terça-feira, 5 de junho de 2012
Pelo Bem das crianças
poema interpretado e atuado no dia 26.05.2012 pelo ilustre Vitor Nina em meu primeiro Pocket Show "com vós, sem voz, eu vou".
O Bem e o avançar do tempo
Acaso são paripassos?
Os homens, sempre mais safos
Farão desenvolvimento?
Os lobos procuram carne
Cordeiros procuram letras
Mistério das noites negras
Espanta quem nada sabe
Menino em sono profundo
Dopado, padece só
Os carros passam sem dó
Há mesmo moral no mundo?
As luzes se cruzam rápido
As sombras se esticam lentas
E somem na urbana cena
Ao pé do menino esquálido
Calçada de pedra é cama
Degrau de briu, travesseiro
Descalço, sob o letreiro
Que pisca, um jornal é fronha
Mas homens são sempre lógicos
Os carros são prova disso
Em nome de imperativos
Cordeiros são categóricos
Não chorem pelo menino!
Paixão aqui, deus o livre
De Deus já são todos livres
Reclame ao Estado, altivo
Reclamem, modernos fracos
Se iludam nesta mentira
Que insiste em bondade fria
Regidas por laicos laços
Estufem-se triunfantes
Levantem o indicador
Discursem com todo o ardor
Em seus ternos elegantes
Indiquem onde falha o lógus
Que falta às autoridades
Que tratam mendicidades
Depois, vão jantar no Othon
Que raio de militância!
Os versos servem pra isso?:
Sem dó, escachar os vícios
Dos “nobres” dessa cidade?
Tais “nobres”, desalentados
No fundo são cordeirinhos
Forjaram um novo cantinho:
O rol dos arrazoados
O Ser pede proteção
O nada é o terrível drama
Um Pai sempre há na trama
Seu nome atual: razão
Cordeiros tapam os ouvidos
E apelam: “lá lá lá lá”
Recusam-se até o olhar
E batem pé já franzidos
Mas um paradoxo plana:
Quem crer-se em maior idade
Pra, são, governar cidade
Agora está igual criança
Pra que servem estes versos?
Não servem eles pra nada
Se lembram o que o Nada causa?
É tudo muito complexo
Há algo a lhes revelar
Meus caros homens sem Eros
Pretensos morais sem credo
Não, minto, lhes relembrar!
Crianças, pois, todos foram
Só hoje têm embaraços
Desculpem-me pelo lapso
Escutem, antes que morram:
Eis tudo bem cristalino:
Menino só vai salvar
Aquele que derramar
Seu pranto pelo menino
Menino padece às pedras
Os carros e os discursos
Discorrem-se em seus percursos
Porém, corações de pedra
Mas quem poderá ser Cristo
A ponto de a todo o instante
Sem medo e não hesitante
Salvar um novo menino?
Talvez não exista mesmo
Bondade ou moral nos cosmos
Talvez quando eu feche os olhos
E durma, vá tudo a esmo
E sonhe novas errânças
Pra que mesmo serve isto?
Por que na vã arte insisto?
Talvez pra salvar crianças
Que vagam em vagas lembranças
E voltam a todo o instante
Fisgando-me inquietante
Aí por essas andanças
E vós, que fazeis aqui?
Vieram pra se salvar
Na fuga de não chorar?
Ou há algo pra sentir?
Se o Bem não há nem avança
Intrínseco aí no mundo
Salvemos, ao menos, fundo
A nossa própria criança
Há nós na garganta em ti?
Há “nós” em teu coração?
Permite esta noite, então
Que a música cante assim...
sábado, 10 de março de 2012
Perfume de livro.
Para Torres Moraes,
Perfume de livro,
Perfume de livro,
calma estação.
Me corta a brisa
com tua voz.
Por trás, vens
sem te revelar.
Me corta a brisa
com tua timidez.
De frente, te fito.
Tu corres teus olhos ao chão.
Me corta a brisa,
com o doce da tua voz.
Te reconheço.
Não sei por quanto tempo.
Te cheiro.
Teus olhos correm aos meus.
Me corta a brisa
com o teu perfume:
Perfume de livro
papel e tinta;
Perfume de poema
cabelo e voz;
Perfume de roupa,
algodão, azul, abissal;
Perfume de abraço,
sonho e mansidão.
Me corta a brisa
com teus sonhos....
