quinta-feira, 28 de abril de 2011

8

Ontem marquei meu corpo

Marquei com algo definitivo

Com algo que assombraria os olhos vãos

Os olhos que são só do agora


Eu feri minha pele

Com uma marca mais antiga do que a ferida

Marquei-me com o símbolo da completude

Da interminável razão do pêndulo nosso


Com o ícone das tuas veias pulsantes

Dos teus sinais inebriantes

E de um sorriso que cega


Inspiro-me no teu paradigma de naturalidade

Na tua busca incessante pelo tudo

Entendendo a natureza das coisas

Sem contentar-se com as migalhas


Ah meu bem, a ferida ainda me dói

A cicatriz coça

E a cada martírio da pele

Eu sinto a doçura das tuas mãos em mim


Eu vejo na saudade das bocas

Na degustação das nossas salivas

A esperança inabalável das nossas mentes

E a progressão incessante dos nossos amores


Eu parti pelo ter

Não pelo querer

E na razão contida nos meus olhos

E a paixão irrompida em meu peito

Eu retornarei a algo que desde seu principio é sem retorno


Meu bem eu tive todas as razões para te deixar

Momentaneamente te deixar

Mas tive só uma pra permanecer

E permaneci

Insculpido em teu peito

Marcado em tua pele

Com a mais doce lembrança do que nunca precisa ser lembrado

Daquilo que jamais é esquecido

O infinito pródigo do nosso amor.

domingo, 17 de abril de 2011

CORDEL DO HOMEM DA NOITE


Criança eu queria a noite

Poeta sou de nascido

O pinho peguei de ouvido

Malandro, fugi do açoite


A noite hoje é criança

E o tempo me fez cachorro

Que gosta do som do choro

Da moça que o amor balança


Na doce ilusão dos goles

Afogo-me na imprudência

Garganta sente a ardência

De amargas bebidas torpes


Sou jovem, me sinto forte

Tem muito, dá pra gastar

Um trago não vai matar

Sem medo brinco com a s(m)orte


Me atrevo, me entrego aos vícios

Seresto na madrugada

Na boa fina vanguarda

De um Baden e de um Vinícius


Soberbo por entre os bares

Sobraço meus bons poetas

Gular, dentre outros profétas

Declamo altivo aos ares


Um pingo de álcool molha

A pagina aberta à mesa

Brindou roda viva sexta

Alegres todos em volta


A voz de um de nós da roda

Irrompe percuciente

Por entre os murmurios quentes:

"Salve boemia nossa!"


Na roda há linda moça

Que fito não sem maldade

Mais jovem, que bela idade

Vou dar-lhe uma boa bossa


Tem só dezenove aninhos

Seus olhos respondem aos meus

Seu corpo, obra de Deus

Já cabe nos meus carinhos


Direito, faz faculdade

Porém, o que hoje precisa:

De um bom professor da vida

Que ronde pela cidade


E olhar que dá trela a cão

É rápido enternecido

Pois, cão, de olhar bandido

Derrete bom coração


O cão se dirige a ela

Mansinho, um beijinho clama

Um "sim" dá desfecho à trama

É pinta nova paquera


Com dedos entrelaçados

Cachorro e sua nova dona

E esta reluz em chama

Se vão do bar enlevados


Agora, sós, no recinto

O cão será bon seller

E a moça será mulher

Farei e não me ressinto


Farei pois, se hoje não faço

Aí pela madrugada

Madrugam bons vira latas

Que fazem se o outro é fraco


Voltando ao nosso recinto...

Está tudo uma penumbra

Silêncio, uma catacumba

Molhado seu beijo sinto


Sem pressa, lhe mostro o pinho

Do bag saltei pra fora

Um pouco sua face cora

No braço ela faz carinho


Com dedos lhe toco as cordas

Produzo-lhe um som gostoso

Deleita-se ela em gozo

Penetro-lhe a bossa nova


Balanço cadenciado

Dá ritmo aos nossos corpos

Vermelha, ela fecha os olhos

Eu toco já extasiado


Sussurro-lhe ao pé do ouvido

Cantando minha crianção

É quando, de supetão

Seu roso abre um sorriso


A quem causei hoje um auge

De amor de uma bossa nova

Depois, quando eu for embora

Vai só cantar de saudade


A música dela foi-se

Pra sempre não toco a ela

Olhando pela janela

Pra sempre só toco à noite


quinta-feira, 14 de abril de 2011

Retorno

Tens o que nem sabes
Via teu sorriso em lua
Hoje vejo teus olhos em chuva
O teu rosto me arrancando em felicidade
Agora, com toda simetria da inércia de não sorrir

