segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

O homem estátua 3

O Homem estátua ficou paralizado. E não pelo corpo que permanecia sobre banco enquanto sua mente percorria a memória da praça, nem pelos olhos que continuavam piscando para dar sinal de vida ao corpo metálico que agora se questionava em suas profundezas. Sua paralisia era uma constatação, um assombramento. Ele sabia que tinha dentro de si um segredo qualquer. E era uma coisa tão simples e ao mesmo tempo tão linda que o faria do alto da mangueira mais alta derramar poesia sobre toda a cidade, tal era a força do sentimento que portava. E quanto mais forte pulsava em seu peito aquela dor, aquela agonia de ver correr-lhe alguma coisa da alma, mais forte eram os grilhões que lhe prendiam ao silêncio, como se estivesse condenado para sempre à mera contemplação da vida.
Foi quando o homem estátua percebeu que portar este segredo, essa vontade de não sei o quê que sentia dentro de si e que era só dele, era como portar também sua incomunicabilidade. Algo de amargo lhe desceu pela garganta. E, por um minuto, olhou o céu como se não vivesse. Deixou-se então encantar um pouco mais com o resto de dia que ficava daqueles que haviam passado, deixando suas histórias, suas maneiras e seus passos. Ele sabia que sairia dali e mais uma vez percorreria a mesma rua, sentiria o mesmo cheiro da baía e confidenciaria o mesmo segredo com as proas, tentando quem sabe imaginar as histórias que deram nome aos barcos. Mais uma vez nada teria para dizer e tudo conteria dentro de seu infinito incomunicável. O homem estátua sentiu-se só. Desceu do banco, guardou seus pertences e fechou a maleta. As lágrimas que lhe caiam no rosto começaram a borrar levemente a maquiagem. Neste dia, o homem estátua chorou baixinho, como só se chora em Belém do Pará.

David Carneiro, em 21/11/09

2 comentários:

  1. Perfeito... me senti assistindo uma peça teatral... vendo o ato 1, 2 e 3 serem encenados. Ai David, vc como sempre magnífico em suas palávras. bjs

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  2. David,eu sou tua fã! Me da um autografo? haha
    Parabéns! Foi um texto gostoso,detalhista...Me senti,perfeitamente,na Batista Campos,em um dia de domingo.Esse é o melhor estilo de texto,na minha opinião! Acho que esse foi um dos melhores teus,que eu ja li,se não o melhor. Muito bom,mesmo!

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