...Que agora são meus.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012
Nunca mais, Vinícius de Moraes
Criado no Samba da Benção, batizado em Oxalá
Caboclo juramentado do Norte
Amigo, Saravá!
Passo para dizer que estou de saída
Sem recaída, nem bater congá
Só quero também que lhe diga
Sem remorso nem gira
Essa história que vou lhe contar
Perdido em dança de briga
Em amor de guaíba, na beira do cais
Conheci um poetinha que atendia pelo nome
Do amor e da fome
Seu Vinícius de Moraes
Consumia tudo ao prazer da hora
O peito ia se escorrendo, era plena madrugada
Apontando para a noite, ele falava aos olhos da amada
Passei então a fazer tudo o que ele faz
Nunca mais, Vinícius de Moraes!
Brincando de Deus mambembe,
Voltei meus olhos ao encanto, fiz do riso, o meu pranto
Soprando no mundo minha própria criação.
Desde então, já não tive paz
Nunca mais, Vinícius de Moraes!
Numa doce canção de veludo e de dor
Tateei a face da noite estrelada
Acusando em bruma os ouvidos da amada
Deixando toda a eternidade para trás
Quanta ilusão, Vinícius de Moraes!
Aspergindo angústia como gotas de orvalho
Fiz nascer o amor como quem faz a ruína. O fiz?
Na espera da morte, fiz ladrilhar minha sina
Na hora íntima, nem o encanto preenchia mais
Quanta dor, Vinícius de Moraes!
E então recoberto de vãs palavras
Atravessava a alma com um copo de mesa
Dizia à torto “amor”, sem ter certeza
Brincava de amor para sempre, como quem brinca de pira-paz
Não quero mais, Vinícius de Moraes!
Quero tocar o amor como quem tinge o girassol
Sentar-me à a aurora e contemplar o arrebol
Deixando que penetre em mim o calor da eternidade.
Um tempo que desmanchando não desfaz
Nunca mais, Vinícius de Moraes!
Quero andar por aí com a amada
Como andam as aves cegas
Guiadas somente pelo luzeiro do Sagrado Coração
Ver o mar batendo nas pedras, querendo ser pedra
Que sobrevive à passagem da estação
E então nossos beijos serão levados como espuma
Nossos caminhos serão selados como pluma
Pelo Santo sacramento do altar
E quando eu a vir caída
Já não quererei voar
Nem mesmo o momento de espera abate
Ao peito que Nele mora
A amada tem seus medos e sua hora
Meu ímpeto persevera
Meu coração se refugia em silêncio
E então a minha amada será para mim
E eu serei para a minha amada
E não haverá desejo que se venha a deter
À irresistível ternura das vidas
Que cansadas, desistiram de sofrer
Quero voltar deste lugar e te contar
Essas coisas e outras coisas mais
Não te quero, mas não te abandono, meu amigo
Meu pobre amigo
Vinicius de Moraes.
David Carneiro, 2012
terça-feira, 7 de fevereiro de 2012
Minha cidade, caminhada
Felipe de Campos Ribeiro em 07/02/2012
Segunda década do século XXI, Belém, seis de fevereiro, duas e tantas da madrugada: fui andar. Para onde? Fui andar. Atormentado pela noite de insônia – pelas angústias das incertezas do futuro, da não realização dos sonhos, da vida acomodada, da solidão – um medroso vai à rua; simplesmente para andar, sentir o vento suave da noite, olhar a luzes, a calmaria, uns raros carros (que, volta e meia, vêm trazendo ao longe seus ruídos que vão paulatinamente aumentando de volume e paulatinamente diminuindo).
De fora – apenas com minha chave no bolso, e mais nada (nem mesmo um lenço ou um documento)! - cuidadosamente bati a porta do apartamento. Tomei o elevador. Desci. Atravessei a portaria acenando gentilmente (porém, ao mesmo tempo, compenetradamente) ao porteiro (meu bom amigo violonista Nelson). Abri a porta de vidro do meu prédio antigo (que, porém, se esmera ao máximo –com reformas – para ser moderno) e pisei na rua. Eis, lá, eu, em pé: na José Malcher, em frente ao Hotel Regente, momentaneamente parado (com uma mão ainda tocando a maçaneta externa de um prédio provincianamente velho/novo e dando rapidamente uma olhada nas estrelas do céu) por uns cinco segundos. Então, parti em direção à praça.