São tantas vozes me conturbando os ouvidos
O teu atual descaso
Se encerrando em poucas palavras
A nossa distância
Em monossilabas tuas

Acabas por contrabandear
Todo o amor de mim
Talvez não o amor
Mas pelo menos a felicidade sensível

Tramitas entre meus opostos
Ora és minha dor
Ora és minha alegria

Hoje meu amor por ti me trouxe alegria, como sempre
Mas teu amor por mim me trouxe descaso
Me trouxe a dor do abandono
Presenteando a minha calma com inquietude
Dando agonia à minha alma
Enquanto que a alegria me prende a ti
A dor, momentaneamente, desfaz todos os nós

Me soltei de ti por algumas horas
E retornei ao conforto da solidão
Não me desacostumo dela
Pois sei que sempre à ela retornarei
Como um filho
Que arrependido das aventuras que saiu para viver
Retorna à casa.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Centésima postagem do prosas!

Como a minha postagem anterior era a de número cem, senti-me na obrigação de criar esta postagem comemorativa.
O ricardo provavelmente faria uma postagem melhor sobre isto - inclusive por estar aqui desde o começo. Eu apenas torço para que avançamos para um número cada vez maior; sempre aumentando a qualidade, amadurecendo nossa escrita. Não crescendo sozinho, mas juntos, como bem canta a nossa marchinha.

E vivam as cem!

Diário de uma guerra

Eu estou postando algumas coisas em um blog particular, o http://www.machepapel.blogspot.com . Se alguém tiver interesse, deixo o aviso. Aqui vai a crônica.

Estava na penumbra. Evitava qualquer movimento; não podia ser visto. O medo me tentava, mas minhas ordens não permitiam que eu recuasse . Espreitava o jogo de sombras que podia revelar nosso inimigo. O local da batalha já mostrava que iríamos até o fim; o ambiente desfigurado e alguns corpos se retorcendo, tentando viver. Felizmente só via corpos inimigos. Mas não estava confiante.

Minhas pernas tremiam – sabia que só teria uma chance de sair vitoriso; meu movimento deveria ser preciso. De súbito ouvi um barulho, um ruído muito baixo, mas o suficiente para deixar em alerta ouvidos treinados. Vinham três, com o corpo fortemente protegido. Não havia brecha para erro, então eu aguardava cauteloso – em algum momento teriam que vacilar.

Continuaram andando, patrulhando em busca do inimigo; o resto do exército dependia da proteção destas. Quando passaram perto de mim e se entreolharam, de súbito percebi que já haviam me descoberto. Era uma armadilha, já sabiam de mim. Como tentavam me enganar, não empunharam rápido o suficiente as armas, então aproveitei e disparei, deixando um corpo no chão. O resto recuou, mas não costumo brincar em serviço: rápido acertei o que restava e então cumpri minha missão – enfraqueci a segurança. Depois saí do campo de batalha

Já em ambiente seguro, liguei para a liderança. Ninguém atendeu. Então voltei para casa, felizmente sem risco algum. Dormi com a consciência tranquila; achava até que poderia ganhar uma condecoração pelo serviço tão bem feito. Quando acordei esperava os melhores tratamentos possíveis – engano meu; apenas recebi a missão de enterrar as três vítimas da noite anterior. Depois de um dia de glórias, nada poderia ser mais degradante. Entretanto me resignei e deixei minha honra de lado. Peguei a pá e a vassoura e joguei as baratas no lixo. Estas foram adversárias fracas para mim. Mas a guerra continua – toda noite.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

O Traficante de Flores

Estava combinado de reunir em casa com uns amigos para ver um filme e discuti-lo. O horário marcado era nove horas. Esperaríamos o Felipe - que estava em uma confraternização - chegar para começarmos. A trupe foi chegando. Todos ansiosos até que o Felipe chegou. Junto com ele, vieram duas amigas dele que estavam na confraternização; uma delas, trouxe um grande e belo buquê de rosas. Nos cumprimentamos e fomos ao filme – clube da luta, assistido por um estudioso e curiosos por psicanálise.

