Os "cordeiros" são tradicionalmente simbolizados como dóceis e sacrificáveis. Também são representados em rebanhos. Eles estão sempre em coletivo. O rebanho é a condição de sobrevivência do "cordeiro", pois os "lobos" estão à solta nas "noites negras". E os "cordeiros", no texto, são antropomórficos. Eles sabem ler. Procuram letras. Os "cordeiros" precisam de um Pastor. O rebanho não se arrebanha por si mesmo. É preciso uma liderança. Um discurso-guia para acalmar os "cordeiros" diante dos "mistérios" noturnos. Aqui, nesta estrofe (2), é possível ver dois tipos que vagam pela noite: um, feroz, voraz, faminto de vida; e, outro, pacificado, liderado e faminto de liderança discursiva, procurando "letras" (como as "letras" bíblicas e de éticas laicas).
Porém, os dois tipos expostos no poema podem tratar-se de um licantropo. Os dois tipos podem tratar-se de um só símbolo. De um homem-lobo. Parte "cordeiro", parte "lobo". Trata-se de um "cordeiro-lobo", como a representação do homem e sua ambiguidade. Um homem pode ser "cordeiro" (faminto de doutrina) e do mesmo modo um "lobo" (autossuficiente, apesar de também poder estar em matilha, pois, mesmo com toda sua "força de vontade", o lobo está sempre infantilizado pela sua oralidade, já que tem "vontade de comer", procurando um "corpo" para botar dentro da boca, o que lhe deixa emocionalmente imaturo).
A "Noite", então, surge como ela é: misteriosa. E, pelos mistérios, espanta. A "Noite" joga com o ocultamento das coisas e com o ocultamento de si. Ao mesmo tempo que pode ser o avesso da verdade enquanto alethéia, a noite pode ser o próprio caminho para o dia, isto é, para o des-ocultamento causado pela luz do dia. Assim, a jornada pela noite, em que só participam os corajosos, ainda que dentro de um rebanho ou caçando como um lobo, pode levar ao nascimento da hora do des-ocultamento de um dia que não esconde. Portanto, a noite pode ser um via para a verdade enquanto alethéia (aquilo que não está oculto).
Na estrofe (4), é possível perceber a rapidez dos centros urbanos, as luzes, e efemeridade dos acontecimentos, que funcionam como características de uma modernidade tardia ou mesmo de uma pós-modernidade, onde os sonhos são feitos de neon, engolindo a pre-sença (existencia) do "menino". Sua pré-sença no mundo, enquanto ser-no-muno, é marcada, logo a seguir, na estrofe (5), pelo a situação de abandono. O "menino" tem como mundo o espaço que não é dele. Um mundo (a calçada) que não foi projetado para ser sua morada. E, dormindo na calçada, o "menino" está coberto por um jornal. Aqui, é perceptível o mundo industrial onde o "menino" vive, mas que, em contrapartida, não pôde oferecer "facilidades" nem o "'Bem'-estar" prometido pela industrialização para com sua existência. O jornal como cobertor é a própria rapidez com que o útil-de-ontem torna-se inútil-no-presente. As notícias estampadas pelo seu corpo de nada podem fazer para com à sua existência. Nem a publicidade do letreiro, as notícias ruins e a publicidade política no jornal...
"Nada" pode salvar o "menino"...
Quanto à salvação, o poeta nas estrofes (6) e (7) passa a ironizar a doutrina-guia dos cordeiros(-lobos). A lógica que faz os carros, reabilitada pela lógica de uma razão prática, é/foi incapaz de "cuidar" deste ser-outro que é o "menino". Felipe de Campos Ribeiro ataca, outra vez, e ironicamente, as vãs tentativas dos "cordeiros-lobos" de cuidar do "menino", assim como da vã culpa dos "cordeiros-lobos" pela falha. Especificamente na estrofe (7), o poeta ironiza os "atos falhos" do homem laico/ateu que insiste em recorrer à Quem ele mesmo fora o assassino. "Reclame ao Estado, altivo", o poeta diz, soando como um "Querem reclamar? Reclamem para si mesmo".
O poeta pede para que não chorem pelo "menino". A apatia não tem retorno. O poeta chega a agredir estes homens (8). Chama-os de "modernos fracos". Estes homens - nossos homens de agora - acovardaram-se. Enfraqueceram-se depois da morte de seus reis e de seu Deus. Os modernos, posteriormente, foram abandonados pelo "ser". Caminho natural, inclusive. E diante do deserto que se expande, o poeta ressalta a ilusão da insistência para com as metas laicas, frias, técnicas, mecânicas e burocráticas. "Não adianta..." discursar e gesticular, diz o poeta. O Pastor abandonou os homens. Nem sabem mais se são eles os "cordeiros" ou se são os "outros" os "lobos". O que fazer quando estão por si mesmos? O falatório impessoal dos discursos normativos, ideológicos, e dos imperativos categóricos, darão conta? Pois, mesmo que se fale livremente via doutrinas, calando o silêncio...Mesmo que se crie mecanismos, querendo encontrar o problema do lógos... No fim das contas, retornarão estes homens ao "Othon" (Hotel): morada passageira, calma, distante e hedonista (10).