Desde criança, sempre fui acossado por um misterioso encantamento pela calmaria e densidade da noite. Porém, sempre que comentei - no inevitável círculo pequeno burguês em que vivo – sobre minha fascinação em caminhar noite adentro, ouvi vozes amedrontadas tecendo as mesmas previsíveis recomendações: “olha... cuidado! Sabes como está a violência e esses bandidos por aí..”; ou até, simplesmente “tu és é doido de fazer isso, menino!”. Minha mente nunca se deixou muito levar por tais repetições de pessoas que, provavelmente, em sua maioria, nunca tiverem experiência semelhante. Tenho certeza de que suas intenções são as melhores, porém, meu espírito tem um quê de estrangeiro ante a tal círculo. “Estrangeiro”: eis a melhor metáfora que sou capaz de sinteticamente materializar em palavra para exprimir um turbilhão tão infinito de “estrangeirismo” inominável que carrego. O que importa é que nunca tive medo de enfrentar a noite; as ruas de Belém; os pequenos acontecimentos - de uma certa rotina da noite sub-mundana desta cidade - que, se ninguém passasse e os visse, se desvaneceriam para sempre no universo. Sempre fui convicto de que, um homem que sai andando de chinelos, uma bermuda e uma blusa meio velha em plena madrugada belenense, dificilmente será acometido por algum perigo. Quem quiser me julgue louco.
Larguei a maçaneta, olhei para frente e saí andando. A madrugada estava silenciosa. Os raros ruídos dos carros iam chegando e se afastando. As luzes todas acesas, a rua deserta. Então, aos pouquinhos, fui verificando que era deserta apenas para os desatentos. Em frente a uma grande loja de automóveis (Honda Veículos), encostado entre o chão e as grades da frente da mesma, embrulhado em papelões, dormia um homem; um homem negro e bastante magro (foi tudo o que consegui ver). Uma grande, imponente e luxuosa academia de ginástica (Pelé) dormia do outro lado da rua, com suas luzes todas apagadas. No entanto, reparando bem, só quem não dormia eram seus hercúleos seguranças (não sei bem se propriamente hercúleos ou se, na verdade, meio gordos[1]). Eram três desses homens que estavam lá: dois sentados em cadeiras e um em pé, com o glúteo meio gordo encostado num corrimão. Antes de minha presença, parecia-me que conversavam despojadamente. Na medida em que fui aproximando-me e cruzando com eles, pararam por um momento e ficaram a me observar. Também olhei para eles. Eles me olhavam e, eu, andando, olhava para eles. Quando passei, parece que tudo voltou ao estado de antes (para ambas as partes).
À frente, ao longe, das luzes da praça, vinha em minha direção um solitário homem pedalando sua bicicleta bem rente à margem do asfalto. Na medida em que se aproximava, me era mais nítido: tratava-se um senhor moreno de cabelos brancos, aparência humilde (chinelos, calça de pano, blusa quadriculada de botões de mangas curtas) e pedalando uma bicicleta toda incrementada. Esta era preparada para vender lanches: café, pães e tapiocas (foi o que me pareceu). Quando ele, à pedaladas lentas, cruzou comigo, trocamos “Boa noite!”. Ele passou. Alguns segundos depois paralisei-me maravilhando ante ao deslumbrante Palacete Bolonha[2], situado ao outro lado da pista.
Para ser mais exato, o palacete situa-se em uma esquina da José Malcher com outra rua bem estreita, preservada ainda em estilo antigo: toda em pedras. Uma curiosidade lancinante fustigou-me para esta rua. Era tão próxima de minha residência! Eu já havia passado por ela, porém nunca a havia explorado até o fim. Como isto era possível? Não tive dúvidas: atravessei a rua em sua direção. Durante a travessia, olhei em direção a todo o trajeto que já havia feito. O humilde senhor da bicicleta estava parado junto aos seguranças gordinhos da academia. Vendia-os cafés, pães e tapiocas (a diretoria da academia bem que poderia disponibilizar seus serviços aos seus seguranças!).