O clima durante o filme era tenso. Não só pelo filme, mas também por todos desejarem compreendê-lo para depois discuti-lo. Ao término de uma das cenas de luta, a dona do buquê levanta-se e avisa: “Tenho que ir”. Uma pena ela ter que ir, mas na ânsia de logo continuar o filme, rápido nos despedimos e apertamos o play – ninguém percebeu o grande erro: o buquê ainda estava lá.

Quando o filme terminou, conversamos, discutimos, rimos... e ninguém percebeu que as flores estava tristes em cima de uma cadeira. Depois saímos todos para comer sem lembrar das pobres rosas – e eu aproveitei a carona. Na volta, alguém foi capaz de lembrar: ela saiu sem o buquê! Então falei para o Felipe logo buscar lá em casa, mas naquele horário ele preferiu deixar para o próximo dia. Pensei em insistir que pegasse naquele momento, mas era mais cômodo pegar depois, já que estava tarde. E então começou o meu suplício, que conto nesta crônica.

No outro dia, enquanto eu dormia, todos estranhavam a presença do buquê. E o murmurinho começou em casa: “Não é de ninguém? Então é do Gilberto? Por quê?” Felizmente quando acordei foi fácil resolver este problema; certamente estranharam alguém esquecer algo tão inusitado, mas... pelo menos sabiam que havia gente em casa no dia anterior e eu tinha meu álibi.

Tudo ia bem, até que o Felipe me liga: “desce que tô passando pra pegar.” Então percebi a situação em que eu me meti: eu teria que pegar o elevador, atravessar a portaria e entregar flores para um homem! Como eu explicaria a situação? Não são apenas pessoas, são porteiros! E quem não tem porteiro fofoqueiros, certamente não tem porteiro.

Munido do buquê saí do apartamento. Não tenho o menor problema com homossexuais, de modo algum; porém, muitos fazem coisas escondidos para não olharem torto para eles e mesmo assim olham. Imagina eu, entregando flores para um homem no meio da rua? Já estava vendo no futuro os porteiros, motoristas e funcionários do prédio me usando como alvo de chacota.

E já comecei bem minha epopeia. No elevador, três pessoas me olhando e eu me sentindo o Prof. Girafales. Um velho pergunta: quantos anos de namoro? Três, três... Vai levá-la para jantar? Claro, vou no... E assim fui tendo que mentir tudo. Talvez se eu morasse no dezessete eu pensasse em contar a história, mas... como eu moro no quarto, no momento em que eu falasse “Vou entregar, na verdade, para um amigo aí na frente...” e o elevador chegasse, não seria muito agradável.

Saí do elevador. Ao lado da portaria, parecia uma reunião do sindicado de motoristas unido com o de porteiros próximo à portaria; deveria ter umas seis pessoas que num círculo. Todos olharam-me e perscrutaram o buquê com o canto dos olhos. Continuei esperando o carro chegar e eles continuaram me olhando com hostilidade, provavelmente esperando que eu me justificasse por portar flores. Minha mente buscava uma solução, mas não havia... em alguns minutos eles me veriam entregá-las para o Felipe. Então tentei explicar toda a história. Não fui convincente. Não tenho sequer dúvidas de que quando saí falaram: “Até parece! Olha esse papo...". Então o telefone tocou e sussurrei:

- Já estou aqui em baixo, pode vir...

E finalmente o carro chegou e discretamente entreguei o buquê. Voltei caminhando de modo furtivo, e então passei pelo porteiro, pela reunião dos motoristas – todos me olhando descrentes – e entrei no elevador tentando não chamar atenção. Enfim minha tensão iria diminuir. Eu me acalmava, mas no fundo tinha certeza que isto não era uma situação para qualquer pessoa. Percebi que, depois de tantas mentiras, medos e receios, eu não era nada a mais do que um traficante – naquele dia de rosas, hoje também de orquídeas e girassóis; é só falar comigo.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Natureza Descomposta

