciado

Dá ritmo aos nossos corpos

Vermelha, ela fecha os olhos

Eu toco já extasiado


Sussurro-lhe ao pé do ouvido

Cantando minha crianção

É quando, de supetão

Seu roso abre um sorriso


A quem causei hoje um auge

De amor de uma bossa nova

Depois, quando eu for embora

Vai só cantar de saudade


A música dela foi-se

Pra sempre não toco a ela

Olhando pela janela

Pra sempre só toco à noite