Adentrei a rua estreita. Ela era um pouco mais escura, porém lindíssima! Repleta de casas bonitas, pessoas morando. Logo à entrada desta vila, ao lado direito, há um prédio largo e alto de quatro andares que funciona como um albergue. “Amazon International Hostel” estava escrito em uma placa. Eu nunca suporia a existência de tal estabelecimento bem ali, um vizinho à minha cara. No terceiro andar acontecia uma farrinha: vozes falavam em inglês, um violão tocava qualquer música ruim e uma voz não muito afinada – talvez um pouco bêbada – cantava igualmente ruim. Por algum motivo, eu sorri. Sorri bastante. Aquela pequena bobagem era muito engraçada ao meu espírito curioso e explorador daquele momento, sabe-se lá por que. Fui passando e cheguei ao “fim da vila”.
Descobri um pouco mais de minha tão bela e tão feia cidade. Ao final da rua estreita em que eu estava, dobrando para o lado esquerdo, havia uma enorme continuação. A pequena primeira reta em que eu entrara – a do Palacete - terminava bem nos fundos de um prédio (prédio este que tem sua frente voltada para a rua Beijamin Constant). Ao lado direito deste fim de linha, uma rua que saia diretamente também à Beijamin Constant. Tudo isso eu já sabia. Porém, neste mesmo fim de linha, ao olhar para o lado esquerdo, me aturdi. Há ali uma vila enorme com varias casas, todas bastante grandes. Sem hesitar, rumei para a esquerda.
Carros importados estacionados nas grandes garagens me impressionaram naquela pequena vila bem ao centro da cidade (onde uma calmaria soberana reinava). Era como se aquele poderoso império todo (econômico) estivesse literalmente escondido, bem atrás do Palacete Bolonha (não é curioso?). Eu estava ali. Quem era eu? Ali, àquela hora? De repente, em minha intuição foucaultiana, logo atinei: “devo estar sendo vigiado neste exato momento!”. Acertei na mosca, praticamente como que em uma premunição: ouvi um assovio vindo lá do fim a primeira rua (de onde eu tinha vindo). Olhei para trás. Um guarda noturno vestido de perto[3] segurava um cassetete e me olhava. Ele estava um pouco longe, mas parece que me olhava feio (no mínimo com séria desconfiança). Senti-me avassaladoramente indignado em ser, por aquele brutamonte, convidado ao constrangimento simplesmente por estar andando livremente pelas ruas da minha cidade. Aquilo seria uma rua particular? Seus poderosos moradores gostariam de viver - “na marra” - protegidos das mazelas nas quais todos nós vivemos em Belém? Não aceitei! Destemidamente, fiz, com uma mão, um sinal ao brutamonte; um sinal para que ele esperasse, pois eu iria continuar andando. Virei de costas a ele e continuei na mesma direção de antes.
Cheguei ao final da vila (sim, desta vez era o final mesmo, não havia saída). Entre as grandes e luxuosas casas que ali existem, há no final da vila, uma ainda maior e mais luxuosa (que se destaca arrogantemente ante as primeiras): uma mansão, com lindo jardim na entrada e um alto portão preto duplo. Em ambas as abas do portão, duas grandes letras talhadas em maiúsculo, cor dourada e em fonte gráfica exageradamente estilizada pomposamente[4]: RM. Eis minha mais indignante surpresa. Ali entendi tudo. Entendi quem provavelmente seriam os patrões daquele pobre guarda. Aquela abordagem era mesmo bem característica da “política” de seus prováveis patrões.
Me virei novamente ao guarda brutamonte. Ele estava parado do mesmo jeito de antes (cassetete na mão), porém dessa vez, mais desconfiado e impaciente do que nunca. Fiquei plantado por alguns segundos em frente à grande mansão olhando também para ele, no afã de provocá-lo um pouco. Por um estranho e irracional prazer, deixei se arrolar este momento muito tenso. Não sei se faria isto novamente, mas naquele instante não temi a nada, apenas gozei. De repente, comecei a percorrer o caminho de volta. Lá estava eu andando em direção ao brutamonte. Ele, intacto. A medida em que me aproximava, eu o olhava nos olhos inquebrantavelmente. Ele fez o mesmo, e no tenso trajeto de volta, não houve palavra.
Apenas quando estávamos cerca de sete metros um do outro, falei com a voz firme: “não se preocupe, amigo! Moro ali no prédio e só to andando por aqui mesmo”.
Ele, ainda desconfiado, respondeu: ”não tem saída pra aí não”.
“eu sei. Eu só tava conhecendo mesmo aqui”.