Eu nasci eivado em solidão

Composto pela matéria alva do individual

Procurando em meio a olhos

A ridícula companhia da vida


Eu me encontrei no aperto confortável do peito

Na doença leve da alma

E na suave natureza solitária que aceitei ser minha


A ponta dos meus dedos é gelada

Sem nenhuma pretensão de tocar outra pele

Com pouca intenção de reformar a mim mesmo

Nem mesmo de fraturar a solidão alheia


Eu sou o que sou

De natureza individual

Sem companhia suficiente

Sem outro ser humano correspondente


Assim eu pensava

Mas não mais assim vejo


Vejo agora o aparecimento de doenças antigas

Seguindo de forma cogente a lei da cura

Troquei instintivamente

A suavidade da solidão

Pela dureza amável da companhia

Mas e minha natureza?

Onde fica?

Não era eu o homem auto-suficiente?

Não era eu o que independia do próximo?

Não era eu aquele que negava a fraternidade da minha natureza?

Não era eu aquele que investigava o âmago alheio

Com olhos de besouro e compaixão de lobo?

Que olhava o outro como uma peça de um estratagema lógico?


Não há sentido nisso tudo


Me recompus enquanto ser humano

Mas me indaguei o dilema de minha natureza

Como poderia eu ser um ser fraterno?

Como poderia eu ser companheiro?

Como poderia eu ter companhia?

Eu me conhecia pela solidão inveterada

E, na doçura do amadurecimento,

Me vi assim

E vi assim

Que não há natureza que possa me compelir

A ser algo diferente de meus sonhos.

sábado, 19 de março de 2011

Desnublar

Eu tenho passado dias sem um sol no céu

Dias em que as nuvens escondem a beleza celestial

Dias em que o negro do firmamento

Não me permite avaliar a beleza do acima

São dias úmidos e difíceis para a natureza

Dia em que tudo chora

Em que tudo lacrimeja


Eu tenho caminhado por ruas vazias e claras

Em que rostos estranhos e frios tem me chamado a atenção

Eu tenho andado por onde ninguém mais anda

Só as almas perdidas como antes a minha era

Pensam em dar passos largos e velozes

Em direção a um destino desconhecido

Indo de encontro com um objetivo até agora misterioso


Nada disso me importa

Nada disso me aflige nos dias que vivo


Vejo que nada entristeceu

Nenhum céu enegrece a toa

Nenhuma nuvem derrama lágrimas pelo simples ato

Nenhuma física explica o que se passa com a natureza


Tudo, na verdade

É composto por uma física volitiva e passional

Que o céu, as nuvens e o sol

Tem de reverenciar

Uma beleza tão cotidiana

Tão castanha

Tão grandiosa

Tão peculiar


A lógica esvaiu-se do natural


Hoje, as nuvens me cercam por essas ruas

Hoje, o pranto do céu só lava o chão por onde passo

E, hoje, o Sol saiu do céu e caminha a meu lado


É, meu bem

O mundo se rendeu a tua impaciência

A vida rendeu-se aos teus olhos grandes

Para que tu,

Inexplicavelmente

Desse a luz ao meu amor.

sábado, 12 de março de 2011

Inversos poéticos.

                                                                                                                                              Para Paulo Tamer,
                                                                                                                 

Inverso.

De fora...
O cascalho, o casulo, a casca, a capa, a casa, a cara.
Formam.

Mas é a reforma que morfa:
do cascalho, pro verme;
do casulo, pro inseto;
da casca, pro réptil;
da capa, pro herói;
da casa, pra alguém;
da cara, pra ser ninguém;

Estas cascas não são Verso:
- “Poesia é de dentro pra fora, e não o inverso”.

E, pelo Inverso,
sou livre.

Livre pra ser:
-De ninguém, eu mesmo.

(Assim,outra Ilógica).

terça-feira, 1 de março de 2011

Tão

É engraçado como a vida me acontece em etapas, intervalos, de uma forma irreverente e espontânea.

