quinta-feira, 17 de junho de 2010

AMOR QUE TEM SEU FIM NAS ÁGUAS DA NÃO CONSUMAÇÃO

Tenho tudo a ti dizer, mas não há nada a ti dizer. Ti dizer que me inundei em tanto mar de amor quando – navegando ao léu – te avistei numa manhã, te afogará de susto certamente. Do amor desmedido e impossível que molhou minha alma, só a minha solidão sabe que no peito cabe. Mas teu amor, mulher do balcão, carece de bem mais que olhar contemplador de um homem Platão. Mesmo assim ousarei te perguntar: que queres?
Do teu querer, mulher do balcão, só tua infinita profundeza sabe. Mas dos teus olhos algo ínfimo escapa: teu querer é amar. Anseias a-mar um marinheiro exausto por ti e que seja só teu. Isso, meus olhos d’água desvãos conseguem beber nos teus, mesmo sem tua permissão.
Só quero que saibas que um dia um pequeno marujo contemplador de horizontes passou diante dos teus olhos e sonhou de perto um horizonte distante ao te avistar. Sonhei divagando, por um doce momento naquela manhã, descer aqueles degraus com os dedos entrelaçados aos teus e sair à luz da manhã de mãos dadas a tua delicada mãozinha branca de unhas lilás, pronto para velejar todos os teus sonhos de amor.
Platão é perfeição. Perfeição, minha fantasia. Fantasia é loucura (diante do real). Loucura é confessar-se a ninguém. A loucura e a madrugada autorizaram-me te dizer, ninguém, que cada um dos teus gestos foi naquela manhã, ao meu coração encharcado de amor-contemplação, o mais observado, o mais belo.
Mas, na vida, hás mesmo de ter um marinheiro melhor – concreto – apto a navegar ao teu lado nas árduas águas do mundo real.
Por um insano instante, quis louca e imensamente teu corpo e tua alma possuir, com toda minha delicadeza e firmeza de homem. Quis teu grande marinheiro ser. Querer ainda quero, mas o tempo, o dia, a rotina, a vida, o mundo real, apartaram levemente a loucura de mim. Aproximaram a bendita-maldita sanidade. E esta diz em meu ouvido em segredo: “poeta, te declara ao papel. Ele aceita teus desvarios, ela não, é real”.
Obedeci à sanidade. Eis o papel de confissões desvairadas. Mas também à desobedeci, pois a loucura, ao outro ouvido do poeta insistiu: “Entrega o papel a ela!”.

5 comentários:

  1. E como diria um outro poeta..."há sempre o que sortir nestes doendo..." =)

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  2. Bonita carta meu ilustre.
    Dom juam
    aueuaueuaeuuaueeaueu

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  3. Samantha Allevato19 de junho de 2010 03:20

    Meu, jovem, simplesmente adorei-o desde que leste ao telefone e vim roubar pra mim aqui do prosas...hehehe

    Beijoca!

    P.S.: Não tema entregar o papel jamais... (né, David?)

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  4. Felipe, amigo,


    Que beleza...
    Lindo demais...

    Que paixão gostosa esta...

    Quanta sinceridade em poucos parágrafos...

    "Marinheiro do (a)mar".


    Ricardo Evandro.

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  5. Obrigado, gente...

    que bom que gostaram

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