Foi quando ele rispidamente retrucou tornando claro seu poderio: “conhecendo?” – e sorriu sutilmente – “Te manda logo, rapá! To te olhando daqui!”.
Ignorei sua resposta imponente e, como se nada tivesse acontecido, perguntei em adendo: “amigo, de quem é aquele casarão lá do final?”.
Provavelmente ele ficou impressionado com isso (lhe seria, no mínimo, incomum), porém não demonstrou isso. Apenas lançou seu ultimato: “borá! Passa, rapaz!”.
E eu finalmente me despedi: “seu guarda, não vou fazer mau pra ninguém. sou só um cidadão andando na rua, viu? Mas vou ‘passar’ que nem um cachorro pra não apanhar”.
O brutamonte então, como se em um segundo passasse a confiar em mim, me surpreendeu: “não leva a mal aí não... é que agente tem que proteger a vila”.
Dessa vez, foi eu que, embora bastante surpreendido, não transpareci. Já de costas a ele, sem nem mesmo olhá-lo mais, finalizei definitivamente: “e a vila, te protege?”.
Saindo dali ainda andei bastante. Peguei a Benjamin e rumei até a esquina do Midori, dobrei à esquerda na rua desta esquina (uma rua tão pouco usada que nem seu nome lembro) em direção à praça. Chegando nesta, circulei um pouco pelas luzes e finalmente sentei em um banco já no corredor das mangueiras, próximo ao sempre saudoso Bar do Parque. Por mais de hora, pus-me a olhar o movimento (da praça para a Presidente Vargas, o movimento é sem duvidas maior): taxistas, prostitutas, mendigos, dois meninos de rua, um “cachorro quente” aberto. Em uma pessoal paz filosófica ali fiquei - em baixo de grandes mangueiras, de grandes histórias, de grande cultura, de grandes desigualdades, de grandes injustiças – a contemplar a cidade que ia amanhecendo e acordando aos pouquinhos.
[1] Assim são os seguranças paraenses: se amarram num açaizão com peixe do “veropa”.
[2] Palacete construído em estilo art noveau, com características clássicas da época do Ciclo da Borracha (Belle Epoqué). Foi idealizado pelo arquiteto Francisco Bolonha em 1905 para presentear sua esposa, a pianista carioca Alice Tem-brink. Já foi residência de pessoas da alta sociedade paraense (comerciantes do ciclo da borracha) e já funcionou como sede da Prefeitura de Belém.
[3] Não duvidaria se na costa de sua blusa preta estivesse escrito a risível palavra “apoio” e na manga curta do braço, uma pequena bandeira do Pará estampada (muito engraçado: apoio paraense para descer pancadas nos marginais excluídos que ousarem se aproximar dos poderosos decadentes.
[4] Para imprimir intimidadoramente sua superioridade ante a tudo e a todos, e assim, exatamente aí, expor sua estupidez e mesquinharia.
sábado, 28 de janeiro de 2012
Verdade Primeira
Investigo-me a consciência.
Livra-me do amanhecer, noite das dúvidas.
Reforma-me em sons agudos e timbres harmoniosos.
Ah, dúvida dos homens,
Construam homens sem dúvidas
Questionar-me em minha guerra
É realizar-me de paz e verdade
E encher-me do terror do conhecimento.
Conhecer dá medo,
Mais medo é não conhecer o medo.
Paz ou guerra?
Escolho ambas como minha cama.
Estar em paz por conhecer,
Estar em guerra com o revelado.
E assim me sinto em campo,
Em uma paz em estado permanente
E uma guerra em estado latente.
A guerra dos homens é não conhecer,
A paz do espírito é não conhecer a ignorância,
Apenas a calmaria da verdade.
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Nunca lerás (Haikais em série).
Só tive uma dança,
Me desejei uma dança.
Me conseguiste por todo.
Mão nas tuas costas,
Meu nariz no teu cabelo.
Firmes, palmas juntas.
Uma frase, ou duas.
Vem o fim da minha música.
Frágeis, as lembranças.
Odores perdidos.
Também teu nome perdido.
Meus Poemas por dito.
Me desejei uma dança.
Me conseguiste por todo.
Mão nas tuas costas,
Meu nariz no teu cabelo.
Firmes, palmas juntas.
Uma frase, ou duas.
Vem o fim da minha música.