Eu, já tão velho

Eu já tão desgastado pela dureza da vida

Eu já tão reformado em retalhos

Já tão dilacerado por tantas emoções

Nenhuma tão relevante

Nenhuma tão producente

Nenhuma tão nobre


Eu já tão calejado por palavras

Já tão completo pela teoria

Já tão instruído dos males e firmes do amor

Já tão informado das faces duras da dor

Me vejo como nunca me vi

Não me reconhecendo em mim

Com uma dor sem motivo

Com uma ansiedade inebriante


Eu cai e não levantei

Me joguei e não me ergui

Me afundei onde muitos homens não puderam voltar

Me vejo agora dentro do que conhecia apenas em canto

Sou agora a personagem angustiada das minhas histórias

Aquela que se desfigura

Que se refrata

Que se dispõe a ser o que é em sua plenitude

Que se faz transparente e dinâmico

Que se entrega em pura paixão


Agora falo com mais propriedade

Pobres dos homens apaixonados

Fadados a dor confortável da saudade

De se esperar o que não chega na hora que deveria

Que não dá chance ao alivio

Quando a minha rosa se mistura com o feto

E a poesia transpira a dor que vicia

Que não deve cessar

O aperto no peito

O suor na cabeça

As mãos que também transpiram

Em pleno movimento de expectativa

Em plena fantasia de anti-reciprocidade


Eu vejo agora

Porque nas mentes inebriadas que eu descrevo

O mundo deixa de ser suficiente

A solidão deixa de ser companheira ideal

E tudo se torna pouco

O eu é muito pouco

O tu é tão distante

E o nós é o único produto sustentável da vida que agora recomeça.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

FORJA DE UM SENTIMENTO SEM NOME


“Acontece porém que não tinham preparo algum para dar nome às emoções, nem mesmo para tentar entendê-las (...).”



Que desejos inauditos repousam nas cores
difusas de uma aurora efêmera?

O que se oculta no roçar sutil do dourado nas nuvens?
Qual o gosto do vermelho solvido nos mares?
Por quem flamula a rosa nas areias?
O que vive no laranja soprado pelo vento?

Neste caos sinestésico
- e nada sutil -
habita um sentimento sem nome,
forjado da mesma matéria que é feita a aurora:
dúvidas, sóis e corpos.


Desejos, ainda que inefáveis, gritam
auroras são eternas.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Segredo

K(ai!) olhos e encostos
Cá (ando) e apertando e dando
Ás rubro de agosto
(Talvez te procurando...)

Por ais de mãos no rosto
K(ai!ei!) as horas me olhando
Na rua oculta de opostos
(Talvez te esperando...)

De tanto e por tudo e por mais
Cal(ei!) de jambos e dores
Em cruzes de espera e de sais

Por que me perderam as flores,
Nos jardins dos se cal(ais!)?
(Porque não sei chorar de amores...).

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Partida


Partiste sem dor

Com teus olhos deixando os meus

Sem pensar na ida

Ansiando pelo retorno


E a lua se pôs com a tua partida

Dando lugar a um sol de possibilidades

Desestabilizando toda angústia

Desconstruindo toda a lógica medíocre

Reformulando distância em saudade

Toda dor em vontade


És a morfina do mundo

Amenizando ou curando

Tudo que possa dar fim


Nada em ti ou em mim se finda

O nosso olhar silencioso

Grita e quebra os copos da solidão

Faz escuridão em companhia

Dando luz ao janeiro frio


Clarificas as palavras

Que parecem se complicar

E ter as mãos geladas

Ao tentar te explicar


És ser sem explicação

Que se vive em plenitude

Na constância do dinâmico

E na beleza do sensato


O final do teu tempo

Foi o início do próprio tempo em si

Foi o relógio que começou a correr

De forma tradicional

Sem hora pra parar

Sem contagem a fazer

Só mesmo dando ritmo a nós dois


As dúvidas padecem com a tua presença

Estremecem ao ouvir tua voz


Trazes a baixo a fortaleza

Do que se conhece por separação


A tua presença é vivida e vivificante

Como a primeira respiração consciente da manhã

Como o teu perfume

Ressuscitando o que se parecia perdido


Partiste me deixando a esperança pendurada no peito

Em um círculo formado

Como o que se formou

Sem início nem fim

Composto só por um percurso infindável de possibilidades

Onde o seu fim

Nada mais é do que o prelúdio do recomeço.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