Por qual o motivo a militância? O que querem os "nobres" desta "cidade"? Sendo ainda mais explícito, o que querem os "nobres" de Belém, do Rio de Janeiro, de São Paulo, de Fortaleza, de Porto Alegre? O poeta, então, acusa-os de "cordeirinhos". Animais necessitados de discursos-guia. Animais necessitados de acolhimento e cuidado, do mesmo jeito que o "menino" necessita. Felipe de Campos Ribeiro vai mudando, portanto, o tom nas estrofes seguintes, mas permanece com o tema do abandono, cuidado e proteção (11).
O "ser pede proteção", diz o poeta. Em verdade, no mundo do "menino" do poema, o "ser", enquanto "meta", "princípio", "valor", abandonou os homens. Assim, o "ser" que pede proteção no poema não trata-se do "ser dos entes em geral" que abandonara o homem, mas sim do "ser" dos homens, quer dizer, as suas próprias "existências". São os homens que pedem pela proteção perdida e não "ser" enquanto valor, meta ou princípio. O "ser", repito, enquanto existência dos homens, é quem pede proteção. Foi o sentido da sua "existência" que esvaziou-se pelo abandono do "ser" enquanto valor. E no falatório escondem-se. Impessoais. Imersos na generalização do cotidiano (12, 13, 14).
Como se vê, o significado do símbolo do "menino" des-protegido passa a ter outro sentido. O "menino" sem cuidados simboliza os próprios homens abandonados pelos seus próprios princípios (16). O poeta começa a "re-velar", como uma memória re-memorizada/re-significada, que os de maior idade ainda são "meninos". "Meninos" perdidos. E que agora vivem sem "Eros". Sem "amor". Sem tesão à vida. E esta re-lembrança é despertada pelo questionamento acerca do "Nada". Qual a função do "Nada" se não a de nos re-lembrar do "inexperenciável"? O "Nada", no sentido existencial, é a nossa finitude. A re-cordação da nossa finitude nos causa angústia. A nossa insuficiência perante o "Nada" inevitável e o fato filosófico de termos sido abandonados por alguém ("Um Pai sempre há na trama...") nos causa angústia, ansiedade. E antes que queiramos criar outros mecanismos para salvar o "menino", lembremos que é o "menino" aquele quem pode nos salva em tempos de deserto.
Todavia, lembra o poeta Felipe de Campos Ribeiro, apresentando uma outra "ética", somente aquele que puder lagrimar pelo "menino", ou seja, aquele que puder ter cuidado por si e pelos outros, saindo da apatia e da indiferença, é quem poderá salvar-se (17, 18, 19, 20).
Felipe De Campos Ribeiro é um poeta questionador do que está estabelecido, sem dúvidas, mas também um questionador de si. Pois pergunta-se, quase que ironicamente (...), como se estivesse duvidando de si (e está), quem poderia ser o "Cristo"? Quem poderia ser um cordeiro a ser sacrificado em prol da salvação de si mesmo?
O poeta ainda pergunta-se se pode haver moral no universo. Ele pergunta pelo motivo d'ele insistir, por meio da Arte poética, em ainda falar em "salvação", "meninos", "Bem" e "Tempo". Felipe de Campos Ribeiro chega a perguntar aos leitores diretamente pelo motivo dos mesmos estarem lendo esse poema! Seriam para salvarem-se? Para não chorarem? Mas, como? Haveria algo neste mundo para sentir? O poeta, então, re-toma para si e para os leitores o tema do "Bem" e do "Tempo. Mas, agora, condicionando-os. Se os valores ("Bem") não avançam (no "Tempo"), então que, ao menos, salvemos as nossas crianças/"meninos" cobertas pela nossa indiferença e pelo cotidiano jornalístico que é apatizante com nós mesmos e com os outros.
Por fim, Felipe de Campos Ribeiro tenta adivinhar o que passa-se com os leitores. Pergunta se há "nós" nos "corações de pedra" dos leitores. Neste trecho, o poeta faz um trocadilho entre o substantivo "nó" (como, por exemplo, um "nó de corda"), que está no plural, e o pronome da segunda pessoa do plural, "nós", o que, por consequência, possibilita que encontremos outro sentido à pergunta do poeta: haveria alguém, qualquer pessoa com que convivemos ou que somos, cordeiros e/ou lobos, residente em nossos corações? Se nós não pudermos responder esta pergunta, o poeta, ao menos, pede para que ouçamos a música. Pois a Arte é um acontecimento da verdade. Da verdade sobre "nós".
Por Ricardo Evandro S. Martins. Em 07/07/2012.