Frágeis, as lembranças.
Odores perdidos.
Também teu nome perdido.
Meus Poemas por dito.
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Haikais em série.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
O homem estátua 3
O Homem estátua ficou paralizado. E não pelo corpo que permanecia sobre banco enquanto sua mente percorria a memória da praça, nem pelos olhos que continuavam piscando para dar sinal de vida ao corpo metálico que agora se questionava em suas profundezas. Sua paralisia era uma constatação, um assombramento. Ele sabia que tinha dentro de si um segredo qualquer. E era uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão linda que o faria do alto da mangueira mais alta derramar poesia sobre toda a cidade, tal era a força do sentimento que portava. E quanto mais forte pulsava em seu peito aquela dor, aquela agonia de ver correr-lhe alguma coisa da alma, mais forte eram os grilhões que lhe prendiam ao silêncio, como se estivesse condenado para sempre à mera contemplação da vida.
Foi quando o homem estátua percebeu que portar este segredo, essa vontade de não sei o quê que sentia dentro de si e que era só dele, era como portar também sua incomunicabilidade. Algo de amargo lhe desceu pela garganta. E, por um minuto, olhou o céu como se não vivesse. Deixou-se então encantar um pouco mais com o resto de dia que ficava daqueles que haviam passado, deixando suas histórias, suas maneiras e seus passos. Ele sabia que sairia dali e mais uma vez percorreria a mesma rua, sentiria o mesmo cheiro da baía e confidenciaria o mesmo segredo com as proas, tentando quem sabe imaginar as histórias que deram nome aos barcos. Mais uma vez nada teria para dizer e tudo conteria dentro de seu infinito incomunicável. O homem estátua sentiu-se só. Desceu do banco, guardou seus pertences e fechou a maleta. As lágrimas que lhe caiam no rosto começaram a borrar levemente a maquiagem. Neste dia, o homem estátua chorou baixinho, como só se chora em Belém do Pará.
David Carneiro, em 21/11/09
Foi quando o homem estátua percebeu que portar este segredo, essa vontade de não sei o quê que sentia dentro de si e que era só dele, era como portar também sua incomunicabilidade. Algo de amargo lhe desceu pela garganta. E, por um minuto, olhou o céu como se não vivesse. Deixou-se então encantar um pouco mais com o resto de dia que ficava daqueles que haviam passado, deixando suas histórias, suas maneiras e seus passos. Ele sabia que sairia dali e mais uma vez percorreria a mesma rua, sentiria o mesmo cheiro da baía e confidenciaria o mesmo segredo com as proas, tentando quem sabe imaginar as histórias que deram nome aos barcos. Mais uma vez nada teria para dizer e tudo conteria dentro de seu infinito incomunicável. O homem estátua sentiu-se só. Desceu do banco, guardou seus pertences e fechou a maleta. As lágrimas que lhe caiam no rosto começaram a borrar levemente a maquiagem. Neste dia, o homem estátua chorou baixinho, como só se chora em Belém do Pará.
David Carneiro, em 21/11/09
O homem estátua 2
Enquanto as horas iam passando, o homem estátua era brindado e castigado pelo Sol, experimentado por crianças curiosas e friamente abraçado por turistas ávidos de recordações da cidade das mangueiras e seus homens estátua que nada tinham de diferente, a não ser pelo ar de profunda solidão. Ele não se importava. Cumpria com diligência e probidade todos os artigos do código de postura das estátuas, quem sabe com intento de ganhar o prêmio de Estátua do Ano ou mesmo pelo compromisso republicano firmado na Estatuinte. Só não gostava mesmo quando, ávidos por fotos ou cheios de curiosidade, os transeuntes não o deixavam ver os namorados que passavam.
Logo eles? Aqueles namorados com as mãos dadas, com aqueles rostos igualmente dados um ao outro, com aquela altivez e com aquela alegria meio boba de se bastarem a si mesmos? Como eram lindos aqueles casais! Por nada no mundo perderia um espetáculo desses. Às vezes exuberantes, às vezes tímidos, não se cansavam nunca de emprestar seu vermelho ao verde da grama, sua poesia aos coretos desbotados e suas poucas economias aos artesãos paroaras, que em madeira ou arame, com enfeites de laço ou coração, lhes apresentavam símbolos de amor, não raro contendo a inscrição: funalo e funala. E então o homem estátua pensava como seria se, de repente, no calor daquelas manhãs da praça, em meio aos coretos, fontes e monumentos pudesse surgir do céu uma lua prateada. Como ficariam ainda mais felizes aqueles casais que descobriam agora o infinito do momento a dois ou simplesmente o redescobriam depois de muitos e muitos anos de distância.