O que se põe e o que nasce

Vi-te chorar feito criança que um dia vi

Um choro sem ritmo

Palavras que se repetiam

As lágrimas salgadas escorriam tomando teu rosto

Como as rochas sólidas são tomadas pela correnteza


Enxuguei-te o rosto

Tentando limpar-te a alma dos sofrimentos

Observando tua angústia que não queria cessar


Logo tua língua buscou a minha

Em uma dança de amor e prazer

Os corpos, ainda aquecidos pela lamúria,

Tocaram-se em um misto de saudade e vontade


As bocas que se encaixavam

Sob uma falta de métrica deliciosa


Como foi belo

Ver meus dentes te maculando os seios

Marcando a tua pele alva

Que guarda em si astros, flores e bichos

Tão natural quanto o que representas


As estrelas nesse instante

Já brilhavam como diamantes loucos

Sorrindo, antes de dormir com a chegada do sol


Pude vê-las em teus olhos

Que se abriam e se fechavam

Aproveitando o individual


Ver teu corpo na plena agonia do prazer

A tua voz ressoando pelo quarto em movimento

As tuas unhas me arrancando o lençol

Os teus dentes ferindo o travesseiro

Tentando sufocar os gritos do corpo

Foi como ver o doloroso parto da liberdade


Foi assim

O doce da tua pele

Borrado pelo amargo da minha saliva

O teu corpo trêmulo como tua boca

Me jurando o que eu na hora não podia crer


Teus cheiros e cabelos

Misturados com teu gosto sincero

Sendo deixados em minha cama


A minha pele e suor

Sendo deixados sob tuas unhas

Os teus pedidos e indicações

De querer levar o momento ao sempre

Aproveitando os segundos ingratos

Do tempo que não perdoa


Tu és de fato

A interseção entre o humano e o divino

A seta que paira sob a cabeça dos homens

Dando-lhes o presente dos céus

E me brindando com o calor da carne


Mas também me dás a paz

A paz que meu âmago deseja

A companhia que nunca pude ter

O anzol que me pesca da solidão


Me temes como quem teme um espelho

Mas por ti me refrato

Perco o compasso dos versos

Deixo de ser semelhança

Passo a formar-me diferença


Eu te conheci no raiar das nossas manhãs infantis

Te vivi em cada dia da vida que passou por meus olhos

Te encontrei no pleno gozo do teu egoísmo gracioso

Mas foi quando o sol de nossa infância se pôs

Que eu te tive como mulher.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Prelúdio da tristeza, Retorno à solidão

Escrever-te é entoar um hino

Celebrar a convivência

Tens um inicio calmo e fugaz

Um desenvolvimento nem tanto obvio

Nem muito belo

O fim do teu mundo é o que estremece


A vida normalmente é uma constante de pausas

Sons que se encerram

Amores que se findam

Luas que se apagam

Sois que nascem

Vidas de olhos abertos

Peitos que respiram


A minha vida sempre foi uma constante reta

Em uníssono canto de solidão

Onde o ser humano não me enche

Não me suporta

Não me completa

Não me acompanha


Os meus versos teimaram em dar-lhes um ponto final

Um fim que desse lugar a um novo começo

Um batuque novo

Um ritmo acompanhado

Em vão

Se perderão na solidão glamurosa

Inspiradora

Inconveniente

Insensata

Incapaz

E imbecil


Me foste uma virgula nisso tudo

Me és a virgula

A breve pausa de felicidade

O intervalo entre a constante solitária

Entre o poeta e o homem

Te perco agora

Deixo-te escapar-me como agua

Por entre meus dedos


Orbitei teu coração que ruge

Que berra

Que grita

Que soca

Toda a hipocrisia

Que me dá o impossível


Vejo meus olhos morrerem com tua partida

Com a angústia de olhar tuas costas me deixando

Com o sangue de esperança escorrendo em meu papel

Com o reencontro que me jubila com expectativas


Ver-me só novamente

É um suplício interminável e indeterminável

Pois nenhum outro ser

Me fez sentir parte de um todo

Como tu me fizeste

Como tu me deixaste


Eu me sinto só na multidão

Sentindo ombros vazios tocarem os meus

Corpos sem vida

Carnes andantes

Corações ambulantes


És o fantasma vivo por detrás dos meus olhos

A vida que nunca se finda


Me tornaste o verso que ganha outro verso

A palavra que sonha em se tornar estrofe

Fulminando em poesia


Ver teus olhos é sentir-me completo

A tua existência

É o meu amor

A tua partida, o meu martírio.