O homem estátua tinha mesmo devaneios, talvez fosse um louco ou um poeta. Pensava inclusive em escrever suas memórias. Não suas, exatamente, pois na realidade achava mesmo que não havia nada de emocionante em sua vida que valesse à pena contar. Ele, homem solitário, sem passado e com um presente um tanto trivial, queria era contar histórias de palhaços, de crianças sem brinquedo, de casais apaixonados, de bêbados alucinados ou mesmo de irmãzinhas franciscanas que socorriam os pobres da praça. Começou a pensar nas primeiras linhas dos escritos, em um exercício mental de fazer dó. Mas nada lhe ocorria à mente. Tinha idéias fabulosas, mas bastava pensar em como pô-las no papel e nada, era como se subitamente tudo lhe escapasse entre os dedos. Isso não lhe parecia justo. Como aquela força estranha que lhe rasgava o peito, que lhe fazia suspirar e, por vezes, cair em lágrimas não conseguia encontrar as palavras certas para vir ao mundo?
O homem estátua 1

Seguia calmamente pela rua naquela manhã de domingo. Horas antes, ainda bem cedo, quando mesmo o sol hesitava em afrontar-lhe o corpo, ele já havia levantado. Não conseguiu dormir bem naquela noite. Mas isso já não era novidade. Ainda sentado em sua cama, observava cada canto do cômodo, procurando qualquer coisa que sabia bem não poder encontrar ali. Por algum motivo, soluçou subitamente e colocou o rosto entre as mãos. Permaneceu assim durante alguns minutos. Em qualquer impulso que veio sabe-se lá de onde, resolveu levantar da cama e enfrentar o dia que nascia. Era mais um dia.
Depois do banho, começou a passar a maquiagem prateada no rosto. O frio da tinta arrepiava sua pele como quem machuca de leve, dando a impressão que todas as suas expressões se congelariam em breve. E, de certa forma, assim o era. Quando a tinta começava a se espalhar pelo corpo, já não havia sentimento em sua alma que não sofresse um certo recrudescimento. Se antes latejavam em sua pele como quem quisesse fugir desesperadamente pelos poros, agora se aquietavam em uma resignação consternadora. A tinta tomava conta do seu corpo. E, alguns minutos, o homem estátua se apresentava em frente ao espelho.
Carregando um chapéu e sua velha mala, ele caminhava em direção à praça. As mangueiras, ainda tímidas, só eram perturbadas pelos cantos dos pássaros da manhã e pela brisa fraca que vinha cumprimentar as folhas. As barracas começavam a ser armadas e já se ouviam as primeiras buzinas e assopros de flautas andinas. Ele olhava o abismo vertical dos prédios, tentando lidar bravamente com a vertigem que o seduzia, procurava engolir com suspiros a nostalgia do sábado e cantarolava qualquer canção que falasse em solidão. As crianças, os pais e os cachorros começavam a chegar. Chegavam também os namorados, os manifestantes e os pedintes que se punham em sentinela. O homem estátua também precisava assumir seu posto.
Do alto de seu banco, fazendo uma pose de rei, ele observava agora as pessoas que passavam de um lado para o outro, agradecendo em gestos tímidos pelas moedas que recebia e mudando subitamente de posição, para o desespero de alguns velinhos que se quedavam assustados. Parou para ouvir o profeta, uma de suas personagens preferidas, pelo qual todos passavam sem dar notícia e com um certo ar de desprezo, a não ser por alguns que não resistiam em fazer gracejos ou xingamentos. “E se estivermos todos errados?”, pensava. “E se nós é que formos os loucos?”. Perguntas como essas sempre lhe davam na veneta. E se prestava então a ouvir humildemente, repetidamente, dia após dia, aquelas sentenças herméticas e palavras sem sentido, tentando arrancar um fio de cabelo que dissesse alguma coisa sobre a vida.
Poema Simples
Ah Maria! Não queria te falar assim de angústia
Nem da pressa desses dias que me jogam contra o tempo
Sei que é preciso que haja um pouco mistério em tudo isso
Mas meus olhos de saudade já não mentem
E nada disso poderei te dar agora...
Só tenho comigo uma cartinha e uma flor
Quem sabe um animalzinho de origami
Não vale mais que um mistério, é verdade
Mas um sorriso teu e tudo feito...
Talvez consiga até te conquistar.
Mas você não me aparece Maria!
Você precisava ser assim tão louca?
Mesmo assim não nego que te quero.
E desconfio que aquele que pediu pra amar baixinho
Ou era casado ou era bem velinho.
E não me importo que me quebrem os telhados
E que fiquem surdos os passarinhos
Quero te amar agora
Com todos os sentidos
Sem mais devagarinho.
David Carneiro 16/11/09
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
A falta da pele
Os versos mentirosos contaram ser a tristeza coisa triste
Mal sabiam os poetas charlatões
Que a saudade é tristeza pior que a tristeza
É mal pior que a doença
Me assombras a falta de forma peculiar
Em um aperto no ventre
Em um pensamento pragmático
E um delírio das razões
Benzinho, as noites sem ti nem noites são
Me fazes falta o toque
O olho
A mente
A maneira
E o beijo
As noites sem ti são, no máximo, só noites
Sem tantas alegrias
Com quase nenhuma vontade.
Despidas de desejo
E pobres de festa
A saudade é bactéria
Contamina-me de tristeza
De vontade do que não posso
De saudade das tuas posses
Das tuas ordens
Das tuas vontades fúteis de segurar minha mão
Eu mal consigo pensar
Sou ralo em inspirações
Raso em poesia
És o fermento da minha criatividade
Os versos que componho em pura exaltação do amor
És o amor em si
Por isso amo o amor
És a presença
Por isso não vivo sem esta
És meu infinito que busca o seu começo
És um começo já dado, mas que pressente a sua verdadeira largada
Começaste breve, em oito dias
Retumbaste grave em um ano
E reverberarás por toda a minha vida.
terça-feira, 6 de dezembro de 2011
Acolhida
Ele aproximou-se de mansinho
Sem nenhuma pressa para chegar
E se aconchegou tão devagarzinho
Que fui, distraída, deixando-o ficar
Por diversas vezes me prometi
Que não o deixaria ali demorar
O tempo passou... E eu não percebi...
Quando dei por mim, já era o seu lar
Dei àquele moço o espaço que queria
Ainda mais espaço lhe cederia
Se ele me pedisse, sem hesitar
Se eu quiçá previsse naquele dia
O quanto me agrada sua companhia
Jamais o teria deixado entrar
Sem nenhuma pressa para chegar
E se aconchegou tão devagarzinho
Que fui, distraída, deixando-o ficar
Por diversas vezes me prometi
Que não o deixaria ali demorar
O tempo passou... E eu não percebi...
Quando dei por mim, já era o seu lar
Dei àquele moço o espaço que queria
Ainda mais espaço lhe cederia
Se ele me pedisse, sem hesitar
Se eu quiçá previsse naquele dia
O quanto me agrada sua companhia
Jamais o teria deixado entrar
Soneto da madrugada
Por que és, por que és o fogo e as horas
Minha medida, sem medida em mim
Porque aqui, não ali, são meus agora,
Os teus passos sem abraços e fim?
Qual gesto, tu me deixas, se tu choras
Fecha os olhos e as mãos e o meu ruim
O que morre, senão morre ou demora,
O que arranco antes mesmo de ser sim?
Pela noite, dormes onde desperto,
E fugindo eu chego, quando eu te ouço,
Da luz ao longe a ti já estou deserto...
Com a lua invado teu calabouço
E contigo eu deito se eu estiver perto,
Te trazendo estrelas pelo meu bolso.
Minha medida, sem medida em mim
Porque aqui, não ali, são meus agora,
Os teus passos sem abraços e fim?
Qual gesto, tu me deixas, se tu choras
Fecha os olhos e as mãos e o meu ruim
O que morre, senão morre ou demora,
O que arranco antes mesmo de ser sim?
Pela noite, dormes onde desperto,
E fugindo eu chego, quando eu te ouço,
Da luz ao longe a ti já estou deserto...
Com a lua invado teu calabouço
E contigo eu deito se eu estiver perto,
Te trazendo estrelas pelo meu bolso.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
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